Estudos mostram
que atitudes simples no dia a dia e trabalho conjunto com a escola ajudam a
formar meninos e meninas mais respeitosos, seguros e solidários
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Aprender a conviver com o diferente não é apenas
uma lição de comportamento, mas uma habilidade essencial para a vida. Pesquisas
recentes mostram que pequenas atitudes diárias - como conversas, exemplos e a
observação do comportamento positivo dos adultos - têm impacto direto na
formação de crianças mais respeitosas, solidárias e seguras. Afinal, quando o
uso excessivo das telas pode afastar mais do que aproximar, o convívio real
pode ser escasso para muitas crianças.
Nesse contexto, é fundamental que, desde cedo, elas
aprendam a reconhecer e respeitar os pensamentos, sentimentos, necessidades e diferenças
umas das outras, desenvolvendo habilidades como empatia, respeito e tolerância.
Isso pode ser feito de diferentes maneiras e a escola tem, também, papel
importante nesse processo. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento
que orienta o que todas as crianças brasileiras devem aprender ao longo da
Educação Básica, diversos trechos falam sobre isso. “A criança não nasce
preconceituosa. Ela aprende observando e repetindo comportamentos dos adultos.
Se conseguimos ensinar o preconceito, conseguimos também ensinar o amor e o
respeito”, explica a gerente de Marketing e Produto da Aprende Brasil Educação,
Damila Bonato.
Entre as metas da BNCC, assim como o aprendizado de
componentes curriculares como Língua Portuguesa e Matemática, estão o desenvolvimento
da empatia, do diálogo e da valorização da diversidade. Dentro da área de
Ensino Religioso, por exemplo, uma das competências específicas a serem
desenvolvidas é, justamente, “conviver com a diversidade de crenças,
pensamentos, convicções, modos de ser e viver”. Para a BNCC, o componente
curricular de Ensino Religioso deve ter caráter não confessional, ou seja, não
deve tratar especificamente de uma religião, mas justamente da pluralidade de
perspectivas religiosas e, inclusive, não religiosas. De acordo com
especialistas, o que realmente consolida esses valores é o que é vivenciado
pela criança por meio do exemplo e das conversas do dia a dia.
O que a ciência diz sobre
tolerância na infância
A ciência confirma que a tolerância é uma
habilidade aprendida e fortemente influenciada pelas relações familiares. Um
estudo publicado na BMC Psychology em 2024 observou mais de
200 crianças chinesas de quatro a cinco anos e constatou que aquelas com maior
desenvolvimento da “teoria da mente” - capacidade de compreender que outras
pessoas pensam e sentem de maneira diferente -, apresentaram níveis mais altos
de empatia e sensibilidade moral. Em outras palavras, essas crianças tendem a
se preocupar mais com o bem-estar dos outros.
Outro levantamento recente, publicado pela Springer
em 2025, identificou que crianças com maior autorregulação emocional, ou seja,
a capacidade de lidar com frustrações e controlar impulsos, demonstram mais
empatia e comportamentos pró-sociais. Assim, quanto mais a criança aprende a reconhecer
e regular suas emoções, mais tolerante e cooperativa tende a ser também para
com os outros. Isso significa que ensinar a criança a respirar fundo, esperar a
sua vez e reconhecer, identificar e nomear o que sente contribui também para o
desenvolvimento do respeito.
Por fim, uma revisão científica publicada no
periódico Children no ano passado destaca que pais que reconhecem e
validam as emoções dos filhos favorecem o desenvolvimento emocional equilibrado
e empático. Esse tipo de postura aumenta a autoestima infantil e reduz
comportamentos agressivos. “O que os pais fazem importa muito. Cada conversa e
gesto de escuta é um ensinamento silencioso sobre como viver em sociedade.
Quando os pais demonstram paciência, escutam com atenção e valorizam opiniões
diferentes, estão ensinando tolerância na prática”, ressalta Damila.
Trabalho em equipe
A construção da tolerância deve ser uma tarefa
conjunta entre família e escola. Enquanto o ambiente escolar cria oportunidades
de convivência e cooperação, o lar reforça o que a criança vivencia ali,
transformando valores em atitudes. “Educar é mais do que ensinar conteúdos. É
formar seres humanos capazes de ouvir, compreender e respeitar o outro. A
tolerância é o início de todas as relações saudáveis”, lembra a especialista.
Na escola, explorar valores, princípios éticos e
questões existenciais durante as aulas de qualquer dos componentes
curriculares, mas especialmente as de Ensino Religioso, ajuda a solidificar o
que é vivido em casa. “Esse componente curricular, de caráter não confessional,
trabalha valores, diálogo e respeito e promove uma convivência harmônica nos
muitos espaços sociais. Nas aulas de Ensino Religioso, as crianças compreendem
melhor as semelhanças humanas e as diferenças individuais, visto que somos
humanos, mas também somos todos diferentes, cada um com suas singularidades”,
completa.
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