Pesquisa da empresa canadense Future Fertility mostra que considerar apenas a idade e a quantidade de óvulos coletados pode não fornecer um panorama completo das chances de uma futura gravidez
O congelamento de óvulos vem crescendo nos últimos anos,
impulsionado pelo adiamento da maternidade e pelo maior acesso às técnicas de
reprodução assistida. Nesse cenário, uma das principais dúvidas das pacientes
continua sendo a mesma: quantos óvulos é preciso congelar para aumentar as
chances de engravidar no futuro?
Uma pesquisa conduzida pela Future Fertility, empresa canadense
especializada no desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial para
reprodução assistida, em parceria com o Fertility Medical Group, de São
Paulo, indica que essa resposta pode ser mais complexa do que se imaginava. Os
resultados mostram que considerar apenas a idade da mulher e a quantidade de
óvulos coletados pode não refletir o potencial reprodutivo individual de cada
paciente.
Ao combinar a idade da paciente com a qualidade individual de cada
óvulo, avaliada por inteligência artificial, os pesquisadores observaram que
mulheres da mesma faixa etária e com o mesmo número de óvulos congelados podem
apresentar perspectivas reprodutivas bastante diferentes. Isso significa que
metas padronizadas para o congelamento de óvulos podem não representar a
realidade biológica de todas as mulheres.
O estudo utilizou um modelo que integra idade materna, potencial
de desenvolvimento dos óvulos e inteligência artificial para estimar quantos
óvulos seriam necessários para aumentar as chances de gravidez futura. A
análise mostrou que, na maior parte dos casos avaliados, o número de óvulos
preservados estava abaixo do necessário para formar um conjunto de embriões
geneticamente normais com maior potencial de implantação e gravidez.
Um dos principais achados da pesquisa é que recomendações
uniformes sobre quantos óvulos congelar podem ser biologicamente enganosas.
"Durante muito tempo, o aconselhamento sobre congelamento de óvulos
esteve baseado principalmente na idade da mulher e na quantidade de óvulos
obtidos. Nosso estudo mostra que duas mulheres da mesma idade, com o mesmo
número de óvulos congelados, podem ter perspectivas reprodutivas bastante
diferentes. Ao incorporar informações sobre a qualidade individual de cada
óvulo, conseguimos oferecer um aconselhamento muito mais personalizado e
alinhado à realidade biológica de cada paciente, permitindo decisões mais
conscientes sobre o planejamento da fertilidade", explica Dr. Edson
Borges, Diretor Científico do Fertility Medical Group.
Segundo os pesquisadores, o objetivo não é estabelecer um
número ideal de óvulos para todas as mulheres, mas oferecer uma avaliação
individualizada que ajude médicos e pacientes a construir expectativas mais
realistas sobre as chances futuras de gravidez.
Os resultados foram apresentados neste mês durante a conferência
anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE),
em Londres, considerada o principal encontro científico mundial da área de
reprodução assistida. A Future Fertility teve todos os 11 estudos submetidos
aceitos para apresentação, alcançando uma taxa de aprovação de 100%. Três deles
foram selecionados para apresentações orais, modalidade reservada aos trabalhos
de maior destaque científico. Dois desses estudos foram desenvolvidos em
parceria com o Fertility Medical Group, de São Paulo.
Inteligência artificial amplia a precisão das decisões clínicas
Além do estudo sobre preservação da fertilidade, a Future
Fertility apresentou pesquisas mostrando como a inteligência artificial pode
contribuir para uma medicina reprodutiva cada vez mais personalizada. Uma delas
investigou a influência da idade paterna nos resultados da fertilização in
vitro. Óvulos classificados com melhor qualidade apresentaram maior
capacidade de compensar alterações relacionadas ao envelhecimento masculino,
contribuindo para previsões mais precisas das taxas de fertilização, formação
de embriões e potencial de gravidez.
"A reprodução humana depende da interação entre fatores
femininos e masculinos. A IA está permitindo compreender essas interações com
um nível de detalhe que antes não era possível, oferecendo aos médicos novas
informações para apoiar o prognóstico e a tomada de decisão. O objetivo não é
substituir a experiência clínica, mas acrescentar evidências objetivas para uma
medicina cada vez mais personalizada", analisa Borges.
Outro destaque foi um sistema baseado em IA desenvolvido para
otimizar programas de doação de óvulos. A pesquisa demonstrou que a
tecnologia reduziu significativamente a formação de lotes com baixo potencial
de desenvolvimento embrionário, aumentando a padronização e a eficiência desses
programas. O trabalho foi apresentado pela pesquisadora brasileira Laís
Vanzella, integrante da equipe científica da Future Fertility.
A empresa também apresentou pesquisas que associaram fatores
cotidianos, como consumo de álcool, tabagismo, qualidade do sono, atividade
física e ansiedade, à qualidade dos óvulos avaliada por inteligência
artificial. São informações que poderão contribuir para um aconselhamento mais
personalizado antes do início dos tratamentos de fertilidade, orientando mudanças
de hábitos capazes de favorecer resultados.
"O que estamos vendo é uma mudança de paradigma. A
inteligência artificial permite enxergar diferenças biológicas que antes
passavam despercebidas e transforma informações que antes eram generalistas em
um aconselhamento verdadeiramente individualizado. Esse é um passo importante
para tornar os tratamentos de fertilidade mais precisos, transparentes e
centrados nas necessidades de cada paciente", conclui o médico.


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