Foi o que apontou artigo de
revisão publicado por pesquisadores da Unesp; segundo os autores, porém, ainda
não há consenso sobre os reais impactos do ciclo menstrual, da perimenopausa e
da menopausa porque parte dos estudos adota metodologia inadequada
Inconsistência de métodos usados para controlar os hormônios
sexuais fazem com que haja os resultados mais diversos e,
por consequência, inconclusivos, diz pesquisadora
(imagem: Rawpixel.com/Freepik)
As
oscilações hormonais ao longo da vida das mulheres são um dos fatores que mais
influenciam o sistema imunológico. Como em uma gangorra, a variação de
estrogênio e progesterona incidem em nível celular, alterando o perfil
imunológico e inflamatório. É nos dias que antecedem o período menstrual (fase
lútea), por exemplo, que a atividade inflamatória é mais intensa. Na menopausa,
a queda dos hormônios sexuais promove um estado pró-inflamatório.
Apesar do entendimento sobre a
relação entre oscilações hormonais e sistema imunológico ter avançado, ainda
não há consenso entre os cientistas sobre os reais impactos do ciclo menstrual,
da perimenopausa e da menopausa na imunidade das mulheres. E o motivo para isso
é banal: a falta de caracterização adequada do ciclo menstrual em uma parte dos
estudos sobre o tema.
Foi o que demonstrou um
trabalho de revisão realizado por pesquisadores da Universidade Estadual
Paulista (Unesp), em Presidente Prudente, apoiado pela FAPESP. Ao revisar
os principais estudos pulicados sobre o tema, os pesquisadores constataram que
muitos deles ainda se baseiam em métodos simplificados, como o uso de
aplicativos de celular, para definir em que fase do ciclo menstrual a mulher se
encontra.
“De acordo com a principal
diretriz internacional, métodos simplificados apenas nos informam se a pessoa
está em período menstrual ou não, e isso não é suficiente para fazer estudos
científicos. É preciso utilizar uma combinação de métodos para identificar se
ela está na fase folicular, ovulatória ou lútea, pois em cada uma dessas etapas
ocorrem variações da progesterona e do estrogênio, hormônios que têm
implicações distintas para o sistema imunológico”, explica Barbara de Moura Antunes,
pesquisadora que conduziu o estudo.
Antunes explica que essa lacuna
metodológica tem gerado resultados contraditórios nas pesquisas sobre o tema.
“A inconsistência e a diferença dos métodos utilizados para controlar os
hormônios sexuais fazem com que tenhamos os resultados mais diversos e, por consequência,
inconclusivos. E isso não preenche lacunas do conhecimento, apenas gera mais
confusão e desinformação”, conta.
Para a pesquisadora, a falta de
consenso e de rigor nas pesquisas vem de um problema anterior: a falta de
inserção de aspectos da mulher nos estudos científicos. “Por muitos anos se
preconizou que tanto ensaios clínicos quanto estudos de experimentação animal
fossem realizados apenas com homens ou animais machos. Mas acontece que o corpo
feminino vive em constante flutuação hormonal, diferentemente do
masculino, que mantém níveis mais estáveis ao longo da vida. Ignorar essa
dinâmica compromete a compreensão da saúde da mulher”, afirma.
O estudo de revisão publicado na revista Maturitas abre
uma nova linha de pesquisa que pretende investigar de modo mais aprofundado
essa relação e o impacto do exercício físico nesses diferentes cenários ao
longo da vida da mulher.
A equipe responsável pelo artigo
agora se prepara para uma nova etapa: a realização de um estudo original com
mulheres brasileiras que promete preencher essas lacunas. “O nível de atividade
física ou o condicionamento físico, associado com as flutuações hormonais,
impacta na resposta inflamatória? Existe um tipo ideal de exercício físico
quando falamos de imunidade? As variáveis do treinamento deveriam ser ajustadas
ao longo do tempo? Qual o impacto dessa oscilação hormonal na mulher
sedentária, ativa e treinada? Tudo isso pretendemos investigar no intuito de
ampliar a compreensão sobre a saúde de metade da população", conta a
pesquisadora para a Agência FAPESP.
A pesquisa será dividida em
duas fases. A primeira vai analisar mulheres em idade reprodutiva (entre 18 e
35 anos), classificadas por níveis de aptidão cardiorrespiratória. O intuito
será investigar como as diferentes fases do ciclo menstrual modulam a resposta
inflamatória. Já a segunda fase incluirá mulheres na pré-menopausa, menopausa e
pós-menopausa, também divididas por níveis de condicionamento físico, para
avaliar os efeitos do declínio hormonal.
Antunes explica que até agora o
que se sabe nessa área é que, durante a vida reprodutiva da mulher, os níveis
de estradiol (um tipo específico de estrogênio) e progesterona oscilam ao longo
do ciclo menstrual, influenciando diretamente o sistema imunológico. Essas
flutuações hormonais afetam células imunes, como monócitos e linfócitos, que
possuem receptores para hormônios sexuais e, consequentemente, respondem a esse
estímulo produzindo citocinas – proteínas sinalizadoras que regulam a
inflamação.
Ela conta que da menstruação
até a ovulação (final da fase folicular), o estrogênio está em alta e a
progesterona em baixa, favorecendo uma resposta anti-inflamatória e melhor
desempenho físico e cognitivo. Já na fase lútea, que antecede a menstruação, o
cenário se inverte: o estrogênio cai e a progesterona sobe, tornando o
organismo mais suscetível à inflamação, ao cansaço, com maior percepção de
fadiga e possível atraso na recuperação muscular.
Os estudos conduzidos pelo
grupo mostram que na fase folicular há maior presença de marcadores
anti-inflamatórios e protetivos à saúde (como IL-1ra e HDL-c), enquanto na fase
lútea predominam marcadores pró-inflamatórios (como TNF-α e IL-6).
“Com o envelhecimento,
especialmente na menopausa, ocorre um declínio acentuado do estradiol, o que
está associado a diversos problemas de saúde, como doenças cardiovasculares,
perda de massa muscular [sarcopenia], osteoporose e alterações no metabolismo
lipídico."
Os estudos analisados mostraram
ainda que o exercício físico, mesmo não revertendo a queda do estradiol, atua
como uma ferramenta poderosa para prevenir e tratar os efeitos negativos do
envelhecimento. “Ele melhora a produção de citocinas anti-inflamatórias,
fortalece músculos e ossos e ajuda a manter a saúde geral da mulher em todas as
fases da vida."
O artigo Immunometabolic
insights into women's health across all ages pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0378512225005274.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/flutuacao-hormonal-afeta-imunidade-de-mulheres-mas-exercicio-fisico-pode-mitigar-o-efeito/56598


