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sexta-feira, 24 de julho de 2026

Etarismo: preconceito contra pessoas idosas compromete a qualidade de vida e favorece o isolamento

No Dia dos Avós (26.07), especialistas explicam como a discriminação pode prejudicar a saúde mental, aumentar o isolamento social, retardar diagnósticos e comprometer o bem-estar na terceira idade



Envelhecer é um processo natural da vida, mas milhões de pessoas ainda enfrentam um preconceito muitas vezes invisível: o idadismo, também conhecido como etarismo. Caracterizado por estereótipos, discriminação e atitudes negativas relacionadas à idade, esse tipo de preconceito está presente em diferentes contextos, como no ambiente de trabalho, nos serviços de saúde, nas relações familiares e até nas interações do dia a dia.


Embora frequentemente se manifeste por meio de comentários considerados "inofensivos", como associar automaticamente o envelhecimento à incapacidade, à fragilidade ou à inutilidade, o idadismo reforça estigmas que limitam a autonomia, reduzem a participação social e favorecem o isolamento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 6,3 milhões de casos de depressão em todo o mundo podem ser atribuídos ao preconceito relacionado à idade. Além disso, a entidade destaca que o idadismo está associado ao aumento do risco de ansiedade, baixa autoestima, isolamento social, declínio cognitivo, pior saúde mental, redução da qualidade de vida e adoção de comportamentos prejudiciais à saúde.


Segundo a Dra. Mariana Ramos, professora de Psicologia na Afya Centro Universitário Itaperuna, o preconceito relacionado à idade afeta diretamente a forma como o idoso percebe a si mesmo e seu lugar na sociedade. "Nossa identidade também é construída pelas mensagens que recebemos ao longo da vida. Quando alguém escuta repetidamente que está 'velho demais', que não consegue mais aprender ou que já não é útil, essas ideias podem ser incorporadas como verdades. Esse processo reduz a autoestima, enfraquece a confiança nas próprias capacidades e favorece sentimentos de tristeza, solidão e desesperança", explica.


A psicóloga ressalta que o problema não está apenas nas atitudes explícitas de discriminação, mas também em comportamentos sutis, como excluir o idoso das decisões familiares, infantilizar sua fala ou presumir que ele não é capaz de aprender novas habilidades. "O idadismo costuma acontecer de forma muito naturalizada. Ele aparece quando interrompemos um idoso antes que conclua uma ideia, decidimos por ele sem consultá-lo, respondemos perguntas em seu lugar ou presumimos que ele não conseguirá compreender uma conversa ou aprender uma nova tecnologia. Mesmo quando essas atitudes são motivadas pela intenção de cuidar, elas acabam transmitindo a mensagem de que sua opinião já não importa. Isso compromete sua autonomia, sua identidade e seu senso de pertencimento", afirma Mariana Ramos.


A diminuição da participação social, o afastamento de atividades de lazer e a perda da sensação de utilidade favorecem o isolamento social, considerado um importante fator de risco para transtornos mentais. Além disso, o preconceito contra a idade pode restringir o acesso da população idosa aos espaços de convivência, dificultar a busca por cuidados preventivos e reduzir o interesse por novas atividades, aprendizados e interações sociais, comprometendo diferentes aspectos da saúde e da qualidade de vida.


Dra. Karoline Fiorotti, professora de pós-graduação em Geriatria da Afya Vitória, destaca que a saúde mental e a saúde física caminham juntas durante o envelhecimento. Segundo ela, quando o idoso sofre discriminação constante, os efeitos podem ultrapassar o aspecto emocional e repercutir também no organismo.


"O preconceito relacionado à idade restringe a participação da pessoa idosa na sociedade e pode fazer com que muitas dificuldades sejam atribuídas apenas ao envelhecimento. Esse cenário favorece o estresse crônico, sintomas de ansiedade e depressão, além de diminuir a motivação para manter hábitos saudáveis, praticar atividade física, participar de grupos sociais e seguir corretamente os tratamentos. Como consequência, aumenta o risco de isolamento social, dependência, piora das doenças crônicas e até demência", explica.


A médica acrescenta que muitos idosos deixam de buscar atendimento de saúde ou evitam relatar sintomas por acreditarem que determinadas dificuldades fazem parte, inevitavelmente, do envelhecimento. "Esquecer não é algo normal do envelhecimento, assim como sentir tristeza constante também não. É verdade que algumas funções podem ficar um pouco mais lentas com a idade, como o raciocínio ou o aprendizado, mas alterações persistentes de memória, humor ou comportamento precisam ser investigadas. Além disso, idosos costumam apresentar sintomas menos específicos, como sonolência, perda de apetite, perda de peso, indisposição, fraqueza ou palpitações, que muitas vezes acabam sendo atribuídos apenas à idade. Isso pode atrasar diagnósticos importantes, comprometer o início precoce do tratamento e prejudicar a qualidade de vida", ressalta  Dra. Karoline.


A especialista destaca ainda que preservar a autonomia da pessoa idosa traz benefícios que vão muito além da saúde mental. De acordo com ela, idosos inseridos na família, na comunidade e nas atividades sociais tendem a apresentar melhor funcionalidade, maior adesão aos tratamentos, diagnóstico mais precoce de doenças, menor risco de quedas, preservação da massa muscular e redução da mortalidade.

 



Como combater o etarismo?


Para as especialistas, enfrentar o preconceito contra a idade exige mudanças culturais e coletivas. Valorizar a experiência acumulada ao longo da vida, incentivar a participação ativa dos idosos nas decisões que dizem respeito à própria vida e promover ambientes mais inclusivos são atitudes fundamentais para preservar o bem-estar emocional dessa população.


Além das mudanças de comportamento, a geriatra destaca que combater o idadismo também passa por reduzir barreiras que limitam a autonomia da pessoa idosa, entre elas a exclusão digital. Para a médica, ensinar idosos a utilizar aplicativos bancários, plataformas de saúde, ferramentas de telemedicina e redes sociais fortalece a independência, amplia o acesso aos serviços e favorece a inclusão social.

Dra. Mariana Ramos destaca que o envelhecimento não deve ser encarado como uma fase de perdas, mas como um período que continua repleto de possibilidades. "Cada pessoa idosa possui uma trajetória única, com valores, desejos, competências e projetos. O respeito começa quando deixamos de enxergar apenas a idade cronológica e reconhecemos essa individualidade. Envelhecer não significa deixar de aprender, sonhar ou construir novos significados para a vida. Quando a sociedade passa a enxergar a pessoa antes da idade, favorece um envelhecimento mais saudável, ativo e emocionalmente equilibrado."


Dra. Karoline reforça que o envelhecimento deve ser compreendido como uma etapa natural da vida e que o convívio entre diferentes gerações beneficia toda a sociedade." Cada idade tem seus desafios e também suas potencialidades. Os idosos carregam uma experiência de vida que enriquece crianças, jovens e adultos. Precisamos construir ambientes mais acolhedores, acessíveis e inclusivos, valorizando suas capacidades e oferecendo condições para que continuem participando ativamente da sociedade. Acolher as dificuldades e potencializar as forças da pessoa idosa é uma responsabilidade de todos", conclui.

 


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