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sábado, 7 de novembro de 2026

O controle nas relações afetivas mudou de ferramenta, não de lógica


A tecnologia transformou profundamente a forma como construímos vínculos afetivos. Hoje, uma relação pode envolver compartilhamento de localização em tempo real, senhas, acesso a redes sociais, mensagens ao longo de todo o dia e uma disponibilidade que, há poucos anos, simplesmente não existia. Essas ferramentas podem fazer parte de relações saudáveis quando há escolha, reciprocidade e consentimento. O problema começa quando deixam de ser possibilidades e passam a funcionar como exigências.


É justamente nessa fronteira, muitas vezes difícil de reconhecer, que se situa a Violência Facilitada pela Tecnologia entre Parceiros Íntimos (TFIPV, na sigla em inglês).

Recentemente, tive a oportunidade de representar a Cruzando Histórias como uma das especialistas ouvidas em uma pesquisa internacional conduzida pela psicóloga e pesquisadora Nina Jane Patel, no âmbito do programa Abuso Não é Amor, de YSL Beauty. O estudo reuniu profissionais de organizações de dez países para compreender por que jovens de 16 a 24 anos frequentemente têm dificuldade de reconhecer práticas de controle digital como formas de violência. A análise encontrou quatro questões recorrentes: a normalização da vigilância, os modelos de comportamento aprendidos nas relações familiares, a ausência de linguagem para nomear determinadas formas de abuso e as falhas das instituições em responder a elas. O uso da inteligência artificial aparece ainda como um fator emergente capaz de ampliar esses danos.

Embora a pesquisa tenha como foco os jovens, seus achados dialogam profundamente com o que observo há anos trabalhando com mulheres brasileiras. Na Cruzando Histórias, acompanhamos mulheres de diferentes idades, raças, trajetórias profissionais, condições econômicas e configurações familiares, muitas delas mães. E uma das aprendizagens mais importantes dessa convivência é que a violência raramente se apresenta, no início, com esse nome.

Ela pode aparecer como uma mulher que começa a evitar determinadas amizades para não gerar conflito; que sente necessidade de explicar constantemente onde esteve e com quem falou; que tem suas conversas acessadas; que altera a forma de se vestir ou de se comportar; ou que, pouco a pouco, reorganiza sua vida para administrar as reações do parceiro. No ambiente digital, esses mecanismos encontram novas formas de atuação: o monitoramento pode acompanhar a mulher onde quer que ela esteja, ultrapassar o fim da relação e alcançar suas redes de amizade, sua imagem, seus dados e até sua reputação.

Por isso, considero importante compreender a violência digital menos como uma questão exclusivamente tecnológica e mais como uma questão de autonomia.

A tecnologia não inventou a posse, o ciúme ou o controle nas relações. Ela ampliou a capacidade de exercê-los. E, quando discutimos apenas se determinada ferramenta é boa ou ruim, corremos o risco de perder de vista a pergunta mais importante: quanto espaço uma pessoa ainda tem para escolher, discordar, mudar de ideia e preservar sua individualidade dentro daquela relação?

Esse ponto é especialmente relevante no Brasil, onde ainda convivemos com padrões culturais que naturalizam diferentes formas de controle sobre as mulheres. Durante muito tempo, determinados comportamentos foram tratados como parte quase inevitável da vida amorosa: o ciúme excessivo como demonstração de interesse, a vigilância como cuidado, a renúncia feminina como prova de compromisso. Quando essas referências migram para o ambiente digital, ganham velocidade e alcance, mas continuam carregando uma lógica conhecida.

A pesquisa de Nina Patel chama atenção justamente para essa normalização. Jovens conseguem, muitas vezes, descrever o desconforto antes de conseguir nomear o abuso. Falam em relações “tóxicas”, ciúme, intensidade ou drama, mas nem sempre reconhecem que certos comportamentos envolvem coerção e perda de autonomia. Uma das contribuições que levei ao estudo foi justamente essa: a linguagem da violência muitas vezes chega tarde. Quando conseguimos dar nome ao que está acontecendo, aquele padrão pode já ter se estabelecido como parte da rotina.

Esse desafio de reconhecimento não se restringe aos jovens. No Brasil, 18% das mulheres ouvidas pela Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher não se reconheceram espontaneamente como vítimas e só identificaram a situação quando foram apresentadas a exemplos concretos de comportamentos caracterizados como violência.

É nesse sentido que vejo uma potência especial no trabalho preventivo com jovens. O Abuso Não é Amor parte da ideia de que os primeiros relacionamentos são um momento estratégico para construir referências sobre confiança, limites, ciúme, consentimento e respeito. Os nove sinais trabalhados pela metodologia — ignorar, chantagear, humilhar, manipular, agir com ciúme, controlar, invadir, isolar e intimidar — ajudam a tornar visíveis comportamentos que, muitas vezes, são minimizados ou confundidos com afeto. No ambiente digital, eles podem aparecer na exigência de senhas, no acompanhamento permanente da localização, no controle das redes sociais, na fiscalização das interações ou no uso da comunicação como instrumento de punição.

Ao mesmo tempo, minha experiência com mulheres também me ensinou que aprender a se relacionar não é algo que termina aos 20 anos. Pessoas que se relacionaram por décadas seguem sendo desafiadas a rever modelos afetivos, expectativas e acordos que aprenderam como naturais. Mulheres podem, depois de muitos anos, reconhecer pela primeira vez que determinadas concessões estavam custando sua autonomia. Homens também podem rever comportamentos que aprenderam como normais.

Os jovens podem estar vivendo suas primeiras experiências afetivas, mas todos nós estamos sendo provocados a construir relações mais conscientes, saudáveis e sustentáveis.

Há, porém, uma questão que considero fundamental nessa discussão: não podemos transformar a prevenção da violência em mais uma responsabilidade feminina. Historicamente, meninas e mulheres recebem grande parte das orientações sobre como evitar situações de risco. Aprendem a reconhecer sinais, estabelecer limites, proteger senhas, cuidar das imagens que compartilham, buscar ajuda e identificar quando uma relação se tornou abusiva. Esse conhecimento é indispensável, mas existe uma contradição quando o gênero mais atingido pela violência também é convocado a assumir quase sozinho a tarefa de preveni-la.

Se queremos mudar padrões, essa conversa precisa alcançar meninos e homens.

Precisamos falar com eles sobre consentimento e limites, mas também sobre frustração, rejeição, ciúme, masculinidades e a expectativa de controle sobre a parceira. Prevenção não é apenas ensinar uma menina a identificar quando está sendo controlada; é também oferecer a um menino instrumentos para reconhecer quando seu próprio comportamento ultrapassou um limite.

É uma provocação que faço com frequência na implementação do Abuso Não é Amor no Brasil. A metodologia tem uma enorme capacidade de oferecer linguagem e ferramentas às meninas e mulheres, que continuam sendo desproporcionalmente afetadas pela violência de gênero. Mas seu potencial educativo também pode contribuir para a formação dos meninos e homens com quem elas se relacionam. Transformar relações exige trabalhar não apenas com quem sofre a violência, mas também com os padrões sociais que ajudam a produzi-la.

Esse desafio ganha uma dimensão adicional quando olhamos para o próprio ambiente digital brasileiro. Pesquisa do NetLab/UFRJ realizada em parceria com o Ministério das Mulheres analisou 76,3 mil vídeos para mapear a chamada “machosfera” no YouTube brasileiro e identificou ecossistemas que transformam discursos de aversão, desprezo e controle sobre as mulheres em audiência e monetização. Ao mesmo tempo, 173 vítimas de deepfakes sexuais foram identificadas em instituições de ensino públicas e privadas de dez estados brasileiros, todas mulheres, entre alunas e professoras. Esses fenômenos mostram que não estamos discutindo apenas comportamentos privados entre duas pessoas. Há referências de gênero, sexualidade, poder e violência sendo produzidas e distribuídas em escala.

Por isso, responsabilizar apenas famílias, escolas ou projetos sociais seria insuficiente.

Como mãe de um menino de 12 anos, essa discussão também me atravessa pessoalmente. Tenho consciência de que minha experiência familiar parte de uma condição de privilégio e não representa a realidade da maioria das mães brasileiras. Talvez por isso minha experiência profissional com mulheres tão diversas seja ainda mais determinante na forma como enxergo o problema. Muitas mães estão tentando proteger e educar seus filhos enquanto enfrentam jornadas extensas de trabalho, desigualdade econômica, violência, sobrecarga de cuidado e condições muito diferentes para acompanhar o que acontece no ambiente digital.

Não é razoável imaginar que toda essa responsabilidade possa ser transferida às famílias.

A própria pesquisa internacional traz uma provocação importante ao mostrar que, em nove dos dez países representados, especialistas perceberam que práticas de vigilância utilizadas por pais e responsáveis podem acabar sendo incorporadas pelos jovens como referências de cuidado. Isso não significa equiparar monitoramento parental a abuso. Significa reconhecer que a proteção precisa vir acompanhada de diálogo sobre autonomia, limites e consentimento para que uma criança ou adolescente consiga, no futuro, distinguir cuidado de coerção.

Também há responsabilidades que pertencem ao poder público e às empresas de tecnologia. O Brasil tem avançado na construção desse marco. A Lei nº 15.123, de 2025, passou a prever aumento de pena para violência psicológica contra a mulher praticada com uso de inteligência artificial ou outro recurso tecnológico de alteração de imagem ou som. O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, instituído pela Lei nº 15.211/2025, estabeleceu regras específicas para a proteção de crianças e adolescentes em produtos e serviços digitais. E, em 2026, o Decreto nº 12.976 estabeleceu diretrizes específicas para a proteção das mulheres na internet, reconhecendo práticas como perseguição digital, vigilância on-line e controle tecnológico, além de prever deveres de prevenção e resposta para provedores de aplicações.

São avanços relevantes porque apontam para uma compreensão mais madura do problema: segurança digital não pode depender exclusivamente da habilidade individual de se proteger. Estado, sistema de justiça e plataformas também precisam participar da construção de ambientes mais seguros, inclusive por meio de prevenção, mecanismos adequados de denúncia, resposta rápida a violações, proteção de dados e responsabilização quando cabível.

A inteligência artificial torna essa discussão ainda mais urgente, mas talvez também nos ajude a enxergar algo essencial. As ferramentas mudam rapidamente; as dinâmicas de violência, nem tanto. Deepfakes, rastreamento, perfis falsos ou novas tecnologias podem aumentar a escala do dano, mas continuam servindo a práticas que já conhecemos: humilhar, intimidar, isolar, vigiar e controlar. A própria conclusão da pesquisa internacional chama atenção para isso: a prevenção precisa olhar para o comportamento, e não apenas para a plataforma ou para o dispositivo.

É por isso que não acredito que a resposta esteja simplesmente em ensinar jovens a usar melhor a internet. Precisamos ajudá-los a construir outras referências de relacionamento e, ao mesmo tempo, criar estruturas sociais e institucionais capazes de sustentá-las.

Isso significa ensinar sobre autonomia, consentimento e individualidade; envolver meninos e homens de forma efetiva; apoiar famílias e educadores sem transferir a eles toda a responsabilidade; aprimorar políticas públicas; cobrar respostas adequadas das plataformas; e continuar oferecendo às mulheres linguagem e instrumentos para reconhecer situações que durante muito tempo foram naturalizadas.

A tecnologia continuará mudando. O nosso desafio é garantir que nossas referências de afeto, liberdade e respeito avancem junto com ela.

Cuidado não é controle. Intimidade não significa acesso irrestrito. E uma relação vigiada não é uma relação segura.

 

Bia Diniz - fundadora e presidente da Cruzando Histórias

 

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