Na teoria do pediatra e psicanalista Donald Winnicott, os cuidados parentais são mais importantes do que o modo de alimentação
O mês de agosto é marcado pela campanha
Agosto Dourado, dedicada à conscientização sobre a importância do aleitamento
materno. Entre os dias 1º e 7, a Semana Mundial de Aleitamento Materno (SMAM)
reforça os benefícios do leite materno para a saúde do bebê e da mãe. Mas, em
meio às campanhas de incentivo, qual seria o impacto emocional vivido pelas
mulheres quando a amamentação não acontece como o esperado?
Para a psicanalista francesa radicada
em São Paulo, Octavie Laroque, apresentadora do podcast Onda, a
amamentação não é apenas um ato biológico, mas também uma experiência psíquica,
atravessada pela história, pelos desejos, pelas expectativas e pelo contexto de
cada mulher.
Quando uma mãe deseja amamentar e
encontra dificuldades, a primeira investigação costuma ser fisiológica. Dor,
fissuras, mastite ou problemas na pega do bebê exigem acompanhamento
especializado. No entanto, nem sempre as dificuldades podem ser explicadas
apenas pelo funcionamento do corpo. A experiência da amamentação também
mobiliza questões emocionais e inconscientes que variam conforme a trajetória
de cada mulher.
A relação com o próprio corpo, a forma
como a gravidez foi vivida, a experiência do parto e até as expectativas da
família podem interferir nesse processo. Quando a amamentação passa a ser
vivida como uma obrigação, é comum que surjam sentimentos de culpa,
insuficiência e fracasso, especialmente em um período já marcado por intensas
transformações físicas e emocionais.
“Quem viveu essa situação relata que,
depois de desistir de dar o peito, a introdução da mamadeira trouxe paz para a
família. Proponho então deslocar o olhar sobre o ato de amamentar. Se a
discussão sobre a amamentação costuma perguntar o que é melhor para o bebê,
prefiro interrogar o que permite à mãe estar bem para cuidar desse bebê.
Aliviar o sofrimento da mãe e do bebê é, em consequência, mais importante do
que manter a amamentação a qualquer custo”, explica Octavie.
Sob a perspectiva da psicanálise,
alimentar um bebê vai além do leite. O vínculo se constrói também no contato
corporal, no olhar, na voz, na forma de segurar, acolher e responder às
necessidades da criança. Inspirada no psicanalista Donald Winnicott, Octavie
lembra que os cuidados cotidianos são fundamentais para o desenvolvimento
afetivo do bebê e não dependem exclusivamente da amamentação.
Isso não significa minimizar a
importância do aleitamento materno, amplamente recomendado por seus benefícios
nutricionais e imunológicos. O desafio, segundo ela, é evitar que o incentivo
se transforme em cobrança e que mulheres que não conseguem, ou não desejam,
amamentar sejam submetidas a julgamentos que agravam seu sofrimento emocional.
Octavie propõe ampliar a conversa sobre
a amamentação e a refletir no cuidado oferecido às mulheres no puerpério.
“Compreender a dimensão psíquica da amamentação exige considerar também o
contexto social e cultural em que a relação entre mãe e bebê se constitui. Como
a mulher é tratada durante o puerpério? O que se espera dela? O ambiente lhe
permite entrar no papel materno com tranquilidade? Num país como o Brasil, onde
a cultura da amamentação é particularmente forte (quase sagrada), existe espaço
para que uma mãe escolha a forma como deseja cuidar do seu bebê?”.
Em um momento em que o Agosto Dourado
convida a sociedade a falar sobre amamentação, ampliar essa conversa também
para a saúde mental materna pode ser uma forma de fortalecer não apenas o
cuidado com o bebê, mas também com quem cuida.
“Precisamos pensar nas condições que
permitem à mãe confiar em sua capacidade de construir, à sua maneira, a relação
com o filho. Isso não depende apenas dela, mas também do cuidado que ela
própria recebe”, conclui a psicanalista.
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