Em meio a rotinas cada vez mais
preenchidas por atividades dirigidas e pela presença de telas, garantir tempo,
espaço e liberdade para brincar ganha importância no desenvolvimento infantil
A brincadeira é uma das principais linguagens da primeira infância e exerce papel central no desenvolvimento integral da criança. Longe de ser mero entretenimento ou passatempo, o brincar é uma atividade estruturante, na qual se cruzam dimensões cognitivas, motoras, emocionais e sociais. É brincando que a criança experimenta possibilidades, cria hipóteses, estabelece relações, enfrenta desafios e amplia a compreensão sobre si mesma e sobre o mundo.
Ao mesmo tempo, as oportunidades para brincar livremente vêm disputando espaço com uma infância cada vez mais organizada pelos adultos. Rotinas preenchidas por compromissos e atividades dirigidas, o avanço do uso de telas e dispositivos e a redução das oportunidades de convivência e brincadeira em espaços externos transformam a relação das crianças com o tempo livre.
Para Lilian Murad Bruner, mestre em Educação e diretora
de Educação Infantil do Colégio Visconde de Porto Seguro, esse
cenário exige atenção para que o brincar não seja tratado como secundário na
rotina infantil. “Brincar não é um intervalo entre atividades consideradas mais
importantes. É por meio da brincadeira que a criança investiga, cria, negocia,
desenvolve autonomia e constrói diferentes aprendizagens. Por isso, garantir
tempo, espaço e liberdade para brincar é parte essencial do desenvolvimento
infantil”, afirma.
Quando brincar também é parte da proposta pedagógica
Na Educação Infantil, preservar o brincar livre significa criar
condições para que a criança possa explorar, imaginar, construir, fazer
escolhas e estabelecer relações com autonomia. Nesse contexto, cabe à escola
planejar ambientes e experiências que favoreçam a curiosidade sem determinar
previamente todos os caminhos da brincadeira.
No Colégio Visconde de Porto Seguro, essa concepção faz parte da
proposta pedagógica do Portinho. Materiais não estruturados, como elementos da
natureza, caixas e tecidos, podem ampliar as possibilidades de criação
justamente porque não determinam uma única maneira de brincar. O adulto, por
sua vez, acompanha as experiências, observa as interações e aprendizagens que
surgem e atua como mediador quando necessário.
“O papel do adulto não é conduzir cada etapa da brincadeira, mas
criar contextos que despertem curiosidade e permitam que a criança faça
escolhas, teste possibilidades e atribua seus próprios significados à
experiência”, explica Lilian.
O planejamento do ambiente também passa pela segurança. Em vez de
funcionar como uma forma de restringir movimentos, um espaço estruturado de
maneira estratégica pode ampliar a autonomia e reduzir a necessidade de
proibições constantes. Aspectos como mobiliário adequado, ausência de quinas
perigosas e escolha de superfícies apropriadas contribuem para que a criança
possa se movimentar e explorar com maior liberdade.
“A segurança deve criar condições para a exploração, e não impedir
que ela aconteça. Quando o ambiente é pensado para acolher a curiosidade e o
movimento da infância, conseguimos oferecer proteção sem retirar da criança a
oportunidade de experimentar seus próprios limites”, afirma a educadora.
Nesse processo, a presença atenta do adulto continua sendo
fundamental. Diante de um perigo real, a intervenção é necessária. Já os
pequenos desafios e frustrações que fazem parte da brincadeira podem se
transformar em oportunidades para que a criança busque soluções, perceba
limites e desenvolva confiança em suas próprias capacidades.
Em uma infância marcada por agendas cada vez mais estruturadas e
por novas formas de interação mediadas pela tecnologia, preservar momentos em
que a criança tenha liberdade para imaginar, explorar, conviver e descobrir
também é uma forma de cuidar de seu desenvolvimento. Garantir o brincar, dentro
e fora da escola, é garantir espaço para que a própria infância aconteça.
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