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| INA FASSBENDER / AFP |
A suspensão europeia das importações brasileiras deveria provocar uma discussão que vai muito além do comércio: que tipo de vida estamos oferecendo aos animais que sustentam uma das maiores indústrias do país?
O Brasil está discutindo a suspensão das
importações de carne pela União Europeia como uma questão comercial. Fala-se em
barreira, exportações, prejuízos, competitividade e na necessidade de recuperar
o acesso a um dos mercados mais exigentes do mundo.
Mas existe uma pergunta que quase não aparece nessa
discussão: o que acontece com os animais antes que sua carne chegue a esse mercado?
Porque, antes de virar commodity, exportação,
faturamento ou estatística da balança comercial, existe um animal que nasce
dentro de um sistema desenhado para produzir o máximo possível. Que pode ser
submetido a confinamento, alta densidade, transporte, estresse, doenças,
procedimentos dolorosos e intervenções medicamentosas. Um animal cuja vida é,
do começo ao fim, condicionada por uma equação econômica.
A partir de 3 de setembro, a União Europeia
suspenderá as importações de carne brasileira em razão da falta de garantias
sobre a conformidade do país com as regras europeias relativas ao uso de
antimicrobianos.
É uma decisão sanitária. Mas ela deveria provocar
uma discussão muito maior sobre a forma como produzimos animais no Brasil.
O antibiótico não é o
problema. Mas pode ser um sintoma.
É importante dizer o óbvio: antibióticos e outros
antimicrobianos têm uma função legítima e indispensável na medicina
veterinária. Animais doentes precisam ser tratados.
O problema surge quando medicamentos deixam de ser
apenas uma ferramenta terapêutica e passam a integrar a lógica de produção.
A Organização Mundial da Saúde recomenda a redução
global do uso de antibióticos em animais destinados à produção de alimentos e
destaca que medidas como higiene, vacinação e prevenção devem ser usadas para
reduzir o risco de infecções e, consequentemente, a necessidade de
antimicrobianos.
Não estamos falando, portanto, de uma questão
meramente comercial.
A resistência antimicrobiana está entre as maiores
ameaças globais à saúde pública. Segundo a OMS, a resistência foi associada a
quase 5 milhões de mortes no mundo em 2019. A organização também defende a
redução do uso de antimicrobianos nos sistemas agroalimentares e uma utilização
prudente e baseada em evidências na saúde animal.
O próprio Ministério da Agricultura reconhece que o
uso responsável de antimicrobianos é importante tanto para a saúde e o
bem-estar dos animais quanto para conter a resistência dos microrganismos.
Então, por que um sistema de produção precisa
recorrer a tantos mecanismos de controle depois que o animal já adoeceu, em
vez de investir primeiro nas condições que ajudam a mantê-lo saudável?
O que o Porcos em Foco já vem
mostrando
Muito antes da questão dos antimicrobianos se
transformar em uma barreira para a entrada de produtos brasileiros no mercado
europeu, ela já era acompanhada como uma questão de bem-estar animal e de saúde única.
O Porcos em Foco — Monitor da Indústria Suína Brasileira, publicado anualmente pela Sinergia Animal, avalia
justamente o que as principais empresas do setor estão fazendo — e prometendo
fazer — para melhorar as condições de vida dos animais.
Na edição de 2025, o uso não terapêutico de
antimicrobianos foi analisado em três frentes diferentes: promoção de
crescimento, uso profilático e uso metafilático. A metodologia
considerou que essas práticas deveriam ser eliminadas para estimular que os
medicamentos fossem utilizados exclusivamente no tratamento de animais
doentes.
Os resultados são reveladores.
No caso do uso de antimicrobianos como promotores
de crescimento, apenas seis das 16 empresas avaliadas — Ecofrigo, MBRF, JBS,
Pamplona, Alibem e Master — tinham políticas consideradas adequadas para abolir
essa prática. As outras dez ainda não haviam publicado compromisso nesse
sentido.
Quando se olha para o uso profilático, o cenário é
ainda mais restritivo: somente a Ecofrigo havia assumido publicamente o
compromisso de banir essa prática até 2027. MBRF, JBS,
Pamplona, Alibem, Master, Aurora, Frimesa, Pif Paf, Coopavel, Ceratti,
Frivatti, Nutribras, Palmali e Gran Corte ainda não haviam publicado
compromisso para eliminá-la.
Para o uso metafilático, o resultado era
semelhante: somente a Ecofrigo havia assumido publicamente o compromisso de bani-lo
até o final de 2027. O Minerva mencionava um compromisso, mas
limitado a 80% de sua rede de fornecedores e com prazo até 2040 — condições que
fizeram com que não pontuasse nesse critério.
Ou seja: em 2025, entre as 16 empresas avaliadas pelo Porcos
em Foco, uma única havia assumido compromissos públicos considerados adequados
pela metodologia para eliminar os três usos não terapêuticos de
antimicrobianos.
Esse é um retrato de como a indústria brasileira
ainda enfrenta o problema.
O problema não começa no antibiótico
Quando um animal recebe um medicamento, estamos
olhando para o fim de uma cadeia de acontecimentos.
Antes disso, existe o ambiente em que ele vive. A
densidade. O espaço disponível. O manejo. O nível de estresse. A possibilidade
de expressar comportamentos naturais. A exposição a doenças. A capacidade do
sistema de prevenir problemas sem depender sistematicamente de medicamentos.
O Porcos em Foco parte justamente dessa
visão mais ampla.
Na edição de 2025, o relatório passou a separar os
três diferentes usos não terapêuticos de antimicrobianos e reconheceu que eles
deveriam ser analisados individualmente. A lógica é clara: não basta perguntar
se uma empresa “usa antibióticos”. É preciso saber para quê, em quais
circunstâncias e se existem compromissos concretos para eliminar usos que não
sejam terapêuticos.
A metodologia que será utilizada no Porcos em
Foco 2026 aprofunda ainda mais essa lógica.
Em vez de olhar apenas para compromissos, a nova
metodologia passa a diferenciar a implementação atual de compromisso público.
A mensagem é simples: Não basta
dizer que mudou. É preciso demonstrar que mudou.
Essa mudança metodológica é particularmente
importante neste momento.
Porque a discussão que agora chega ao centro do
comércio internacional é justamente uma discussão sobre garantias, evidências e
capacidade de demonstrar que as regras estão sendo cumpridas.
O que a União Europeia está colocando na mesa como
exigência sanitária encontra, portanto, um paralelo em uma discussão que a
sociedade civil já vinha fazendo com as próprias empresas brasileiras: qual é a
política de uso de antimicrobianos? O que já foi efetivamente eliminado? O que
ainda é praticado? Qual é a abrangência do compromisso? E que evidências
existem para demonstrar que ele está sendo cumprido?
O animal virou uma unidade de
produção
Antes de tudo, essa é uma discussão sobre como os
animais são criados.
O modelo industrial de produção animal foi
construído sobre uma promessa: produzir mais, mais rápido e a menor custo. Mais
carne, mais ovos, mais leite, mais animais por unidade de espaço, mais
eficiência por cadeia.
Quando um animal é transformado em uma unidade
produtiva, sua capacidade de se movimentar, descansar, explorar o ambiente,
expressar comportamentos naturais e viver sem dor ou sofrimento pode passar a
ser avaliada a partir de uma pergunta muito diferente: quanto isso
custa para a produção?
É aí que a discussão sobre bem-estar animal deixa
de ser periférica.
Porque um animal é um ser senciente, que sente dor,
sente medo e sente estresse. Ele adapta-se, sofre e responde às condições em
que é mantido.
E, ainda assim, boa parte da indústria continua
tratando essas necessidades como uma variável secundária diante da
produtividade.
Quanto sofrimento estamos dispostos a aceitar como
“custo” para produzir carne em escala?
O Brasil conhece essa lógica
há décadas
Talvez o melhor exemplo esteja longe das granjas e
dos frigoríficos. Está no mar.
A exportação de animais vivos é uma das expressões
mais explícitas de um sistema que transforma animais em mercadoria. Em vez de
transportar carne refrigerada, o Brasil embarca o próprio animal e o transforma
em carga.
Em 2024, mais de 1 milhão de bovinos vivos foram
exportados pelo país, segundo dados reportados a partir de informações de
comércio exterior. E os dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram
que, entre janeiro de 2020 e março de 2025, mais de 2,3 mil bovinos morreram
durante o transporte marítimo. Foram 393 viagens, das quais 306 registraram
mortes — cerca de 78% das travessias.
Em uma viagem do navio Nada, em 2024, 108
animais morreram durante uma travessia de aproximadamente uma semana com quase
23 mil bovinos a bordo.
E isso não começou agora.
Em 6 de outubro de 2015, o navio Haidar
naufragou no Pará com quase 5 mil bois vivos a bordo. Os animais morreram e o
acidente também provocou o derramamento de aproximadamente 700 mil litros de
resíduos oleosos, tornando-se um dos maiores desastres socioambientais da
região. Dez anos depois, o caso ainda gerava ações judiciais e discussões sobre
os impactos da atividade.
O mais perturbador talvez seja que a atividade
continuou crescendo.
Em vez de olhar para esses episódios como sinais de
que existe algo estruturalmente errado, o país continuou tratando a exportação
de animais vivos como mais uma modalidade comercial.
O animal embarca, o navio parte, a mercadoria chega
e o sofrimento fica invisível no caminho.
Quando o animal vira carga, a
lógica fica evidente
A exportação de animais vivos é um problema
diferente do uso de antimicrobianos.
Mas os dois fenômenos revelam a mesma lógica: quando o
animal é tratado primordialmente como mercadoria, suas necessidades passam a
ser subordinadas à eficiência econômica.
No transporte marítimo, o animal vira carga. Na
produção intensiva, vira unidade produtiva. No mercado, vira produto.
E quando algo dá errado, quase sempre a primeira
pergunta é “quanto custa"?
Quanto custa adaptar o sistema, reduzir a
densidade, eliminar gaiolas, melhorar o manejo?
Raramente começamos pela pergunta que deveria estar
no centro: quanto custa para o animal continuar vivendo nessas condições?
A decisão europeia deveria nos fazer perguntar o
que estamos fazendo antes de precisar do medicamento.
Estamos prevenindo doenças? Estamos criando
condições que permitam aos animais manter sua saúde? Estamos reduzindo fatores
de estresse? Estamos considerando comportamento natural? Estamos utilizando
sistemas de criação que respeitam as necessidades biológicas dos animais?
Ou estamos tentando fazer com que animais
geneticamente selecionados para produzir cada vez mais, confinados em sistemas
cada vez mais eficientes, permaneçam produtivos pelo tempo necessário para
completar seu ciclo econômico?
Essa diferença é fundamental.
E quem paga a conta?
Quando uma cadeia produtiva enfrenta uma barreira
sanitária, o debate rapidamente se transforma em números.
Em 2025, as exportações do agronegócio brasileiro
alcançaram US$ 169,2 bilhões. A carne bovina bateu recordes, com US$ 17,9
bilhões em receitas e aumento de 20,4% no volume exportado, segundo o
Ministério da Agricultura.
Ser líder mundial em produção não deveria
significar apenas produzir mais. Deveria significar ser capaz de estabelecer
padrões mais altos.
O Brasil pode continuar tratando essa vida como um
custo necessário para produzir proteína em escala ou pode reconhecer que uma
indústria verdadeiramente moderna não é aquela que apenas consegue produzir
mais. É aquela que consegue produzir sem transformar o sofrimento dos animais
em parte invisível da sua eficiência.
Cristina Diniz - diretora geral da Sinergia Animal
no Brasil

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