Psicóloga alerta
sobre os impactos emocionais de uma profissão que diariamente lida com
sofrimento, perdas e decisões difíceis
No Dia do Veterinário, celebrado em 9 de setembro,
é comum destacar a dedicação de profissionais que cuidam da saúde e do
bem-estar dos animais. Mas existe uma dimensão dessa rotina que ainda recebe
pouca atenção: o impacto emocional de quem está diariamente diante da doença,
do sofrimento, da morte e também da dor dos responsáveis.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Veterinary
Sciences, da MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute)
ajuda a dimensionar o problema. A pesquisa avaliou 1.992 veterinários brasileiros
e identificou que 32,8% apresentaram níveis elevados de sofrimento psicológico,
segundo a escala K6, instrumento utilizado para avaliar sintomas relacionados a
ansiedade e depressão. Entre os principais fatores associados ao sofrimento
estão a sobrecarga de trabalho, a insatisfação com a carreira e o desequilíbrio
entre vida profissional e pessoal.
Para a psicóloga Juliana Sato, especializada em
luto, vínculo humano-animal e em saúde mental no universo PetVet, esses dados
precisam ser analisados também sob a perspectiva da natureza emocional do
trabalho. “O veterinário não lida apenas com protocolos, diagnósticos e
tratamentos: frequentemente precisa comunicar más notícias, acompanhar
processos de adoecimento, participar de decisões de fim de vida e, ao mesmo
tempo, acolher responsáveis que estão enfrentando a possibilidade ou a
concretização de uma perda”, relata.
Até porque numa mesma consulta, o veterinário pode
precisar ocupar o lugar de autoridade técnica e, poucos minutos depois, assumir
uma postura de acolhimento emocional. “Essa alternância constante exige muito
do profissional e pode fazer com que ele deixe as próprias emoções em segundo
plano”, explica Juliana.
O luto também faz parte dessa realidade. A perda de
um paciente pode representar uma experiência significativa para o profissional,
especialmente quando houve vínculo construído ao longo de anos. Há ainda outras
perdas menos evidentes: casos que não evoluem como esperado, insucessos em
tratamentos ou resgates, a sensação de impotência diante do sofrimento e até
situações vivenciadas pela equipe que nunca encontram espaço para serem
reconhecidas e elaboradas.
“Luto é um processo natural diante da perda de um
vínculo significativo e, no ambiente veterinário, ele pode aparecer de muitas
maneiras. O problema é que nem sempre existe tempo ou espaço para que o
profissional reconheça o que está sentindo antes de seguir para o próximo
atendimento”, observa a psicóloga.
A situação ganha um significado especial em
setembro, quando a discussão sobre prevenção e preservação à vida ganha maior
visibilidade. Para Juliana, falar sobre o bem-estar psicológico dos
veterinários é também uma forma de discutir a sustentabilidade da própria
profissão. A exposição contínua ao sofrimento, aliada à necessidade de manter
uma postura técnica e acolhedora, pode favorecer exaustão emocional, redução da
empatia, irritabilidade e distanciamento afetivo.
“O cuidado com a saúde mental do veterinário
não deve ser visto como algo separado da prática profissional. Quando o profissional
encontra recursos para reconhecer seus limites, elaborar as perdas e buscar
apoio, ele também consegue oferecer um cuidado mais consistente ao responsável
e ao animal”, afirma Juliana.
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