O episódio envolvendo o ator Henri Castelli durante o Big Brother Brasil reacendeu discussões nas redes sociais sobre convulsões e saúde neurológica.
No entanto,
segundo o Dr. Matheus Trilico, neurologista e referência no tratamento de
adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Déficit de
Atenção e Hiperatividade (TDAH), é preciso cautela ao se afirmar, apenas com
base nas imagens disponibilizadas, que se tratou de uma convulsão.
“Convulsões
são diagnósticos clínicos. Elas exigem avaliação médica, análise do contexto,
histórico do paciente e, muitas vezes, exames complementares. Existem diversos
quadros que podem simular uma crise convulsiva, como síncope, hipoglicemia,
queda de pressão ou exaustão extrema”, explica ele.
De acordo
com o Dr. Trilico, uma convulsão ocorre quando há uma descarga elétrica
excessiva e desorganizada no cérebro. As causas são variadas e incluem
epilepsia, alterações metabólicas, privação de sono, infecções, traumas
cranianos, uso ou suspensão abrupta de medicamentos, além do consumo de álcool
ou drogas.
Convulsões podem ocorrer mesmo sem histórico
neurológico
Um ponto
pouco conhecido pela população é que crises convulsivas podem acontecer mesmo
em pessoas sem diagnóstico prévio de doença neurológica. “Estresse físico e
emocional intenso, privação de sono, desidratação e esforço prolongado,
especialmente quando combinados, podem funcionar como gatilhos. Isso não
significa, necessariamente, epilepsia, mas indica que o cérebro entrou em
estado de sobrecarga”, afirma.
Os sinais
mais conhecidos de uma convulsão incluem movimentos involuntários, rigidez
muscular, alteração ou perda de consciência, salivação excessiva e confusão
mental após o episódio. No entanto, o médico ressalta que nem toda convulsão é
intensa ou evidente, e algumas crises são sutis.
O que fazer — e o que não fazer — durante uma
crise?
O
neurologista alerta para práticas equivocadas ainda muito difundidas. “Puxar a
língua é um mito perigoso e pode causar lesões graves”, destaca.
A conduta
correta inclui proteger a pessoa contra quedas, afastar objetos ao redor, não
conter os movimentos, colocá-la de lado, se possível, para facilitar a
respiração, e acionar atendimento médico após o episódio.
Ambientes de alta pressão exigem atenção
redobrada
Reality
shows, segundo o Dr. Trilico, reúnem fatores de risco importantes para o
sistema nervoso, como confinamento, privação de sono, pressão emocional
constante e esforço físico. “Mesmo que um evento seja isolado, o acompanhamento
médico é fundamental para descartar causas graves e prevenir novos episódios”,
ressalta.
A relação entre convulsões, TEA e TDAH em adultos
O
neurologista também chama atenção para uma associação ainda pouco discutida: a
relação entre epilepsia, TEA e TDAH na vida adulta. Pessoas com autismo
apresentam risco aumentado de epilepsia, e a relação entre epilepsia e TDAH é
considerada bidirecional.
“Essas
condições compartilham mecanismos neurobiológicos e genéticos. Na prática
clínica, isso impacta diretamente o diagnóstico, o tratamento e a qualidade de
vida do paciente adulto. O manejo exige abordagem multidisciplinar e atenção
especial à escolha de medicamentos, devido às possíveis interações entre
anticonvulsivantes e fármacos usados no TDAH, alerta Dr Matheus.
Mais informação, menos julgamento
Para o Dr. Matheus Trilico, episódios neurológicos não devem ser tratados como espetáculo. “É preciso responsabilidade. O cérebro é sensível ao ambiente, ao estresse e à privação. Informar com qualidade é uma forma de promover saúde e reduzir estigmas”, conclui.
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818. Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista
Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
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