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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

SUS precisa da inteligência artificial para enfrentar colapso neurológico


A neurologia tornou-se um dos maiores desafios silenciosos da saúde pública brasileira. O envelhecimento da população e o avanço de doenças como epilepsia e Alzheimer têm pressionado um sistema que já opera próximo do limite. Um estudo de 2021, publicado na revista The Lancet Neurology como parte do projeto Global Burden of Disease — que mede o impacto global de doenças, lesões e fatores de risco — estimou que mais de 3,4 bilhões de pessoas vivem com alguma condição neurológica. Trata-se de doenças que já figuram entre as principais causas de incapacidade e mortalidade no mundo. No Brasil, o cenário é igualmente crítico, agravado por desigualdades regionais que dificultam o acesso ao diagnóstico e ao cuidado especializado. 

O Sistema Único de Saúde é uma das principais conquistas sociais do país, mas opera no limite de sua capacidade. Na neurologia, essa sobrecarga revela gargalos estruturais: exames essenciais como eletroencefalograma (EEG) e neuroimagem são escassos fora das capitais. Além disso, a Demografia Médica do Brasil de 2023, levantamento que mapeia a distribuição e atuação dos médicos no país — realizado pela USP e pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN) —, confirma que 70% dos neurologistas atuam nas capitais. Essa concentração cria um cenário em que pacientes de áreas remotas são obrigados a percorrer longas distâncias e enfrentar filas, atrasando diagnósticos e comprometendo a eficácia do cuidado. 

Nesse contexto, a inteligência artificial precisa deixar de ser exceção e passar a integrar a política pública de saúde. Seu uso já demonstra resultados concretos. Estudo da Mayo Clinic, com mais de 11 mil EEGs, mostrou que algoritmos identificam padrões que não são percebidos na análise humana, antecipando diagnósticos de condições como demência e Alzheimer. A IA também reduz o tempo de emissão de laudos e aumenta a precisão diagnóstica, dois fatores diretamente relacionados à efetividade do atendimento neurológico. 

No Brasil, algumas experiências locais apontam nessa direção. Em São José dos Campos (SP), a teleneurologia como uma tecnologia bem aplicada facilitou e ampliou o acesso a especialistas, evitando o deslocamento dos pacientes e evitando internações. Mas são iniciativas pontuais, que não substituem a ausência de uma política nacional de saúde digital. O SUS ainda depende de sistemas antigos, processos manuais e baixa integração de dados — fatores que limitam a digitalização da neurologia e reduzem sua capacidade de resposta. 

A telemedicina, quando implementada de forma contínua e com infraestrutura adequada, pode ampliar o acesso ao cuidado neurológico e reduzir desigualdades entre regiões. Para isso, precisa ser incorporada de maneira definitiva, e não tratada como solução provisória. 

Também é necessário enfrentar os dilemas éticos da adoção tecnológica na saúde. Transparência dos algoritmos, proteção de dados e centralidade da decisão médica devem ser garantidos por marcos regulatórios consistentes e estruturas de governança auditáveis. Isso demanda investimento em capacitação, monitoramento técnico e uma política de inovação com responsabilidade. 

A omissão já tem consequências conhecidas: diagnósticos tardios, perda de autonomia, sobrecarga hospitalar e desperdício de recursos públicos. A inteligência artificial, quando aplicada com critérios técnicos e regulatórios, pode descentralizar o cuidado, ampliar o acesso e melhorar a gestão das doenças neurológicas. O que falta não é tecnologia. Falta decisão política para que essas soluções saiam do papel e transformem o atendimento. 

Hoje, o SUS enfrenta uma encruzilhada: continuar operando no limite, enquanto milhões aguardam diagnóstico e tratamento, ou adotar a inteligência artificial como ferramenta estruturante para transformar a neurologia pública. O desafio é político, e a resposta, urgente. Sem isso, a saúde neurológica seguirá sendo um problema silencioso, mas devastador para o país.
 

Heitor Ettori - médico neurofisiologista e Cofundador da Neurogram, healthtech pioneira na centralização e análise de dados neurológicos.

 

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