Pedagoga alerta que a substituição de experiências reais por estímulos digitais e respostas automatizadas de IAs prejudica o desenvolvimento de funções cognitivas cruciais, como a autorregulação e o pensamento divergente
Com
o avanço acelerado da tecnologia e a popularização de ferramentas de
Inteligência Artificial (IA) no cotidiano, pais, educadores e especialistas enfrentam
um dos maiores desafios contemporâneos: qual é o limite saudável para o uso de
dispositivos digitais na infância e na adolescência? Para Mariana Ruske,
pedagoga, especialista em neurociência e idealizadora da Senses Montessori
School, a introdução precoce e indiscriminada de telas e IAs está provocando
uma verdadeira erosão no desenvolvimento cognitivo e emocional das novas
gerações.
Enquanto
adultos utilizam a inteligência artificial para otimizar rotinas e economizar
tempo, o cenário muda drasticamente quando aplicada a cérebros em
desenvolvimento. De acordo com a especialista, crianças que delegam suas
pesquisas, dúvidas e resoluções de problemas para os chatbots perdem a
oportunidade de construir o que define como a "musculatura da dúvida e da
investigação".
"Para
nós, adultos, a IA é uma ferramenta excelente de economia de tempo e trabalho,
mas para as crianças é um recurso que rouba a oportunidade de desenvolver
justamente funções e competências fundamentais. Se introduzida no momento
errado, de forma precoce, a IA deixa de ser uma ferramenta e se torna uma
muleta, privando o cérebro da oportunidade de trabalhar e crescer. É como um
animal selvagem domesticado que nunca aprende a caçar, pois a comida lhe é dada
na boca desde cedo; se um dia volta para a natureza, já não tem chances de
viver livremente", destaca Mariana Ruske.
Pesquisas
com neuroimagem reforçam o alerta, demonstrando que o uso excessivo de telas
altera áreas fundamentais do cérebro em desenvolvimento, como o córtex
pré-frontal, responsável pelo planejamento e autocontrole, e o lobo temporal,
ligado à linguagem e à memória. Além disso, a substituição do tempo ocioso e
das interações analógicas por conteúdos hiperestimulantes impacta diretamente o
pensamento divergente, base da criatividade.
Desafios emocionais e comportamentais
Outro
ponto crítico levantado pela especialista é a terceirização de sentimentos. O
hábito comum de entregar o celular para conter birras ou acalmar a criança
impede que ela desenvolva resiliência diante da frustração. "Muitos pais
entregam o celular quando a criança chora ou não quer comer. Parece inofensivo,
mas ensina que diante do desconforto existe sempre um recurso externo que
alivia. Assim, a criança não aprende a lidar com frustração nem a se acalmar sozinha,
correndo o risco de se tornar um adulto que não suporta o tédio, não tolera o
silêncio e não sabe administrar a tristeza ou a ansiedade", pontua a
pedagoga.
Caminhos para uma infância sem dependência digital
A
especialista defende que o objetivo não é banir a tecnologia para sempre, mas
recolocá-la em seu devido lugar: como ferramenta de trabalho ou estudo, e nunca
como substituta do afeto, do tédio criativo ou da mediação humana. Entre as
orientações práticas para famílias estão:
Adiar a introdução de telas:
Nos primeiros mil dias de vida, o cérebro forma trilhões de conexões a partir
de experiências sensoriais e sociais concretas.
Valorizar experiências analógicas: A manipulação de objetos e o contato com a
natureza criam mapas mentais essenciais para o pensamento abstrato.
Evitar telas como prêmio ou calmante: Essa prática cria associações nocivas entre a
regulação emocional e o consumo digital.
Resgatar o tempo ocioso: Momentos sem estímulos externos são indispensáveis
para a imaginação, a concentração e a reorganização mental.
Mariana Ruske - Pedagoga da Senses Montessori School; especializada no método Montessori e fundadora da Senses Montessori School, referência em bilinguismo e educação Montessori no Brasil. Mãe de dois meninos, sua trajetória inclui formações em engenharia e astrofísica antes de encontrar sua vocação na pedagogia, impulsionada pela paixão pelo cérebro humano e seu desenvolvimento. Palestrante e ativista, dedica-se a disseminar informações sobre a proteção infantil contra abuso e violência. Defende que a educação infantil é a base do futuro e vê na Pedagogia Científica de Maria Montessori a ferramenta ideal para um desenvolvimento integral.
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