A tecnologia transformou profundamente a forma como construímos vínculos afetivos. Hoje, uma relação pode envolver compartilhamento de localização em tempo real, senhas, acesso a redes sociais, mensagens ao longo de todo o dia e uma disponibilidade que, há poucos anos, simplesmente não existia. Essas ferramentas podem fazer parte de relações saudáveis quando há escolha, reciprocidade e consentimento. O problema começa quando deixam de ser possibilidades e passam a funcionar como exigências.
É justamente nessa fronteira, muitas vezes
difícil de reconhecer, que se situa a Violência Facilitada pela Tecnologia
entre Parceiros Íntimos (TFIPV, na sigla em inglês).
Recentemente, tive a oportunidade de
representar a Cruzando Histórias como uma das especialistas ouvidas em uma
pesquisa internacional conduzida pela psicóloga e pesquisadora Nina Jane Patel,
no âmbito do programa Abuso Não é Amor, de YSL Beauty. O estudo reuniu
profissionais de organizações de dez países para compreender por que jovens de
16 a 24 anos frequentemente têm dificuldade de reconhecer práticas de controle
digital como formas de violência. A análise encontrou quatro questões
recorrentes: a normalização da vigilância, os modelos de comportamento
aprendidos nas relações familiares, a ausência de linguagem para nomear
determinadas formas de abuso e as falhas das instituições em responder a elas.
O uso da inteligência artificial aparece ainda como um fator emergente capaz de
ampliar esses danos.
Embora a pesquisa tenha como foco os
jovens, seus achados dialogam profundamente com o que observo há anos
trabalhando com mulheres brasileiras. Na Cruzando Histórias, acompanhamos
mulheres de diferentes idades, raças, trajetórias profissionais, condições
econômicas e configurações familiares, muitas delas mães. E uma das
aprendizagens mais importantes dessa convivência é que a violência raramente se
apresenta, no início, com esse nome.
Ela pode aparecer como uma mulher
que começa a evitar determinadas amizades para não gerar conflito; que sente
necessidade de explicar constantemente onde esteve e com quem falou; que tem
suas conversas acessadas; que altera a forma de se vestir ou de se comportar;
ou que, pouco a pouco, reorganiza sua vida para administrar as reações do
parceiro. No ambiente digital, esses mecanismos encontram novas formas de
atuação: o monitoramento pode acompanhar a mulher onde quer que ela esteja,
ultrapassar o fim da relação e alcançar suas redes de amizade, sua imagem, seus
dados e até sua reputação.
Por isso, considero importante compreender
a violência digital menos como uma questão exclusivamente tecnológica e mais
como uma questão de autonomia.
A tecnologia não inventou a posse, o
ciúme ou o controle nas relações. Ela ampliou a capacidade de exercê-los. E,
quando discutimos apenas se determinada ferramenta é boa ou ruim, corremos o
risco de perder de vista a pergunta mais importante: quanto espaço uma pessoa
ainda tem para escolher, discordar, mudar de ideia e preservar sua
individualidade dentro daquela relação?
Esse ponto é especialmente relevante
no Brasil, onde ainda convivemos com padrões culturais que naturalizam
diferentes formas de controle sobre as mulheres. Durante muito tempo,
determinados comportamentos foram tratados como parte quase inevitável da vida
amorosa: o ciúme excessivo como demonstração de interesse, a vigilância como
cuidado, a renúncia feminina como prova de compromisso. Quando essas
referências migram para o ambiente digital, ganham velocidade e alcance, mas
continuam carregando uma lógica conhecida.
A pesquisa de Nina Patel chama
atenção justamente para essa normalização. Jovens conseguem, muitas vezes,
descrever o desconforto antes de conseguir nomear o abuso. Falam em relações
“tóxicas”, ciúme, intensidade ou drama, mas nem sempre reconhecem que certos
comportamentos envolvem coerção e perda de autonomia. Uma das contribuições que
levei ao estudo foi justamente essa: a linguagem da violência muitas vezes
chega tarde. Quando conseguimos dar nome ao que está acontecendo, aquele padrão
pode já ter se estabelecido como parte da rotina.
Esse desafio de reconhecimento não
se restringe aos jovens. No Brasil, 18% das mulheres ouvidas pela Pesquisa
Nacional de Violência contra a Mulher não se reconheceram espontaneamente como
vítimas e só identificaram a situação quando foram apresentadas a exemplos
concretos de comportamentos caracterizados como violência.
É nesse sentido que vejo uma
potência especial no trabalho preventivo com jovens. O Abuso Não é Amor parte
da ideia de que os primeiros relacionamentos são um momento estratégico para
construir referências sobre confiança, limites, ciúme, consentimento e
respeito. Os nove sinais trabalhados pela metodologia — ignorar, chantagear,
humilhar, manipular, agir com ciúme, controlar, invadir, isolar e intimidar — ajudam
a tornar visíveis comportamentos que, muitas vezes, são minimizados ou
confundidos com afeto. No ambiente digital, eles podem aparecer na exigência de
senhas, no acompanhamento permanente da localização, no controle das redes
sociais, na fiscalização das interações ou no uso da comunicação como
instrumento de punição.
Ao mesmo tempo, minha experiência
com mulheres também me ensinou que aprender a se relacionar não é algo que
termina aos 20 anos. Pessoas que se relacionaram por décadas seguem sendo desafiadas
a rever modelos afetivos, expectativas e acordos que aprenderam como naturais.
Mulheres podem, depois de muitos anos, reconhecer pela primeira vez que
determinadas concessões estavam custando sua autonomia. Homens também podem
rever comportamentos que aprenderam como normais.
Os jovens podem estar vivendo suas
primeiras experiências afetivas, mas todos nós estamos sendo provocados a
construir relações mais conscientes, saudáveis e sustentáveis.
Há, porém, uma questão que considero
fundamental nessa discussão: não podemos transformar a prevenção da violência
em mais uma responsabilidade feminina. Historicamente, meninas e mulheres
recebem grande parte das orientações sobre como evitar situações de risco.
Aprendem a reconhecer sinais, estabelecer limites, proteger senhas, cuidar das
imagens que compartilham, buscar ajuda e identificar quando uma relação se
tornou abusiva. Esse conhecimento é indispensável, mas existe uma contradição
quando o gênero mais atingido pela violência também é convocado a assumir quase
sozinho a tarefa de preveni-la.
Se queremos mudar padrões, essa
conversa precisa alcançar meninos e homens.
Precisamos falar com eles sobre
consentimento e limites, mas também sobre frustração, rejeição, ciúme,
masculinidades e a expectativa de controle sobre a parceira. Prevenção não é
apenas ensinar uma menina a identificar quando está sendo controlada; é também
oferecer a um menino instrumentos para reconhecer quando seu próprio
comportamento ultrapassou um limite.
É uma provocação que faço com
frequência na implementação do Abuso Não é Amor no Brasil. A metodologia tem
uma enorme capacidade de oferecer linguagem e ferramentas às meninas e
mulheres, que continuam sendo desproporcionalmente afetadas pela violência de
gênero. Mas seu potencial educativo também pode contribuir para a formação dos
meninos e homens com quem elas se relacionam. Transformar relações exige
trabalhar não apenas com quem sofre a violência, mas também com os padrões
sociais que ajudam a produzi-la.
Esse desafio ganha uma dimensão
adicional quando olhamos para o próprio ambiente digital brasileiro. Pesquisa
do NetLab/UFRJ realizada em parceria com o Ministério das Mulheres analisou
76,3 mil vídeos para mapear a chamada “machosfera” no YouTube brasileiro e
identificou ecossistemas que transformam discursos de aversão, desprezo e
controle sobre as mulheres em audiência e monetização. Ao mesmo tempo, 173 vítimas
de deepfakes sexuais foram identificadas em instituições de ensino públicas e
privadas de dez estados brasileiros, todas mulheres, entre alunas e professoras.
Esses fenômenos mostram que não estamos discutindo apenas comportamentos
privados entre duas pessoas. Há referências de gênero, sexualidade, poder e
violência sendo produzidas e distribuídas em escala.
Por isso, responsabilizar apenas
famílias, escolas ou projetos sociais seria insuficiente.
Como mãe de um menino de 12 anos,
essa discussão também me atravessa pessoalmente. Tenho consciência de que minha
experiência familiar parte de uma condição de privilégio e não representa a
realidade da maioria das mães brasileiras. Talvez por isso minha experiência
profissional com mulheres tão diversas seja ainda mais determinante na forma
como enxergo o problema. Muitas mães estão tentando proteger e educar seus
filhos enquanto enfrentam jornadas extensas de trabalho, desigualdade
econômica, violência, sobrecarga de cuidado e condições muito diferentes para
acompanhar o que acontece no ambiente digital.
Não é razoável imaginar que toda
essa responsabilidade possa ser transferida às famílias.
A própria pesquisa internacional
traz uma provocação importante ao mostrar que, em nove dos dez países
representados, especialistas perceberam que práticas de vigilância utilizadas
por pais e responsáveis podem acabar sendo incorporadas pelos jovens como
referências de cuidado. Isso não significa equiparar monitoramento parental a
abuso. Significa reconhecer que a proteção precisa vir acompanhada de diálogo
sobre autonomia, limites e consentimento para que uma criança ou adolescente
consiga, no futuro, distinguir cuidado de coerção.
Também há responsabilidades que pertencem
ao poder público e às empresas de tecnologia. O Brasil tem avançado na
construção desse marco. A Lei nº 15.123, de 2025, passou a prever aumento de
pena para violência psicológica contra a mulher praticada com uso de
inteligência artificial ou outro recurso tecnológico de alteração de imagem ou
som. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, instituído pela Lei nº
15.211/2025, estabeleceu regras específicas para a proteção de crianças e
adolescentes em produtos e serviços digitais. E, em 2026, o Decreto nº 12.976
estabeleceu diretrizes específicas para a proteção das mulheres na internet,
reconhecendo práticas como perseguição digital, vigilância on-line e controle
tecnológico, além de prever deveres de prevenção e resposta para provedores de aplicações.
São avanços relevantes porque
apontam para uma compreensão mais madura do problema: segurança digital não
pode depender exclusivamente da habilidade individual de se proteger. Estado,
sistema de justiça e plataformas também precisam participar da construção de
ambientes mais seguros, inclusive por meio de prevenção, mecanismos adequados
de denúncia, resposta rápida a violações, proteção de dados e responsabilização
quando cabível.
A inteligência artificial torna essa
discussão ainda mais urgente, mas talvez também nos ajude a enxergar algo
essencial. As ferramentas mudam rapidamente; as dinâmicas de violência, nem
tanto. Deepfakes, rastreamento, perfis falsos ou novas tecnologias podem
aumentar a escala do dano, mas continuam servindo a práticas que já conhecemos:
humilhar, intimidar, isolar, vigiar e controlar. A própria conclusão da
pesquisa internacional chama atenção para isso: a prevenção precisa olhar para
o comportamento, e não apenas para a plataforma ou para o dispositivo.
É por isso que não acredito que a
resposta esteja simplesmente em ensinar jovens a usar melhor a internet.
Precisamos ajudá-los a construir outras referências de relacionamento e, ao
mesmo tempo, criar estruturas sociais e institucionais capazes de sustentá-las.
Isso significa ensinar sobre
autonomia, consentimento e individualidade; envolver meninos e homens de forma
efetiva; apoiar famílias e educadores sem transferir a eles toda a
responsabilidade; aprimorar políticas públicas; cobrar respostas adequadas das plataformas;
e continuar oferecendo às mulheres linguagem e instrumentos para reconhecer
situações que durante muito tempo foram naturalizadas.
A tecnologia continuará mudando. O
nosso desafio é garantir que nossas referências de afeto, liberdade e respeito
avancem junto com ela.
Cuidado não é controle. Intimidade não
significa acesso irrestrito. E uma relação vigiada não é uma relação segura.
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