No Dia dos Avós (26.07), especialistas explicam como a
discriminação pode prejudicar a saúde mental, aumentar o isolamento social,
retardar diagnósticos e comprometer o bem-estar na terceira idade
Envelhecer é um processo natural da vida, mas
milhões de pessoas ainda enfrentam um preconceito muitas vezes invisível: o
idadismo, também conhecido como etarismo. Caracterizado por estereótipos,
discriminação e atitudes negativas relacionadas à idade, esse tipo de
preconceito está presente em diferentes contextos, como no ambiente de
trabalho, nos serviços de saúde, nas relações familiares e até nas interações
do dia a dia.
Embora frequentemente se manifeste por meio
de comentários considerados "inofensivos", como associar
automaticamente o envelhecimento à incapacidade, à fragilidade ou à
inutilidade, o idadismo reforça estigmas que limitam a autonomia, reduzem a
participação social e favorecem o isolamento. Segundo a Organização Mundial da
Saúde (OMS), cerca de 6,3 milhões de casos de depressão em todo o mundo podem
ser atribuídos ao preconceito relacionado à idade. Além disso, a entidade
destaca que o idadismo está associado ao aumento do risco de ansiedade, baixa
autoestima, isolamento social, declínio cognitivo, pior saúde mental, redução
da qualidade de vida e adoção de comportamentos prejudiciais à saúde.
Segundo a Dra. Mariana Ramos, professora de
Psicologia na Afya Centro Universitário Itaperuna, o preconceito relacionado à
idade afeta diretamente a forma como o idoso percebe a si mesmo e seu lugar na
sociedade. "Nossa identidade também é construída pelas mensagens que
recebemos ao longo da vida. Quando alguém escuta repetidamente que está 'velho
demais', que não consegue mais aprender ou que já não é útil, essas ideias
podem ser incorporadas como verdades. Esse processo reduz a autoestima,
enfraquece a confiança nas próprias capacidades e favorece sentimentos de
tristeza, solidão e desesperança", explica.
A psicóloga ressalta que o problema não está
apenas nas atitudes explícitas de discriminação, mas também em comportamentos
sutis, como excluir o idoso das decisões familiares, infantilizar sua fala ou
presumir que ele não é capaz de aprender novas habilidades. "O idadismo
costuma acontecer de forma muito naturalizada. Ele aparece quando interrompemos
um idoso antes que conclua uma ideia, decidimos por ele sem consultá-lo,
respondemos perguntas em seu lugar ou presumimos que ele não conseguirá
compreender uma conversa ou aprender uma nova tecnologia. Mesmo quando essas
atitudes são motivadas pela intenção de cuidar, elas acabam transmitindo a
mensagem de que sua opinião já não importa. Isso compromete sua autonomia, sua
identidade e seu senso de pertencimento", afirma Mariana Ramos.
A diminuição da participação social, o
afastamento de atividades de lazer e a perda da sensação de utilidade favorecem
o isolamento social, considerado um importante fator de risco para transtornos
mentais. Além disso, o preconceito contra a idade pode restringir o acesso da
população idosa aos espaços de convivência, dificultar a busca por cuidados
preventivos e reduzir o interesse por novas atividades, aprendizados e interações
sociais, comprometendo diferentes aspectos da saúde e da qualidade de vida.
Dra. Karoline Fiorotti, professora de
pós-graduação em Geriatria da Afya Vitória, destaca que a saúde mental e a
saúde física caminham juntas durante o envelhecimento. Segundo ela, quando o
idoso sofre discriminação constante, os efeitos podem ultrapassar o aspecto
emocional e repercutir também no organismo.
"O preconceito relacionado à idade
restringe a participação da pessoa idosa na sociedade e pode fazer com que
muitas dificuldades sejam atribuídas apenas ao envelhecimento. Esse cenário
favorece o estresse crônico, sintomas de ansiedade e depressão, além de
diminuir a motivação para manter hábitos saudáveis, praticar atividade física,
participar de grupos sociais e seguir corretamente os tratamentos. Como
consequência, aumenta o risco de isolamento social, dependência, piora das
doenças crônicas e até demência", explica.
A médica acrescenta que muitos idosos deixam
de buscar atendimento de saúde ou evitam relatar sintomas por acreditarem que
determinadas dificuldades fazem parte, inevitavelmente, do envelhecimento.
"Esquecer não é algo normal do envelhecimento, assim como sentir tristeza
constante também não. É verdade que algumas funções podem ficar um pouco mais
lentas com a idade, como o raciocínio ou o aprendizado, mas alterações
persistentes de memória, humor ou comportamento precisam ser investigadas. Além
disso, idosos costumam apresentar sintomas menos específicos, como sonolência,
perda de apetite, perda de peso, indisposição, fraqueza ou palpitações, que
muitas vezes acabam sendo atribuídos apenas à idade. Isso pode atrasar
diagnósticos importantes, comprometer o início precoce do tratamento e prejudicar
a qualidade de vida", ressalta Dra. Karoline.
A especialista destaca ainda que preservar a
autonomia da pessoa idosa traz benefícios que vão muito além da saúde mental.
De acordo com ela, idosos inseridos na família, na comunidade e nas atividades
sociais tendem a apresentar melhor funcionalidade, maior adesão aos
tratamentos, diagnóstico mais precoce de doenças, menor risco de quedas,
preservação da massa muscular e redução da mortalidade.
Como
combater o etarismo?
Para as especialistas, enfrentar o
preconceito contra a idade exige mudanças culturais e coletivas. Valorizar a
experiência acumulada ao longo da vida, incentivar a participação ativa dos
idosos nas decisões que dizem respeito à própria vida e promover ambientes mais
inclusivos são atitudes fundamentais para preservar o bem-estar emocional dessa
população.
Além das mudanças de comportamento, a
geriatra destaca que combater o idadismo também passa por reduzir barreiras que
limitam a autonomia da pessoa idosa, entre elas a exclusão digital. Para a
médica, ensinar idosos a utilizar aplicativos bancários, plataformas de saúde,
ferramentas de telemedicina e redes sociais fortalece a independência, amplia o
acesso aos serviços e favorece a inclusão social.
Dra. Mariana Ramos destaca que o
envelhecimento não deve ser encarado como uma fase de perdas, mas como um
período que continua repleto de possibilidades. "Cada pessoa idosa possui
uma trajetória única, com valores, desejos, competências e projetos. O respeito
começa quando deixamos de enxergar apenas a idade cronológica e reconhecemos
essa individualidade. Envelhecer não significa deixar de aprender, sonhar ou
construir novos significados para a vida. Quando a sociedade passa a enxergar a
pessoa antes da idade, favorece um envelhecimento mais saudável, ativo e
emocionalmente equilibrado."
Dra. Karoline reforça que o envelhecimento
deve ser compreendido como uma etapa natural da vida e que o convívio entre
diferentes gerações beneficia toda a sociedade." Cada idade tem seus
desafios e também suas potencialidades. Os idosos carregam uma experiência de
vida que enriquece crianças, jovens e adultos. Precisamos construir ambientes
mais acolhedores, acessíveis e inclusivos, valorizando suas capacidades e
oferecendo condições para que continuem participando ativamente da sociedade.
Acolher as dificuldades e potencializar as forças da pessoa idosa é uma
responsabilidade de todos", conclui.
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