No rol de contribuições ao mundo nesta nova era, a
Inteligência Artificial pode também ajudar a salvar vidas no trabalho de “chão
de fábrica”. A partir do uso da IA com o videomonitoramento as indústrias e
empresas de construção civil terão como monitorar com muito mais exatidão a
utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) por seus colaboradores
em áreas de risco. O Brasil tem convivido há décadas com um problema grave e
persistente, os acidentes de trabalho, e algo precisa ser implementado
concretamente para defrontar esse malefício aos trabalhadores.
Para se ter uma visão mais nítida deste problema,
no primeiro semestre de 2025, o país registrou 380 mil ocorrências e 1.689 mortes,
segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Em comparação com o mesmo
período de 2024, houve aumento de cerca de 9% nos acidentes e mais de 5% nos
óbitos. Esses números não são apenas estatísticas, eles representam
trabalhadores acidentados, famílias impactadas e perdas humanas e econômicas
que poderiam, muitas vezes, ser evitadas, com medidas razoavelmente
descomplicadas.
Diante disso, o uso de inteligência artificial no
monitoramento da segurança laboral surge como uma alternativa promissora e
necessária. Sendo assim, uma das iniciativas recentes e promissoras são os
sistemas de videomonitoramento baseados em IA capazes de verificar, em tempo
real, se trabalhadores utilizam corretamente equipamentos de proteção
individual (EPIs), como capacetes e coletes reflexivos. A tecnologia analisa
automaticamente as imagens das câmeras de vigilância e alerta responsáveis pela
segurança quando identifica comportamentos de risco. Para isso, utiliza
algoritmos desenvolvidos especialmente para esta finalidade.
A principal vantagem desse tipo de solução está na
escala e na velocidade. Sistemas automatizados conseguem monitorar
simultaneamente dezenas ou centenas de câmeras, algo humanamente impossível
para um operador. Além disso, a tecnologia permite alertas instantâneos para
equipes de segurança ou analistas de QSMS (Qualidade, Segurança, Meio Ambiente
e Saúde), inclusive por aplicativos de mensagem. Na prática, isso pode
significar a diferença entre prevenir um acidente e reagir apenas depois que
ele ocorre.
Há também uma dimensão comportamental importante.
Em ambientes como canteiros de obras ou plantas industriais, o uso contínuo de
EPI costuma gerar desconforto, levando alguns trabalhadores a retirar o
equipamento ao longo da jornada. Embora essa atitude seja compreensível do
ponto de vista humano, ela aumenta significativamente o risco de acidentes. Os
novos sistemas que detectam rapidamente a ausência do equipamento e alertam a
equipe responsável podem ajudar a criar uma cultura de segurança mais consistente
e efetiva, e por consequência, melhorar significativamente a redução nos
acidentes de trabalho no Brasil.
Naturalmente, o uso de videomonitoramento com
inteligência artificial levanta discussões sobre privacidade e vigilância no
ambiente de trabalho. Nesse sentido, ferramentas de anonimização — que ocultam
a identidade das pessoas nas imagens — e a adequação à Lei Geral de Proteção de
Dados Pessoais (LGPD) são elementos fundamentais para garantir que a tecnologia
seja utilizada de forma ética e legal. A linha entre proteção e controle
excessivo é delicada, e as empresas precisam tratá-la com transparência.
Apesar dessas preocupações legítimas sobre a
privacidade pessoal, é difícil ignorar o potencial da tecnologia para reduzir
acidentes. Se utilizada com responsabilidade, a inteligência artificial pode
funcionar como uma aliada da prevenção, ajudando a identificar situações de
risco antes que se transformem em tragédias. Além disso, em vez de substituir
profissionais de segurança, ela tende a ampliar sua capacidade de atuação.
No fundo, a discussão sobre IA no monitoramento de
EPIs não é apenas tecnológica, é também cultural. Trata-se de reconhecer que
preservar vidas deve ser prioridade absoluta nas organizações. Se a tecnologia
pode contribuir para isso, ela merece ser considerada não como instrumento de
vigilância, mas como ferramenta de prevenção de acidentes. Afinal, no ambiente
de trabalho, segurança nunca deveria ser opcional. Sem fiscalização ou
monitoramento, é até natural ocorrer relaxamento no uso do EPI, o que aumenta
significativamente o risco de acidentes.
Além dos danos físicos e psicológicos ao
trabalhador, as ocorrências nas plantas industriais ou nos canteiros de obras
geram diversos impactos financeiros, como afastamentos e pagamento de
benefícios, processos trabalhistas e indenizações, interrupções na produção e
aumento do emprego do seguro, além da elevação de encargos relacionados ao
risco ocupacional.
A legislação brasileira de segurança do trabalho,
especialmente a do Ministério do Trabalho e Emprego por meio da Norma
Regulamentadora nº 6 (NR‑6) estabelece que a empresa deve fornecer
gratuitamente os EPIs adequados. Precisa ainda treinar e orientar os
trabalhadores e também exigir e fiscalizar o uso correto dos equipamentos.
O aperfeiçoamento da cultura de segurança é uma
condição imprescindível para a saúde e segurança dos empregados. Quando a
empresa monitora regularmente o uso de EPIs, ela envia uma mensagem inequívoca
a sua força de trabalho de que a segurança é uma prioridade sua também. Isso
contribui para a formação de uma cultura organizacional onde os funcionários
tendem a entender melhor os riscos de forma mais consciente. Assim, eles passam
a aumentar sua a atenção para a própria proteção e até exigir condutas com mais
responsabilidade dos colegas.
A gestão da segurança profissional não está
contando com novas tecnologias como o videomonitoramento com Inteligência
Artificial. A partir desse novo momento há novos sensores conectados aos
equipamentos e até checklists digitais de segurança. A
Fundacentro, uma fundação pública brasileira, vinculada ao Ministério do
Trabalho, que estuda, pesquisa e difunde conhecimento sobre segurança e saúde
no trabalho (SST), revelou que no País, em 2023, ocorreram 83,65 acidentes de
trabalho por hora, ou 2.007,54 por dia,
totalizando 732.751 casos.
Caberá aos empresários brasileiros refletirem com mais severidade e dimensionarem o quanto o uso correto de EPIs no chão de fábrica é essencial para reduzir acidentes, cumprir a legislação, melhorar o desempenho operacional das empresas e principalmente salvar vidas.
Emerson Douglas Ferreira - administrador e especialista em inteligência de negócios e inovação com inteligência artificial, auxiliando empresas e executivos na tomada de decisão e transformação digital, atuando na área de TI desde 1989. É CEO e fundador da Meeting Soluções Estratégicas.
Mais informações eferreira@meeting.com.br
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