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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Gestor acidental: por que o melhor técnico pode virar o pior chefe

Estudo global com 11 mil líderes mostra que só 9% estão plenamente engajados no cargo; para especialista, a conta de promover sem preparar aparece na rotatividade e na produtividade

 

Apenas 9% dos líderes estão plenamente engajados no próprio cargo, e um em cada quatro não queria a função antes de ser convidado. Os dados são do Global Leadership Forecast 2027, da consultoria americana DDI, divulgado em outubro com respostas de 11.395 líderes e 2.519 profissionais de RH de mais de 50 países. O levantamento reacende o debate sobre o gestor acidental, expressão do Chartered Management Institute, do Reino Unido, para quem chega à chefia por ter sido bom no trabalho técnico, sem preparo para liderar pessoas. 

Para Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras, a história se repete em empresas de todos os portes. "O melhor vendedor bate meta todo mês, é promovido e, seis meses depois, o time está pedindo para sair. A empresa premiou o melhor, e ninguém ensinou o novo chefe a fazer o novo trabalho", afirma. 

Segundo a Gallup, só 44% dos gestores no mundo receberam algum treinamento de gestão. O estudo da DDI mostra o efeito disso. Líderes relutantes que receberam coaching têm 1,3 vez mais chance de estar plenamente engajados do que líderes ambiciosos que ficaram sem apoio. "A vontade de liderar pesa menos do que a formação que vem depois da promoção. Gestão é método, e método se aprende", analisa.

 

A conta no Brasil

A taxa de rotatividade do emprego formal subiu de 32,79% em 2024 para 33,64% em 2025, segundo o Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. "Cada troca custa recrutamento, treinamento e meses até o novo profissional render. Um gestor sem preparo multiplica esse custo", diz Santos. 

A produtividade também patina. Por hora efetivamente trabalhada, ela avançou 0,3% no primeiro semestre de 2026, segundo o Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). "Gestor sem método não organiza o trabalho, não dá feedback e não melhora processo. O time trabalha muito e produz pouco", avalia. 

Os mais jovens observam esse cenário. Segundo a Deloitte Gen Z and Millennial Survey 2026, 76% da Geração Z querem chegar à liderança em algum momento. Ainda assim, só 6% dos jovens profissionais colocam isso como objetivo principal, citando estresse, burnout e responsabilidade excessiva. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que 38,2% dos jovens de 18 a 24 anos ficam menos de um ano no emprego. "O jovem olha para o gestor acidental, sobrecarregado e sem preparo, e decide que não quer aquilo. Antes de culpar a geração, vale olhar um sistema que promove sem formar", comenta Santos. 

O especialista fala da própria trajetória. "Fui promovido todas as vezes por entregar resultado técnico. Dar feedback, avaliar desempenho e recrutar bem viraram rotina só agora, aos 42 anos", relata. Santos recomenda: 

- Para quem virou gestor sem preparo: combinar com cada pessoa do time duas ou três metas claras e a forma de medir cada uma; fazer uma conversa curta de feedback por mês, com fatos, e registrar; 

- Para donos e diretores: criar uma carreira técnica paralela, para que o melhor técnico cresça sem precisar virar chefe, e formar quem vai para a gestão antes da promoção; 

- Para quem tem um gestor acidental: pedir metas claras e feedback com frequência. "Muitas vezes ele não sabe que não sabe, e vai agradecer."

Para Santos, promover sem formar gera duas perdas ao mesmo tempo. "A empresa perde um ótimo profissional e ganha um gestor perdido. O custo aparece no time, na rotatividade e no resultado", finaliza.

  

Virgilio Marques dos Santos - PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Trabalha há 15 anos com desenvolvimento de carreiras, futuro do trabalho e transformação organizacional. É autor do livro "Partiu Carreira", TEDx Speaker e palestrante em temas de gestão, inovação e liderança.


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