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sábado, 7 de novembro de 2026

Enem 2026: para estudantes neurodivergentes, o desafio pode começar antes da primeira questão

Marcela Oliveira, especialista em neuroreabilitação infantil, traz dicas para estudantes lidarem com a sobrecarga, manterem a concentração e se prepararem para os dias de prova, além de orientar as famílias sobre como ajudar nessa reta final

 

Depois de meses de estudos, simulados e revisões, a chegada do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) costuma trazer uma mistura de expectativa e ansiedade. Para estudantes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno do espectro autista (TEA) e outras condições do neurodesenvolvimento, porém, os desafios podem ir além do conteúdo cobrado. Permanecer várias horas em uma sala, administrar o tempo, lidar com ruídos e manter a concentração até a última questão podem exigir um esforço tão grande quanto resolver a própria prova. 

Em 2026, o Enem será realizado nos dias 8 e 15 de novembro. No primeiro domingo, os participantes enfrentarão cinco horas e meia de avaliação, com questões de Linguagens, Ciências Humanas e Redação. No segundo, serão cinco horas de provas de Matemática e Ciências da Natureza.  

Segundo Marcela Oliveira, fisioterapeuta, pesquisadora, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil, a preparação desses estudantes precisa considerar não apenas o conhecimento adquirido, mas também as condições necessárias para que consigam demonstrá-lo. 

“Imagine um estudante que conhece o conteúdo, mas perde muito tempo tentando retomar a concentração depois de um barulho ou de uma distração. Ou aquele que consegue resolver questões difíceis, mas tem dificuldade para organizar a sequência da prova e acaba deixando perguntas sem resposta. Isso não significa falta de conhecimento. Muitas vezes, existe uma dificuldade relacionada à atenção, à organização ou à regulação emocional que precisa ser considerada na preparação”, explica. 

A especialista ressalta que não existe um comportamento único entre estudantes neurodivergentes. Enquanto alguns apresentam dificuldade para sustentar a atenção em tarefas prolongadas, outros podem ser especialmente sensíveis a estímulos do ambiente ou mudanças de rotina.
 

O desafio de administrar a própria prova

Uma das dificuldades que podem aparecer no Enem está relacionada às funções executivas, habilidades envolvidas no planejamento, na organização, no controle de impulsos e na capacidade de ajustar o próprio comportamento. 

Na prática, isso pode significar dificuldade para decidir por qual questão começar, perceber que está gastando tempo demais em uma resposta ou interromper uma tentativa quando ela não está funcionando. Alguns estudantes podem ficar presos a uma questão difícil, enquanto outros respondem impulsivamente, sem revisar o enunciado, ou se perdem diante de textos longos. 

“Às vezes, o estudante passa muito tempo tentando resolver uma única questão porque sente que precisa terminá-la antes de seguir. Quando percebe, já comprometeu o tempo das demais. Por isso, além de estudar o conteúdo, é importante treinar estratégias para reconhecer quando vale insistir, quando é melhor avançar e como retomar uma questão depois”, orienta Marcela. 

Os simulados podem ajudar nesse processo, especialmente quando utilizados para observar como o estudante administra o tempo e reage às dificuldades. A proposta não deve ser apenas reproduzir a pressão do exame, mas identificar quais estratégias funcionam melhor para cada pessoa.

 

Quando o corpo dá sinais de sobrecarga

Nem sempre a dificuldade aparece como uma crise evidente. Alguns estudantes começam a demonstrar irritabilidade, inquietação, cansaço excessivo, dificuldade para dormir ou resistência a atividades que antes conseguiam realizar. Outros ficam mais silenciosos ou evitam conversar sobre a prova. 

Esses comportamentos não são exclusivos da neurodivergência, mas merecem atenção quando representam uma mudança importante no funcionamento habitual do adolescente.

“Quando o estudante já está sobrecarregado, aumentar a cobrança nem sempre melhora o rendimento. É preciso observar se ele está conseguindo dormir, se alimentando adequadamente, fazendo pausas e mantendo alguma atividade prazerosa. Não adianta exigir mais horas de estudo de alguém que já não consegue aproveitar aquele tempo. Às vezes, reorganizar a rotina produz um resultado melhor do que simplesmente acrescentar mais tarefas”, afirma Marcela. 

A poucas semanas do exame, portanto, a preparação não precisa significar mais horas de estudo ou mudanças radicais na rotina. Pequenos ajustes podem ajudar o adolescente a reconhecer sinais de sobrecarga, organizar o tempo e chegar à prova com estratégias que já conhece. Nesse processo, a participação dos pais é importante para oferecer segurança e apoio, sem assumir o controle de todas as decisões.

 

Como se autorregular na reta final e durante o Enem? 

Marcela Oliveira reúne seis orientações que podem ser adaptadas às necessidades de cada estudante:
 

1. Troque maratonas de estudo por períodos que realmente funcionem. Blocos menores, com objetivos claros e pausas planejadas, podem ser mais eficientes do que longas horas diante dos livros. Os pais podem ajudar na organização, mas é importante que o adolescente participe das decisões sobre sua rotina.


2. Aprenda a reconhecer os primeiros sinais de sobrecarga. Irritação crescente, dificuldade para compreender um texto simples, inquietação ou sensação de bloqueio podem indicar a necessidade de uma pausa. Levantar, caminhar, beber água ou respirar lentamente são possibilidades. O ideal é experimentar essas estratégias antes do exame para descobrir quais realmente ajudam.


3. Treine o que fazer quando a concentração se perde. Durante os simulados, o estudante pode praticar uma sequência simples: perceber que se distraiu, voltar ao enunciado, identificar o que a questão pede e decidir se consegue continuar ou se é melhor avançar. O objetivo não é evitar toda distração, mas aprender a retomar a atividade sem aumentar a frustração.


4. Reduza as surpresas dos dias de prova. Conhecer antecipadamente o trajeto, conferir o local do exame e separar documentos e materiais permitidos ajuda a diminuir preocupações. Para estudantes que têm dificuldade com mudanças de rotina, conversar sobre como será o domingo pode trazer mais previsibilidade. Os pais podem ajudar com a logística, sem transmitir ansiedade.


5. Na véspera, apoio vale mais do que cobrança. A família deve evitar comparações, cobranças de última hora e conversas repetidas sobre notas ou aprovação. Manter horários de sono, refeições e atividades habituais tende a ser mais útil do que tentar compensar meses de preparação em uma única noite.


6. Entre um domingo e outro, respeite o tempo de recuperação. Depois da primeira etapa, o estudante terá uma semana até as provas de Matemática e Ciências da Natureza. Antes de retomar as revisões, é importante considerar o desgaste do primeiro dia. Insistir em conferir o gabarito imediatamente ou discutir cada resposta pode aumentar a ansiedade.


“A autorregulação não significa conseguir ficar calmo o tempo inteiro. Significa aprender a reconhecer o que está acontecendo consigo e desenvolver recursos para lidar com aquilo. Alguns estudantes vão precisar de mais apoio para organizar o tempo, outros para administrar estímulos ou frustrações. O importante é conhecer essas estratégias antes de chegar à prova, porque o dia do Enem não é o melhor momento para experimentar algo completamente novo”, explica Marcela.

 

Atendimento especializado: o que o estudante precisa conferir

Além da preparação emocional, acadêmica e cognitiva, estudantes que necessitam de recursos de acessibilidade devem verificar a situação do atendimento especializado solicitado ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 

O Enem prevê atendimento especializado para diferentes condições, incluindo TDAH, TEA, dislexia e discalculia. Entre os recursos disponíveis, conforme a necessidade comprovada e a análise do Inep, estão tempo adicional, auxílio para leitura ou transcrição e outras medidas de acessibilidade. 

A solicitação regular desses recursos ocorre durante o período de inscrição, e sua concessão depende das regras do edital. Portanto, não basta apresentar um diagnóstico no dia da prova para obter automaticamente tempo extra ou adaptações. A orientação é consultar a Página do Participante e conferir os recursos autorizados, além das informações sobre o local e os horários do exame. 

“Os recursos de acessibilidade não existem para oferecer vantagem a um estudante, mas para reduzir barreiras que podem comprometer sua participação. É importante que a família compreenda isso e que o adolescente saiba quais recursos terá disponíveis”, afirma Marcela.

 

O resultado não define o estudante

Embora o Enem tenha grande importância no acesso ao ensino superior, Marcela chama a atenção para o peso emocional que muitas famílias atribuem ao exame. Para adolescentes que já convivem com dificuldades de aprendizagem, organização ou autorregulação, a sensação de estar sendo permanentemente avaliado pode tornar esse período ainda mais desgastante. 

“A família precisa ajudar o estudante a se preparar, mas também transmitir segurança. Um adolescente que encontra dificuldades para manter a atenção ou organizar suas tarefas não precisa ouvir que está desperdiçando oportunidades. Ele precisa compreender suas dificuldades, aprender estratégias e ter condições de demonstrar o que sabe. O Enem é uma etapa importante, mas o resultado de dois domingos não pode definir a capacidade, a inteligência ou o futuro de ninguém”, conclui.

 

Marcela Oliveira - fisioterapeuta, pesquisadora e especialista em Neuroreabilitação Infantil, fundadora e diretora da Clínica Follow Kids, especializada em neuroreabilitação infantil. Com mais de 20 anos de experiência, atua no desenvolvimento de crianças com diferentes condições neurológicas e do neurodesenvolvimento, com foco na funcionalidade, autonomia, participação social e qualidade de vida.


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