No mês de
conscientização pelo fim da violência contra a mulher, psicóloga explica como o
medo constante da reação do parceiro pode levar mulheres a abandonar desejos,
opiniões e até a própria identidade
Magnific
Você já mediu palavras ou deixou de fazer algo
porque teve medo da reação da outra pessoa? Ou mudou comportamentos porque
acreditava que seu companheiro não saberia lidar com aquela situação? Sentiu insegurança
ou desconfiou da própria percepção, mesmo sendo uma pessoa segura de si?
Nesse movimento que acontece aos poucos, passamos a
ajustar a nossa forma de existir para caber no espaço do outro, limitando a
espontaneidade e cerceando nossa capacidade de ser. Esse fenômeno descrito por
alguns autores como autossilenciamento ou self-silence consiste em inibir
pensamentos, sentimentos, desejos e ações para evitar conflitos, retaliações ou
a perda da relação.
Para a psicanalista Jessica Benjamin, uma relação
depende da capacidade de sustentar uma tensão fundamental que é afirmar a
própria existência sem anular a do outro. Reconhecer alguém significa suportar
que o outro seja realmente outro, um sujeito separado, com pensamentos, desejos
e limites que não coincidem necessariamente com os nossos.
Nas dinâmicas de controle, buscamos garantias do
amor através de comportamentos esperados que podem não acontecer, e que aos
poucos podem se tornar críticas ao parceiro: ironias, mudanças de humor,
acusações ou até longos silêncios como forma de punição. Por isso, o controle
raramente se satisfaz. Quanto mais o outro cede, menos essa concordância parece
suficiente. E então, para aliviar a própria insegurança, passamos a exigir
ainda mais provas, mais adaptações e mais controle.
Do outro lado passa a acontecer o famoso “pisar em
ovos”, adaptações, obediência, e uma tentativa de antecipar reações para se
proteger do caos emocional. O outro já não precisa demandar algo porque a
própria pessoa começa a se vigiar e silenciar diante do que pode vir a
acontecer.
É importante lembrar que amar e se relacionar exige
constante negociação, capacidade de tolerar frustrações e renúncias. Mas é
essencial perceber se esse movimento acontece dos dois lados ou se apenas uma
pessoa precisa se adaptar continuamente para que a relação sobreviva. Por isso,
um dos sinais mais precoces de que uma relação pode se tornar perigosa é
perceber não apenas o comportamento do parceiro, mas o que está acontecendo
dentro de nós. Assim, podemos desenvolver a consciência de que estar em um relacionamento
não significa que precisamos nos afastar de nós mesmos.
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