Isolamento
e solidão podem afetar a saúde física e mental de pessoas idosas; mudanças de
comportamento, perda de interesse e afastamento de atividades merecem atenção
Magnific
Morar sozinho não é sinônimo de solidão. Da mesma forma,
dividir a casa com filhos, netos ou outras pessoas não garante que alguém se
sinta acolhido, ouvido ou pertencente àquela convivência. Na pessoa idosa,
entender essa diferença é importante porque a solidão persistente e o
isolamento social podem ultrapassar o campo emocional e repercutir na saúde, na
autonomia e na qualidade de vida.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram a
dimensão do problema. Aproximadamente uma em cada dez pessoas idosas vivencia a
solidão e uma em cada quatro está socialmente isolada. A entidade considera as
conexões sociais um determinante importante da saúde física e mental e da
longevidade.
Para a geriatra Cooperada da Unimed-BH Bárbara Correa, o
primeiro passo é diferenciar situações que muitas vezes são tratadas como se
fossem a mesma coisa. Morar sozinho é uma condição objetiva, que não significa
necessariamente desamparo. Há idosos que vivem sós, mantêm uma boa rede de
apoio, participam de atividades e preservam a autonomia para cuidar da própria
vida. “O isolamento social é a redução objetiva dos contatos e das interações
com familiares, vizinhos e comunidade. Já a solidão é uma experiência
subjetiva, que provoca sofrimento e a sensação de não ter os vínculos, a
companhia ou o apoio emocional que a pessoa gostaria de ter”, explica.
Por isso, uma pessoa pode morar sozinha sem se sentir
solitária, enquanto outra pode estar cercada por familiares e experimentar uma
profunda sensação de desconexão. A diferença ajuda a afastar outro equívoco,
que é considerar a solidão uma consequência natural do envelhecimento. “A
solidão persistente não é algo normal do envelhecimento”, ressalta Bárbara.
Quando persistentes, solidão e isolamento social estão associados a impactos
importantes na saúde física e mental, incluindo sintomas depressivos e
ansiosos, alterações no sono, sedentarismo, redução do autocuidado e problemas
cardiovasculares. Também podem estar associados ao declínio cognitivo, aumento
da fragilidade e maior risco de hospitalização e mortalidade.
A OMS também reconhece que solidão e isolamento social têm impactos importantes sobre saúde, bem-estar e longevidade. Em relatório divulgado em 2025, a organização colocou a conexão social entre as questões relevantes de saúde pública e destacou que relações sociais de qualidade funcionam como fator de proteção ao longo da vida.
Quando o silêncio começa a dizer alguma coisa
Nem sempre o isolamento aparece de maneira evidente. Ele
pode começar quando a pessoa deixa, pouco a pouco, de realizar atividades que
faziam parte da rotina ou perder o interesse por algo que anteriormente lhe
dava prazer.
De acordo com Bárbara, familiares e cuidadores devem
observar redução das conversas e contatos sociais, recusa frequente a convites,
tristeza, apatia ou irritabilidade, além de alterações no sono, no apetite, no
peso e nos cuidados de higiene. Também podem surgir aumento do consumo de
álcool, uso inadequado de medicamentos e dificuldade maior para realizar ou
administrar tarefas cotidianas.
Esses comportamentos, isoladamente, não permitem concluir
que a pessoa esteja deprimida ou sofrendo algum transtorno. Eles funcionam, no
entanto, como sinais de que é preciso conversar e investigar o que mudou.
O Ministério da Saúde também orienta atenção a alterações
rápidas de comportamento entre pessoas idosas e destaca que, além de questões
emocionais, elas podem estar associadas a problemas orgânicos, como dor,
infecções, desidratação ou reações adversas a medicamentos.
Algumas situações podem aumentar a vulnerabilidade ao
isolamento. Aposentadoria, viuvez, perda de amigos, redução da mobilidade ou da
audição e doenças que dificultam sair de casa são alguns exemplos. Nesse
cenário, um problema pode alimentar o outro. A dificuldade para caminhar, por
exemplo, reduz as oportunidades de convivência; com menos interação e
atividade, o idoso pode se tornar mais sedentário e perder progressivamente
independência e participação na vida familiar e comunitária.
Presença também é cuidado
Combater a solidão não significa simplesmente preencher a
agenda da pessoa idosa. A qualidade dos vínculos e a sensação de pertencimento
também importam.
Para quem mora sozinho, a geriatra cooperada da Unimed-BH
recomenda manter contatos e visitas presenciais regulares. Quando a distância
impede encontros frequentes, telefonemas e videochamadas podem ajudar a
preservar os vínculos, mas a tecnologia não deve substituir completamente a
convivência presencial.
Centros de convivência, grupos formados por pessoas com
interesses semelhantes, atividades voluntárias e prática de exercícios
compatíveis com as condições de saúde são outras possibilidades. O Ministério
da Saúde recomenda ainda estimular atividades sociais, voluntariado, prática de
atividade física, amizades com pessoas de diferentes idades e a manutenção do
contato com pessoas queridas.
O cuidado, no entanto, precisa preservar aquilo que a
pessoa ainda é capaz de fazer sozinha. Assumir todas as tarefas em nome da
proteção pode ter o efeito contrário e diminuir sua autonomia. Bárbara
recomenda que familiares ofereçam ajuda sem retirar do idoso as decisões e
atividades que ele consegue desempenhar, além de acompanhar aspectos como
humor, memória, audição e mobilidade. “É importante dar independência e autonomia
sempre que possível, para que ele se sinta incluído nas atividades do dia a dia
da família e tenha sensação de pertencimento”, afirma.
Quando procurar ajuda?
Mudanças persistentes de humor ou comportamento, perda de
interesse pelas atividades habituais, alterações importantes no sono ou no
apetite e dificuldade crescente para realizar tarefas do dia a dia merecem
avaliação por um profissional de saúde. Mudanças rápidas ou intensas também
precisam ser investigadas, pois podem estar relacionadas a problemas de saúde
além de questões emocionais.
Mais do que perguntar se uma pessoa idosa mora sozinha ou
quantas vezes recebe visitas, portanto, pode ser necessário fazer uma pergunta
mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil como “ela se sente parte da vida das
pessoas ao seu redor?”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário