Marcela Oliveira, especialista em neuroreabilitação infantil, traz dicas para estudantes lidarem com a sobrecarga, manterem a concentração e se prepararem para os dias de prova, além de orientar as famílias sobre como ajudar nessa reta final
Depois
de meses de estudos, simulados e revisões, a chegada do Exame Nacional do
Ensino Médio (Enem) costuma trazer uma mistura de expectativa e ansiedade. Para
estudantes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH),
transtorno do espectro autista (TEA) e outras condições do neurodesenvolvimento,
porém, os desafios podem ir além do conteúdo cobrado. Permanecer várias horas
em uma sala, administrar o tempo, lidar com ruídos e manter a concentração até
a última questão podem exigir um esforço tão grande quanto resolver a própria
prova.
Em 2026, o Enem será realizado nos dias 8 e 15 de novembro. No primeiro domingo, os participantes enfrentarão cinco horas e meia de avaliação, com questões de Linguagens, Ciências Humanas e Redação. No segundo, serão cinco horas de provas de Matemática e Ciências da Natureza.
Segundo Marcela Oliveira, fisioterapeuta, pesquisadora, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil, a preparação desses estudantes precisa considerar não apenas o conhecimento adquirido, mas também as condições necessárias para que consigam demonstrá-lo.
“Imagine
um estudante que conhece o conteúdo, mas perde muito tempo tentando retomar a
concentração depois de um barulho ou de uma distração. Ou aquele que consegue
resolver questões difíceis, mas tem dificuldade para organizar a sequência da
prova e acaba deixando perguntas sem resposta. Isso não significa falta de
conhecimento. Muitas vezes, existe uma dificuldade relacionada à atenção, à
organização ou à regulação emocional que precisa ser considerada na
preparação”, explica.
A
especialista ressalta que não existe um comportamento único entre estudantes
neurodivergentes. Enquanto alguns apresentam dificuldade para sustentar a
atenção em tarefas prolongadas, outros podem ser especialmente sensíveis a
estímulos do ambiente ou mudanças de rotina.
O desafio de administrar a própria prova
Uma
das dificuldades que podem aparecer no Enem está relacionada às funções
executivas, habilidades envolvidas no planejamento, na organização, no controle
de impulsos e na capacidade de ajustar o próprio comportamento.
Na
prática, isso pode significar dificuldade para decidir por qual questão
começar, perceber que está gastando tempo demais em uma resposta ou interromper
uma tentativa quando ela não está funcionando. Alguns estudantes podem ficar
presos a uma questão difícil, enquanto outros respondem impulsivamente, sem
revisar o enunciado, ou se perdem diante de textos longos.
“Às
vezes, o estudante passa muito tempo tentando resolver uma única questão porque
sente que precisa terminá-la antes de seguir. Quando percebe, já comprometeu o
tempo das demais. Por isso, além de estudar o conteúdo, é importante treinar
estratégias para reconhecer quando vale insistir, quando é melhor avançar e
como retomar uma questão depois”, orienta Marcela.
Os
simulados podem ajudar nesse processo, especialmente quando utilizados para
observar como o estudante administra o tempo e reage às dificuldades. A
proposta não deve ser apenas reproduzir a pressão do exame, mas identificar
quais estratégias funcionam melhor para cada pessoa.
Quando o corpo dá sinais de sobrecarga
Nem
sempre a dificuldade aparece como uma crise evidente. Alguns estudantes começam
a demonstrar irritabilidade, inquietação, cansaço excessivo, dificuldade para
dormir ou resistência a atividades que antes conseguiam realizar. Outros ficam
mais silenciosos ou evitam conversar sobre a prova.
Esses
comportamentos não são exclusivos da neurodivergência, mas merecem atenção
quando representam uma mudança importante no funcionamento habitual do
adolescente.
“Quando
o estudante já está sobrecarregado, aumentar a cobrança nem sempre melhora o
rendimento. É preciso observar se ele está conseguindo dormir, se alimentando
adequadamente, fazendo pausas e mantendo alguma atividade prazerosa. Não
adianta exigir mais horas de estudo de alguém que já não consegue aproveitar
aquele tempo. Às vezes, reorganizar a rotina produz um resultado melhor do que
simplesmente acrescentar mais tarefas”, afirma Marcela.
A
poucas semanas do exame, portanto, a preparação não precisa significar mais
horas de estudo ou mudanças radicais na rotina. Pequenos ajustes podem ajudar o
adolescente a reconhecer sinais de sobrecarga, organizar o tempo e chegar à
prova com estratégias que já conhece. Nesse processo, a participação dos pais é
importante para oferecer segurança e apoio, sem assumir o controle de todas as
decisões.
Como se autorregular na reta final e durante o Enem?
Marcela
Oliveira reúne seis orientações que podem ser adaptadas às necessidades de cada
estudante:
1. Troque maratonas de estudo por períodos que realmente funcionem. Blocos menores, com objetivos claros e pausas
planejadas, podem ser mais eficientes do que longas horas diante dos livros. Os
pais podem ajudar na organização, mas é importante que o adolescente participe
das decisões sobre sua rotina.
2. Aprenda a reconhecer os primeiros sinais de sobrecarga.
Irritação crescente, dificuldade para compreender um texto simples, inquietação
ou sensação de bloqueio podem indicar a necessidade de uma pausa. Levantar,
caminhar, beber água ou respirar lentamente são possibilidades. O ideal é
experimentar essas estratégias antes do exame para descobrir quais realmente
ajudam.
3. Treine o que fazer quando a concentração se perde.
Durante os simulados, o estudante pode praticar uma sequência simples: perceber
que se distraiu, voltar ao enunciado, identificar o que a questão pede e
decidir se consegue continuar ou se é melhor avançar. O objetivo não é evitar
toda distração, mas aprender a retomar a atividade sem aumentar a frustração.
4. Reduza as surpresas dos dias de prova. Conhecer
antecipadamente o trajeto, conferir o local do exame e separar documentos e
materiais permitidos ajuda a diminuir preocupações. Para estudantes que têm
dificuldade com mudanças de rotina, conversar sobre como será o domingo pode
trazer mais previsibilidade. Os pais podem ajudar com a logística, sem
transmitir ansiedade.
5. Na véspera, apoio vale mais do que cobrança. A
família deve evitar comparações, cobranças de última hora e conversas repetidas
sobre notas ou aprovação. Manter horários de sono, refeições e atividades
habituais tende a ser mais útil do que tentar compensar meses de preparação em
uma única noite.
6. Entre um domingo e outro, respeite o tempo de recuperação.
Depois da primeira etapa, o estudante terá uma semana até as provas de
Matemática e Ciências da Natureza. Antes de retomar as revisões, é importante
considerar o desgaste do primeiro dia. Insistir em conferir o gabarito
imediatamente ou discutir cada resposta pode aumentar a ansiedade.
“A autorregulação não significa conseguir ficar calmo o tempo inteiro.
Significa aprender a reconhecer o que está acontecendo consigo e desenvolver
recursos para lidar com aquilo. Alguns estudantes vão precisar de mais apoio
para organizar o tempo, outros para administrar estímulos ou frustrações. O
importante é conhecer essas estratégias antes de chegar à prova, porque o dia
do Enem não é o melhor momento para experimentar algo completamente novo”, explica
Marcela.
Atendimento especializado: o que o estudante precisa conferir
Além
da preparação emocional, acadêmica e cognitiva, estudantes que necessitam de
recursos de acessibilidade devem verificar a situação do atendimento
especializado solicitado ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
O
Enem prevê atendimento especializado para diferentes condições, incluindo TDAH,
TEA, dislexia e discalculia. Entre os recursos disponíveis, conforme a necessidade
comprovada e a análise do Inep, estão tempo adicional, auxílio para leitura ou
transcrição e outras medidas de acessibilidade.
A
solicitação regular desses recursos ocorre durante o período de inscrição, e
sua concessão depende das regras do edital. Portanto, não basta apresentar um
diagnóstico no dia da prova para obter automaticamente tempo extra ou
adaptações. A orientação é consultar a Página do Participante e conferir os
recursos autorizados, além das informações sobre o local e os horários do exame.
“Os
recursos de acessibilidade não existem para oferecer vantagem a um estudante,
mas para reduzir barreiras que podem comprometer sua participação. É importante
que a família compreenda isso e que o adolescente saiba quais recursos terá
disponíveis”, afirma Marcela.
O resultado não define o estudante
Embora
o Enem tenha grande importância no acesso ao ensino superior, Marcela chama a
atenção para o peso emocional que muitas famílias atribuem ao exame. Para
adolescentes que já convivem com dificuldades de aprendizagem, organização ou
autorregulação, a sensação de estar sendo permanentemente avaliado pode tornar
esse período ainda mais desgastante.
“A
família precisa ajudar o estudante a se preparar, mas também transmitir
segurança. Um adolescente que encontra dificuldades para manter a atenção ou
organizar suas tarefas não precisa ouvir que está desperdiçando oportunidades.
Ele precisa compreender suas dificuldades, aprender estratégias e ter condições
de demonstrar o que sabe. O Enem é uma etapa importante, mas o resultado de
dois domingos não pode definir a capacidade, a inteligência ou o futuro de
ninguém”, conclui.
Marcela Oliveira - fisioterapeuta, pesquisadora e especialista em Neuroreabilitação Infantil, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil. Com mais de 20 anos de experiência, atua no desenvolvimento de crianças com diferentes condições neurológicas e do neurodesenvolvimento, com foco na funcionalidade, autonomia, participação social e qualidade de vida.
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