Com 202 cursos superiores de IA e
ciência de dados no Brasil, CEO da Tera explica por que vestibulandos precisam
olhar também para o impacto da tecnologia nas profissões tradicionais
Com a aproximação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem),
marcado para 8 e 15 de novembro, a escolha de uma graduação ganha uma questão
adicional: como a inteligência artificial vai transformar as atividades da
profissão que o estudante pretende exercer? Para Leandro Herrera, fundador e
CEO da Tera, plataforma de educação em tecnologia e IA, o avanço da tecnologia
exige olhar não apenas para as novas carreiras, mas também para as
transformações daquelas que já existem.
Um levantamento do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE),
a partir de dados do Ministério da Educação, identificou 202 cursos superiores
de inteligência artificial e ciência de dados em funcionamento no Brasil,
distribuídos por 153 instituições. Desse total, 76 são bacharelados e 126 são
cursos tecnológicos. A expansão também se reflete no interesse dos estudantes.
Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o novo bacharelado em
Inteligência Artificial e Ciência de Dados, previsto para começar em 2027,
registrou 550 inscritos para 30 vagas oferecidas pelo vestibular.
Para Herrera, a criação de graduações específicas em IA representa
uma resposta à demanda por especialistas capazes de desenvolver tecnologias,
mas também evidencia uma transformação mais ampla, que alcança profissionais de
diferentes setores da economia.
“A expansão das graduações em IA faz sentido para quem pretende
desenvolver modelos e sistemas, mas não significa que todos os estudantes
precisem seguir esse caminho. Quem escolher administração, marketing, design ou
outra área também vai entrar em um mercado transformado pela tecnologia. O
desafio é aprender a aplicá-la aos problemas da própria profissão, sem abrir
mão de uma base sólida de conhecimento”, afirma Herrera.
Formação
ainda enfrenta distância entre teoria e prática
Uma pesquisa divulgada em setembro de 2026 pela Pearson e pela
Amazon Web Services (AWS) ajuda a dimensionar essa mudança. Entre 350
universitários brasileiros entrevistados, 74% consideram que os avanços da IA
tornam o ensino superior ainda mais essencial. Ao mesmo tempo, apenas 17%
acreditam que suas instituições acompanham a maioria ou todos os avanços da
tecnologia. Entre os 50 empregadores ouvidos, 42% apontam a falta de
experiência prática com ferramentas de IA no ambiente de trabalho como barreira
à contratação de recém-formados.
A pressão também aparece nas vagas. Segundo o Barômetro de Empregos
de IA 2026, da PwC, a participação de anúncios de emprego no Brasil que exigem
competências relacionadas à tecnologia passou de 1,1% em 2024 para 3,6% em
2025. Já o levantamento Habilidades em Alta 2026, do LinkedIn, identifica o uso
de IA e a transformação de dados em decisões entre as competências em
crescimento, com recortes de áreas como marketing, vendas, recursos humanos e
saúde.
Na própria Tera, o AI Adoption Benchmark Brasil 2025, realizado
com 3.109 profissionais, encontrou uma pontuação média de 72,8 em conhecimento
técnico de IA, em escala de 0 a 100, mas de 38,5 na autopercepção da capacidade
de aplicá-la no trabalho. Apenas 5,4% dos participantes alcançaram o estágio
avançado de adoção definido pelo estudo.
Inteligência
artificial transforma as profissões e os requisitos de contratação
A mudança já pode ser observada na própria nomenclatura das
oportunidades de emprego. Anúncios de vagas no Brasil passaram a trazer funções
como AI Product Manager e Creative AI Designer, que associam atividades
tradicionais de gestão de produtos e design ao domínio de ferramentas e
aplicações de inteligência artificial.
Esse movimento também alcança áreas como marketing, vendas e
liderança, nas quais o conhecimento técnico da profissão passa a ser combinado
com novas competências digitais. Para o executivo, esse cenário não reduz a
importância da graduação, mas reforça a necessidade de combinar o conhecimento
específico de cada área com aprendizagem contínua e experiência prática.
“O estudante que ingressar na faculdade em 2027 vai se formar em
um mercado diferente do atual. Por isso, a preparação não pode depender apenas
do currículo inicial. É importante construir uma base sólida na profissão
escolhida e, ao longo dessa jornada, aprender a incorporar novas tecnologias,
desenvolver pensamento crítico e resolver problemas concretos”, conclui.
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