Opinião
É urgente colocar a merenda escolar no centro do debate educacional. Muito além de arroz, feijão e salada, o que se serve nas escolas brasileiras é, para milhões de crianças, a única refeição completa do dia. Trata-se de uma política pública estratégica, com impactos diretos na saúde, na aprendizagem e na economia.
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE),
criado em 1955 e reforçado pela Lei 11.947/2009, é um dos maiores do mundo.
Atende cerca de 40 milhões de estudantes em 150 mil escolas públicas, com um
orçamento de R$ 5,5 bilhões por ano. Embora pareça um investimento robusto, o
valor diário varia entre R$ 0,41 e R$ 1,37 por aluno — o que torna
indispensável o complemento por parte dos estados e municípios. No Paraná, por
exemplo, escolas integrais oferecem cinco refeições diárias, com cardápios
elaborados conforme o Guia Alimentar para a População Brasileira.
Os hábitos alimentares de crianças e adolescentes
são fortemente influenciados pelo ambiente em que vivem, especialmente o
escolar, onde passam boa parte do dia. A adolescência é uma fase decisiva na
formação desses hábitos, marcada pela baixa ingestão de frutas e hortaliças e
pelo alto consumo de alimentos ultraprocessados. Nesse contexto, a escola
assume um papel estratégico ao incentivar o consumo de alimentos in natura e
minimamente processados, que constituem a base da alimentação escolar.
Estudos recentes mostram que estudantes bem
alimentados apresentam até 20% mais rendimento em disciplinas como matemática e
português. Segundo o Inep, a merenda reduz o absenteísmo, melhora a
concentração e favorece a aprovação escolar. Dados do Saeb confirmam que
escolas com alimentação adequada apresentam melhor desempenho em larga escala.
Além disso, 70,8% dos alunos atendidos pelo PNAE relatam melhoria nas notas
após o acesso regular à alimentação escolar de qualidade.
A merenda escolar também se mostra um antídoto
contra a evasão. A fome é uma inimiga silenciosa da educação e sua presença nas
salas de aula compromete não só o aprendizado, mas também o direito básico à
dignidade. No Brasil, cerca de 15 milhões de crianças e adolescentes convivem
com excesso de peso, segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2024 — cenário que
reforça o papel pedagógico da escola na promoção de hábitos saudáveis.
Outro aspecto crucial é o retorno econômico. De
acordo com o World Food Programme (WFP), cada dólar investido na alimentação
escolar pode gerar entre 7 e 35 dólares em benefícios econômicos. Isso porque o
PNAE também fortalece a economia local: ao menos 30% dos recursos são
destinados à compra de alimentos da agricultura familiar, com prioridade para
as comunidades indígenas e quilombolas.
Vale ressaltar a importância dos profissionais que
sustentam essa engrenagem: as cozineiras e os cozinheiros. São eles que,
diariamente, transformam recursos limitados em refeições dignas, equilibradas e
culturalmente adequadas. Profissionais que, a partir da relação com os alunos,
observam quem come com mais pressa e quem evita o prato por vergonha de
repetir. São agentes de cuidado e inclusão. Reconhecer seu papel é reconhecer a
dimensão humana e afetiva da escola pública brasileira.
É preciso abandonar a visão estreita que trata a
alimentação escolar como um custo acessório e assumir seu papel como vetor de
transformação social. Alimentar crianças e jovens é garantir que o aprendizado
não comece em desvantagem. A fome não tira apenas o apetite. Ela rouba o futuro.
Etiene Corso - mestre em Desenvolvimento Comunitário e assistente social
Mariana de Almeida - nutricionista das escolas públicas participantes do Programa Parceiro da Escola na regional de Guarapuava, geridas pelo APG.Gov.
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