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sábado, 7 de novembro de 2026

Vestibular à vista? 6 dicas de saúde para ir bem nas provas

Especialistas da Rede Américas explicam como sono, alimentação, estresse e o uso de estimulantes sem receita interferem na memória e no desempenho dos estudantes

 

Chega novembro e com ele o ENEM e a temporada de vestibulares para as principais instituições de ensino do país. Além de testes de conhecimento, os estudantes ficam submetidos a verdadeiras provas de resistência, disciplina e disposição. Na reta final, é comum trocar horas de sono por uma última revisão de conteúdo, pular refeições e recorrer a café e energéticos para tentar render mais, mas será que essa é a melhor estratégia? Ouvimos uma neurologista e uma psiquiatra para entender como o corpo e o cérebro respondem a essa rotina de preparação e o que ajuda (ou atrapalha) no dia da prova.


1. A qualidade do sono é essencial para a fixação de conteúdo

O sono participa da fixação do que foi estudado durante o dia e prepara o cérebro para registrar informações novas. Um estudo do Laboratório de Pesquisa do Sono do E.P. Bradley Hospital, ligado à Alpert Medical School da Brown University, publicado em 2025 na revista científica Sleep Advances mostrou que, após noites de sono restrito, adolescentes reconheciam o que tinham visto, mas erravam mais ao distinguir detalhes de itens parecidos. 

"Dormir é parte do estudo. Durante o sono o cérebro organiza o que foi aprendido e memoriza as informações. Ter um sono reparador é de extrema importância para a vida de qualquer indivíduo e também para realizar uma boa prova. O ideal é ter um sono regular, dormir de 7 a 8 horas por dia, horário para dormir e acordar, parar com telas uma hora antes, diminuir o consumo de cafeína à noite. Meditação, exercícios de relaxamento e respiração podem ajudar tanto no sono quanto no controle da ansiedade” comenta a neurologista Margarete Carvalho, do Hospital Samaritano Paulista, em São Paulo.
 

2. Alimentação leve e hidratação são essenciais

Em geral, as provas acontecem no período da tarde, por isso, o ideal é a ingestão de um café da manhã reforçado e alimentação leve antes e durante a avaliação. A principal orientação é não testar novos pratos e receitas no dia, além de evitar ficar muitas horas em jejum. Isso porque a queda de glicose favorece cansaço, irritabilidade e dor de cabeça. 

Na sala, onde o acesso à alimentação é mais restrito, vale levar frutas e snacks simples de comer, mas de alto valor energético, como castanhas e barras de cereal. "Não é dia de experimentar suplementos, energéticos ou estímulos diferentes. Em situações de estresse, o cérebro responde melhor ao que já conhece, ou seja, uma refeição leve, água por perto e um lanche no meio da tarde", orienta a neurologista. 

Hidratação é uma variável importantíssima para o bom funcionamento do cérebro, principalmente em salas quentes ou condições adversas de temperatura. Um estudo japonês publicado em 2024 no European Journal of Applied Physiology observou que a desidratação leve prejudicou tarefas mentais mais complexas em ambiente quente, embora as funções básicas do corpo se mantivessem estáveis. “O equilíbrio está em beber água ao longo da manhã e em pequenos goles durante a prova, sem exagero que leve a idas frequentes ao banheiro”, complementa Margarete.

 

3. Reconheça os sinais do estresse e saiba destravar o "branco"

Um pouco de nervosismo antes da prova é esperado e até ajuda a manter a atenção. Quando o estresse fica intenso, o corpo libera hormônios como adrenalina e cortisol, o coração acelera e a área do cérebro ligada ao planejamento e à busca de memórias perde eficiência. É o que o estudante sente como "deu branco". O estresse também aparece no corpo, com tensão nos ombros e na mandíbula, palpitações, dor de cabeça, alterações no funcionamento do intestino e dificuldade para dormir na noite anterior. 

Reconhecer esses sinais ajuda a agir cedo, com pausas frequentes, sono regular e conversa com a família ou com um profissional de saúde. "Ficar ansioso antes de um teste importante é normal. O sinal de alerta é quando a ansiedade tira o sono por várias noites, provoca falta de ar ou faz o jovem evitar estudar ou sair de casa. Aí é hora de procurar ajuda", explica Veruska Vasconcelos, neuropsicóloga e coordenadora de psicologia do Hospital Alvorada Moema, em São Paulo. 

Já na hora da avaliação o “branco” pode ser controlado com uma breve pausa para autorregulação, prestando atenção na respiração. Uma técnica fácil é inspirar contando até quatro, segurar por quatro e soltar o ar devagar contando até seis, repetindo por cerca de um minuto. Depois, vale pular a questão que travou o processo e voltar a ela no fim. "O branco é uma reação de alarme do corpo, e a respiração é a forma mais rápida de dizer ao cérebro que não há perigo. Um minuto respirando devagar, com a expiração mais longa que a inspiração, costuma bastar para a memória voltar a responder", complementa a psicóloga.
 

4. Exercícios e atividades prazerosas fazem parte da preparação

Cortar atividade física e lazer para ganhar horas de estudo é uma escolha comum, embora muito ruim. Uma revisão publicada em 2025 no British Journal of Sports Medicine reuniu 133 revisões sistemáticas, com 2.724 ensaios clínicos e mais de 258 mil participantes, e concluiu que o exercício melhora a cognição geral, a memória e as funções executivas. Os ganhos apareceram também com exercícios leves, como caminhada e ioga, e em programas curtos, de um a três meses. 

“Unir uma jornada de treinos intensos e alto rendimento esportivo à rotina de estudos não é o mais indicado, uma vez que pode levar à exaustão, mas o estudante que frequentemente abandona o futebol, a academia ou o encontro com os amigos para estudar mais acaba perdendo justamente um dos principais elementos de autorregulação. Uma hora de lazer bem aproveitada rende mais do que uma hora de leitura com a cabeça cansada”, afirma Veruska. 

Na reta final, nada de começar novas práticas esportivas intensas. Nas semanas que antecedem as provas a ideia é manter a rotina. Uma caminhada de 20 a 30 minutos, uma aula de dança ou um jogo com amigos ajudam a baixar a tensão e a dormir melhor.
 

5. Desconfie do atalho dos estimulantes

Remédios para TDAH, como metilfenidato e lisdexanfetamina, circulam entre estudantes sem diagnóstico que querem estudar mais horas e com mais foco, mas o ganho real de concentração é pequeno em quem não tem o transtorno. Uma meta-análise da Universidade da Pensilvânia, publicada no Journal of Cognitive Neuroscience, encontrou efeitos modestos de metilfenidato e anfetaminas sobre memória e controle de impulsos em pessoas saudáveis. Em experimentos do mesmo grupo, os participantes acreditavam ter rendido mais com o estimulante do que com o placebo, mesmo quando o desempenho não mudava. 

Os riscos são concretos. Esses medicamentos aceleram o coração, elevam a pressão arterial, desregulam o sono e podem aumentar a ansiedade. Em dezembro de 2025, a Anvisa publicou o Alerta GGMON 10/2025 e pediu a inclusão nas bulas do risco de transtorno obsessivo compulsivo (TOC) associado aos dois princípios ativos, incluindo o hábito de arrancar cabelos ou cutucar a pele. São remédios controlados, vendidos com receita especial. 

"Não faça uso de medicações que não foram prescritas pelo seu médico. Pegar um comprimido com um colega ou comprá-lo sem prescrição médica significa tomar uma substância sem saber se o corpo tolera, sem dose ajustada e sem ter nenhum acompanhamento de profissional de saúde é um risco muito grande. Se a dificuldade de concentração é antiga e atrapalha a vida, o caminho é investigar com um médico", alerta a neurologista. 

O mesmo raciocínio vale para doses altas de cafeína, energéticos em série e suplementos vendidos como "turbinadores da memória". A sensação de alerta aumenta, mas o aprendizado depende de sono, revisão espaçada e descanso. "O estimulante deixa a pessoa mais acordada e com sensação de controle, e isso é confundido com aprender mais. O preço pode ser insônia, taquicardia e ansiedade num momento em que o estudante precisa mesmo é de estabilidade", complementa a especialista.
 

6. Confie na preparação e saiba quando pedir ajuda

Veruska reforça uma mensagem antiga, mas que vale a pena ser repetida: a revisão de última hora rende menos do que a confiança no que foi construído durante os anos de estudo. O vestibular é uma etapa entre muitas e, como outros desafios, pede equilíbrio e foco para ser superado. “O resultado de uma prova não mede o valor de ninguém nem resume trajetórias. O que vai para a prova é o trabalho de meses, e a véspera serve para descansar. Uma avaliação não diz quem o estudante é nem até onde ele pode chegar", afirma a psicóloga. 

Se ainda assim o nervosismo neste período passar do esperado, os especialistas recomendam procurar um médico ou psicólogo diante destes sinais:

  • insônia por várias noites seguidas
  • crises de falta de ar, palpitação ou choro que se repetem
  • dor de cabeça quase diária ou que não melhora com o remédio habitual
  • vontade de evitar a escola, o cursinho ou os amigos
  • uso de estimulantes, calmantes ou outros remédios sem receita para conseguir estudar ou dormir

 

 

Rede Américas  

Fontes:

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Alerta GGMON 10/2025: farmacovigilância: risco de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) com medicamentos contendo metilfenidato e lisdexanfetamina. Brasília, DF: Anvisa, dez. 2025. Disponível em: Link. Acesso em: 4 nov. 2026.
ILIEVA, I. P.; HOOK, C. J.; FARAH, M. J. Prescription stimulants’ effects on healthy inhibitory control, working memory, and episodic memory: a meta-analysis. Journal of Cognitive Neuroscience, Cambridge, v. 27, n. 6, p. 1069-1089, jun. 2015. DOI: 10.1162/jocn_a_00776.
ILIEVA, I.; BOLAND, J.; FARAH, M. J. Objective and subjective cognitive enhancing effects of mixed amphetamine salts in healthy people. Neuropharmacology, Oxford, v. 64, p. 496-505, jan. 2013.
LUMERTZ, M. Privação de sono na população pediátrica. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Sono, set. 2025. Disponível em: Link. Acesso em: 4 nov. 2026.
SINGH, B. et al. Effectiveness of exercise for improving cognition, memory and executive function: a systematic umbrella review and meta-meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, London, v. 59, n. 12, p. 866-876, jun. 2025. DOI: 10.1136/bjsports-2024-108589.
SLEEP restriction impairs item memory discrimination but not general recognition in young adolescents. Sleep Advances, Oxford, v. 6, n. 3, zpaf038, jun. 2025. DOI: 10.1093/sleepadvances/zpaf038.
WATANABE, H. et al. Influence of sustained mild dehydration on thermoregulatory and cognitive functions during prolonged moderate exercise. European Journal of Applied Physiology, Berlin, v. 124, n. 12, p. 3457-3470, 2024.



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