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| Desfile da Dior na Paris Fashion Week de 2026 Reprodução Instagram @fashionweek |
Já dizia o escritor francês Anatole France
(1844-1924): “Se eu pudesse escolher apenas um livro entre as publicações
impressas cem anos após a minha morte, sabe por qual optaria? Eu escolheria
simplesmente uma revista de moda, na qual eu poderia ver como as mulheres
estarão vestidas um século após minha partida. E estas roupas me falariam mais
sobre a humanidade futura do que filósofos, romancistas, profetas e
intelectuais”.
A discussão
sobre a moda como fenômeno sociocultural de expressão de um momento, de uma
sociedade ou um fenômeno meramente comercial, são algumas questões que emergem frequentemente
nos debates sobre esse campo.
Moda como símbolo de
comunicação
O processo
de criação na moda passa por transformações, muitas vezes por influência do
contexto cultural, histórico e ambiental, cujos valores e significados se
revelam na interpretação de sua realidade. Assim, é possível definir a moda
como a expressão do momento. Existem determinadas características de estilo que
sobressaem e expressam manifestações culturais, tornando a moda um símbolo de
comunicação de massa, cujas formas, cores e texturas “contam” o momento
histórico social de um país.
Vejamos por
exemplo a moda feminina das décadas de 1940 e 1950 na Europa, mais
especificamente na França, onde pode-se notar claramente o discurso de cada
uma, inserida em seu contexto. 1950 reflete a reação à rigidez da estrutura do
vestuário feminino dos anos 1940 e as grandes limitações à moda parisiense, criada
sob forte influência das linhas militares e do vestuário masculino, com poucas
cores, sem ornamentações, ombros armados e profusão de bolsos e de botões. As
saias encurtaram, devido à economia de tecido, e os looks eram complementados
por sapatos abotinados e sandálias com plataforma de cortiça. Era o reflexo do
rigor das leis protecionistas, que determinavam até a metragem do tecido a ser
utilizada. Os países envolvidos no conflito conviveram com o sentimento de
despojamento e de simplicidade.
Com o fim
da guerra, mais precisamente em 1947, aconteceu uma grande reviravolta no mundo
fashion, quando a Dior
apresentou sua primeira coleção de alta costura, a Ligne Corolle - rebatizada de New Look por Carmel Snow,
pela editora de moda da revista Harper’s Bazaar - com saias amplas de cintura
fina e corpetes estruturados. Os modelos chegavam a gastar vinte metros ou mais
de tecido para a roda da saia, a exemplo do modelo Dioríssimo, complementados
por sapatos altos de salto “agulha” e enormes chapéus. Era uma nova silhueta,
em que a moda expressava feminilidade e elegância e que, em contraponto à fase
anterior, exibia o reflorescimento da indústria têxtil e das pequenas empresas
de acessórios.
Linguagem da moda
A narrativa
fashion é um conjunto de
signos que envolve do conceito à construção estética e exibe um discurso
implícito de um momento, influenciado, por exemplo, por um contexto social,
como o comportamento de consumo, as crises ou novos movimentos sociais, e que
se reflete no discurso visual.
Por
exemplo, um desfile pós-pandemia pode exibir conforto e liberdade, por meio de
formas e de tecidos, com a silhueta mais ampla e a modelagem mais fluida. As
formas, os materiais e as cores dos modelos podem expressar e/ou questionar
padrões corporais e estéticos, tornando-se o espelho de seu tempo.
Paris, hoje
Em uma
rápida análise da moda em Paris, hoje, nota-se a valorização do corpo, unindo
simplicidade visual e respeito à silhueta, com conforto e movimento natural, e
os elementos que se destacam são a cintura marcada (uso do peplum), texturas ricas,
como o couro, em peças principais do look, e os bordados delicados em
substituição às estampas.
Realça o “feito à mão”, com técnicas artesanais, em contraponto ao consumo rápido anterior. A moda busca menos “choque” visual e mais pureza nas formas, definidas por modelagens e tecidos que dão o tom natural ao caminhar. Percebe-se o cansaço aos excessos, com a busca de uma estética mais limpa, mais natural, por meio de looks mais sóbrios e duradouros, contrapondo a prática do descarte. Enfim, a moda valoriza o trabalho artesanal e a origem das peças e sinaliza um retorno ao natural e ao chique.
Cristina Seixas: jornalista, tradutora, produtora de eventos de moda, estilista, escritora e mestre em Design pela PUC-Rio. Com mais de 40 anos de experiência, idealizou desfiles, produziu eventos em instituições como o Museu Histórico Nacional, além de ter sido professora do Curso de Bacharelado em Design – Habilitação Moda e de pós-graduação em Design de Moda e Acessórios de Moda do SENAI CETIQT, bem como lecionou na PUC-Rio, na UERJ e na UCAM. Participou da tradução de livros como “História da cozinha e da gastronomia francesa”, de Patrick Rambourg (Editora Cassará) e “Seu futuro nas linhas da mão”, de René Butler (Editora Record). Atuou na revisão de obras, entre as quais “Uma breve história do racismo”, de Jacques d’Adesky (Editora Cassará) e “Os sabores e os saberes de Danusia Barbara (Editora Cassará). Como escritora, publicou “Casa Canadá: a questão da cópia e da interpretação na produção de moda na década de 1950” (Editora Cassará, 2015), além de “Estética da moda, Styling & Produção”, este em parceria com a jornalista Lu Catoira (2021) e “Rabena Karib: jornada entre e o deserto e o mar” (2025), ambos pela Edições Cândido.
Instagram: @tittiseixas

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