Imagino que ninguém aprecie viver em circunstâncias hostis. Não obstante, muitas das nossas cidades nos ameaçam, os bairros nos negam qualquer sociabilidade, as ruas tornaram-se um lugar de trânsito apressado para dentro de residências fechadas; casas fechadas já não nos tranquilizam.
Temos muito
pouca alternativa à vida citadina. Nossa vida urbana, contudo, está ficando sem
urbanidade: a civilidade anda escassa, a cortesia com estranho\as expõe a
riscos. Estamos sovinas de modos afáveis. Mas não é por gosto. Em verdade nos
poupamos por medo.
Vivemos um
medo difuso, a violência nos vem de todas as maneiras, pode estar em todos os
lugares. Não sabemos a quem temer. A agressão extrapolou do\as que ostentam a
condição abastada, alcançando os pontos de ônibus, as escolas, os lares simples
das periferias.
Acabou a
paz social. Fazemos mais mortos por violência urbana do que o fazem as guerras civis
mundo afora. E se morre por muitas formas: criminoso\as de profissão matam,
policiais que viraram bandido\as matam. Mesmo policiais corretos\as perdem-se,
passam-se da conta, matam.
Estamos
mal. “Das 50 cidades mais perigosas do mundo, um terço fica no Brasil, conforme
relatório da fundação City Mayors, centro de estudos dedicado a temas urbanos.
O critério para a elaboração da lista foi o número de homicídios registrados
por ano em cada grupo de cem mil habitantes.
O Brasil é
o país de maior presença na lista, com 16 cidades. Depois, o México, com 9; a
Colômbia, com 6; a Venezuela, com 5; os Estados Unidos, com 4; a África do Sul,
com 3; Honduras, com 2. Guatemala, El Salvador, Jamaica, Haiti e Porto Rico
apresentam uma cidade cada um” (Mariana Barros, Cidades sem fronteiras, editado).
O documento
explica que o maior risco é o de a pessoa ser atingida durante batalhas entre
gangues rivais, ou seja, por “balas perdidas”. Eu acrescento que igualmente se
morre por balas perdidas em batalhas entre policiais e traficantes e, suponho,
por execuções sumárias praticadas por policiais.
Segue a
“radiografia” das nossas cidades mais perigosas (taxa de homicídios por 100 mil
habitantes e posição no ranking mundial): Maceió (80, 5); Fortaleza (73, 7);
João Pessoa (67, 9); Natal (58,12); Salvador (58, 13); Grande Vitória, (57,
14); São Luís (57, 15); Belém (48, 23); Campina Grande (46, 25); Goiânia (45,
28); Cuiabá (44, 29); Manaus (43, 31); Recife (37, 39); Macapá (37, 40); Belo
Horizonte (35, 44); Aracaju (33, 46).
Talvez
surpreenda o fato de São Paulo e Rio de Janeiro não estarem na lista. Bem,
apesar de o maior número de notícias sobre assassinatos narrarem as desditas
urbanas dessas metrópoles, a maioria das cidades que sofrem com esse tipo de
violência é de pequeno ou médio porte (até 500 mil habitantes).
A violência
já nos atinge como um fenômeno nacional generalizado. A taxa de homicídios no
Brasil nos coloca em sétimo lugar entre aqueles países onde mais se mata no
mundo. São 27,1 mortes para cada 100 mil pessoas (http://migre.me/ok8xq). Esse é o “estado geral da nação”.
Muita gente
considera que essa é a natureza das coisas. Uma narrativa ideológica falsa.
Isso é a nossa História. Nós a produzimos socialmente excludente. Restamos
socialmente complicados: temos péssima distribuição de renda, baixa
escolaridade, precário sistema de saúde pública.
Estamos
expostos às consequências da História. Para aliviarmos o temor das ruas,
investimos em segurança privada. Segundo o Ipea, o gasto beira os 40 bilhões (http://migre.me/ok99A). A guerra particular não é a melhor opção. Talvez
fosse o caso de investir essa cifra em urbanidade.
Este
artigo, eu o publiquei há 15 anos. De lá para cá a violência piorou e
alastrou-se para o interior. As 10 cidades mais perigosas do Brasil, segundo o
Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, estão concentradas no
Nordeste: Maranguape (CE), Jequié (BA), Juazeiro (BA), Camaçari (BA), Cabo de
Santo Agostinho (PE), São Lourenço da Mata (PE), Simões Filho (BA), Caucaia
(CE), Maracanaú (CE), Feira de Santana (BA). São altíssimas as taxas de
homicídio, em razão, sobretudo, de disputas de facções.
Pernambuco
é governado pelo PSD, Bahia e Ceará têm governo do PT (partido que se há como
de esquerda). Não vejo a situação geral como culpa da esquerda, todavia, pois
não foi ela que instaurou as péssimas condições sociais do Brasil. Os cinco
séculos de injusta história que contamos são de responsabilidade da direita.
Deu no que deu; não deu bem.
O último
quarto de século, entretanto, foi gerenciado hegemonicamente pelo PT. Não há como
negar-lhe parcela importante de responsabilidade. Aliás, importante ressaltar:
não obstante a violência distribuir-se “democraticamente” pelo território
nacional, o governo estadual cuja polícia é a mais letal é o da Bahia, que é
petista. Então, a direita mata bandidos, a esquerda mata ainda mais, todavia, a
criminalidade não é reduzida.
Urbanidade
já não basta. A opção por mortandade não resolveu nada. Inexiste argumento
moral ou econômico que justifique matar os desfavorecidos desta rica economia
com a maior diferença de renda do Planeta. A direita propõe mais repressão; a
esquerda discursa convivência justa. Fico com a esquerda, mas se há de cumprir
a sempre adiada promessa de igualdade social, ou, na prática, esquerda e direita
restarão igual.
Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista
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