Além de estudos internacionais recentes que reforçam a falta de eficácia nos procedimentos complementares, práticas como sono, alimentação adequada, atividade física e preparo do organismo têm impacto mais consistente na qualidade do tratamento do que muitos dos “plus” oferecidos no mercado
Para muitas pessoas que recorrem à fertilização in vitro em busca de ter filhos, é comum a oferta de procedimentos complementares que prometem aumentar as chances de sucesso do tratamento.
No entanto, segundo um especialista em reprodução humana e sócio-fundador de uma clínica, além de representarem um custo adicional, a maioria dessas intervenções não possui comprovação científica de que realmente aumente as chances de gravidez. Algumas delas podem contribuir para o bem-estar emocional e o relaxamento dos pacientes durante o processo, mas sem evidências consistentes de impacto nos resultados da fertilização.
A técnica de Endometrial Receptivity Analysis (ERA), por exemplo, tem sido cada vez mais questionada dentro da medicina reprodutiva e, segundo o especialista, já foi, inclusive, descartada em congressos europeus e americanos, a ponto de ser tratada internamente como uma abordagem sem relevância clínica atual.
“Já a acupuntura é vista como um
tratamento adjuvante: pode contribuir para melhora da circulação uterina e,
principalmente, para o relaxamento da paciente durante o processo, o que é
benéfico do ponto de vista do bem-estar, mas sem evidência consistente de que
aumente diretamente as taxas de gravidez”, pontua o especialista em reprodução
humana e sócio-fundador da clínica Genics, Phillip Wolf.
Estudos e a opinião do especialista
A posição do especialista ganha respaldo num estudo publicado em junho de 2026 na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health, na qual os pesquisadores analisaram dados de 85 estudos clínicos sobre 10 dos complementos mais utilizados na fertilização in vitro (FIV) e concluíram que 7 deles não apresentam benefício comprovado ou possuem evidências científicas muito fracas para aumentar as chances de gravidez ou nascimento de um bebê.
Os procedimentos complementares analisados são técnicas e tratamentos oferecidos além da fertilização in vitro tradicional. Entre eles, segundo o material, estão exames para avaliar o melhor momento de implantação do embrião no útero, seleção genética de embriões (PGT-A), uso de medicamentos imunológicos como corticoides e infusões de intralipídios, aplicações de plasma rico em plaquetas (PRP), além de terapias como acupuntura.
“Outras intervenções, como o uso de intralipídios, exigem indicação muito criteriosa, enquanto o PGT-A é considerado um exame controverso, embora tenha utilidade mais clara em pacientes acima dos 39–40 anos, quando há alta taxa de embriões com alterações cromossômicas. Já técnicas como o EmbryoGlue também seguem em debate, sem comprovação consistente de aumento real nas taxas de gestação, apesar de alguns benefícios indiretos relacionados à preparação do endométrio e ao tempo adicional de preparo do organismo após o congelamento de embriões”, explica Wolf.
De modo geral, o especialista destaca que práticas como sono, alimentação adequada, atividade física e preparo do organismo têm impacto mais consistente na qualidade do tratamento do que muitos dos chamados “complementos” oferecidos no mercado.
“A lógica é simples: a fertilização in
vitro depende não apenas do embrião, mas também da capacidade do corpo de
receber e sustentar uma gravidez. Quando o organismo está mais saudável e
estável metabolicamente, há melhores condições de resposta aos hormônios do
tratamento e de implantação do embrião. Por isso, essas medidas de estilo de
vida acabam tendo evidência mais consistente de impacto positivo do que muitos
procedimentos adicionais oferecidos em clínicas que, ainda, não demonstraram
ganho real nas taxas de gravidez”, conclui.

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