Fadiga persistente, tontura e dificuldade de concentração podem indicar doenças hematológicas que exigem diagnóstico precoce
Entre jornadas de trabalho cada vez mais intensas, excesso de compromissos e noites mal dormidas, sintomas como fadiga persistente, tontura e dificuldade de concentração passaram a ser vistos como consequências naturais da vida moderna.
O problema é que nem sempre o cansaço é
apenas reflexo da rotina. Segundo Roberto Luiz Silva, médico hematologista e
responsável técnico pelo Departamento de Transplante de Medula Óssea do IBCC
Oncologia, esses sinais podem ser as primeiras manifestações de doenças
hematológicas importantes, como a leucemia, que muitas vezes acabam sendo
negligenciadas pelos pacientes.
"Estamos vivendo um momento em que as
pessoas normalizaram o esgotamento físico e mental. Isso faz com que sintomas
que merecem investigação médica sejam frequentemente ignorados. Quando o
cansaço se torna persistente ou vem acompanhado de outros sinais, como manchas
roxas no corpo, infecções frequentes, sangramentos ou perda de peso sem
explicação, é fundamental procurar avaliação médica", alerta o
hematologista.
Além da banalização dos sintomas, o
especialista observa que muitos pacientes demoram a procurar ajuda médica por
acreditarem que o cansaço é apenas consequência da rotina intensa.
"Com frequência recebemos pessoas que
passaram semanas ou até meses convivendo com fadiga, falta de disposição e
outros sintomas sem investigar a causa. Muitas só procuram atendimento quando
os sinais começam a interferir no trabalho, nos estudos ou nas atividades do
dia a dia", afirma.
Atenção aos sintomas
Segundo estimativas do Instituto Nacional
de Câncer (Inca), a leucemia ocupa a 13ª posição entre os tipos de câncer mais
incidentes no Brasil. Para o triênio 2026-2028, são estimados 12.220 novos
casos da doença por ano, sendo 6.540 em homens e 5.680 em mulheres.
Casos como o de Rodrigo Cristiano Machado,
de 53 anos, ajudam a ilustrar como os sintomas da leucemia podem ser
confundidos com problemas aparentemente comuns do dia a dia. Em 2012, ele
recebeu o diagnóstico da doença após perceber um cansaço incomum durante
atividades simples, como subir escadas.
“Dois meses antes de ser diagnosticado eu
havia corrido uma meia maratona e, de repente, eu não conseguia nem mais subir
um lance de escada que já sentia esse cansaço extremo e palpitações do
coração”, conta.
A mudança repentina chamou sua atenção,
mas, inicialmente, os sintomas foram associados a outras condições de saúde.
“Eu comecei a sentir essa fadiga excessiva, que não combinava comigo e com o
meu estilo de vida. Foi então que procurei uma médica generalista, que me pediu
novos exames de sangue, mas chegou a um ponto que ela me indicou para um médico
hematologista”, relembra.
Somente após exames laboratoriais
complementares e avaliação especializada foi possível confirmar o diagnóstico
de leucemia e iniciar o tratamento.
Sinais que merecem atenção
Entre os sintomas que podem indicar alterações importantes no sangue estão:
•
Fadiga intensa e persistente
•
Palidez
•
Tontura
• Falta
de ar
•
Sangramentos frequentes
•
Manchas roxas sem explicação
• Febre
recorrente
• Perda
de peso involuntária
• Infecções frequentes
“Essa sintomatologia já nos chama atenção
para a possibilidade de anemia ou leucemia, e muitos casos são identificados a
partir de exames simples, como o hemograma. Alterações nos glóbulos vermelhos,
brancos e nas plaquetas podem ser os primeiros sinais de alerta para uma
investigação mais aprofundada”, explica o especialista.
Anemia ou leucemia?
Embora possam apresentar sintomas
semelhantes, anemia e leucemia são doenças diferentes.
A anemia ocorre quando há redução da
hemoglobina ou dos glóbulos vermelhos, comprometendo o transporte de oxigênio
para os tecidos. Já a leucemia é um câncer que afeta a produção das células
sanguíneas na medula óssea.
"Na leucemia, além do cansaço, é comum
observar infecções recorrentes, febre persistente, sangramentos espontâneos,
aparecimento de manchas roxas pelo corpo e perda de peso sem explicação. Já na
anemia, os sintomas costumam estar mais relacionados à redução da oxigenação
dos tecidos, como fadiga, tontura e falta de ar aos esforços."
Em muitos casos, contudo, os sintomas
iniciais podem ser parecidos, dificultando diferenciar anemia e leucemia apenas
pelos sintomas.
Como é feito o diagnóstico
Segundo o médico, exames de sangue simples,
como o hemograma, costumam ser o primeiro passo para identificar alterações que
indiquem a necessidade de avaliação mais aprofundada.
"Quando há suspeita de doença
hematológica podemos recorrer a exames complementares capazes de analisar a
medula óssea e as características das células sanguíneas, permitindo
diferenciar condições benignas de doenças mais complexas, como as
leucemias", esclarece o hematologista Roberto Luiz Silva.
No IBCC Oncologia também são realizados
exames moleculares capazes de identificar mutações genéticas e alterações
cromossômicas relacionadas à doença. "Essas análises são fundamentais para
confirmar o diagnóstico, definir o prognóstico e acompanhar a resposta ao
tratamento com mais precisão", afirma.
Nem toda leucemia evolui da mesma forma
Existem diferentes tipos de leucemia, que
variam de acordo com as células afetadas e a velocidade de progressão da
doença. Algumas formas evoluem rapidamente e exigem tratamento imediato,
enquanto outras podem permanecer controladas por longos períodos com
acompanhamento especializado.
"As formas agudas costumam demandar
intervenção rápida devido à velocidade de evolução. Já as formas crônicas podem
apresentar progressão gradual e, em determinados casos, serem acompanhadas por
muitos anos com boa qualidade de vida", explica o especialista.
A trajetória de Rodrigo exemplifica essa
realidade. Diagnosticado em 2012, ele realizou um transplante de medula óssea
em 2013 e manteve acompanhamento contínuo ao longo dos anos. Após duas recaídas
e derivações da doença, em 2016 e 2025, foi submetido a um segundo transplante,
em novembro do ano passado, para tratar o sarcoma mieloide.
Mais de uma década após o diagnóstico,
Rodrigo leva uma rotina muito diferente daquela vivida durante o tratamento.
Referência no esporte para transplantados, conquistou sete títulos mundiais nos
World Transplant Games e coleciona dezenas de medalhas em competições nacionais
e internacionais de natação. Sua trajetória mostra que, com diagnóstico
adequado, tratamento especializado e acompanhamento contínuo, é possível não
apenas vencer a doença, mas também recuperar qualidade de vida e alcançar
conquistas que antes pareciam impossíveis.
Quem tem mais risco?
O risco de desenvolver leucemia aumenta com
a idade, embora alguns tipos sejam mais frequentes em crianças.
Entre os fatores associados à doença estão
tabagismo, exposição a determinadas substâncias químicas, síndromes genéticas e
histórico familiar, dependendo do tipo de leucemia.
Avanços que mudaram o tratamento
O tratamento da anemia depende da causa
identificada. Já na leucemia, a estratégia terapêutica varia conforme o tipo da
doença e as características do paciente, podendo incluir quimioterapia,
terapias-alvo, imunoterapia e transplante de medula óssea.
"A hematologia evoluiu muito nos
últimos anos. Hoje contamos com tratamentos cada vez mais personalizados,
capazes de aumentar significativamente as chances de controle da doença e
melhorar a qualidade de vida dos pacientes", afirma o hematologista.
O transplante de medula óssea continua
sendo uma ferramenta fundamental para alguns pacientes. Quando bem indicado,
pode representar uma chance real de cura.
É possível prevenir?
Nem todos os casos podem ser prevenidos. No caso da anemia,
alimentação equilibrada, acompanhamento médico regular e investigação de
sangramentos persistentes ajudam a reduzir riscos.
Já para a leucemia, ainda não existem medidas capazes de evitar completamente o surgimento da doença. Por isso, o diagnóstico precoce continua sendo um dos principais aliados para aumentar as chances de sucesso terapêutico.
"Muitas pessoas procuram atendimento apenas quando os sintomas já estão interferindo significativamente na rotina. Quanto mais cedo identificamos uma alteração hematológica, maiores são as possibilidades de tratamento e melhores tendem a ser os resultados", conclui o hematologista do IBCC Oncologia.
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| Rodrigo Cristiano Machado ao lado do sobrinho durante segundo transplante de medula óssea, no IBCC Oncologia |
Antes do primeiro diagnóstico, Rodrigo sentiu muito cansaço e segue em acompanhamento no hospital IBCC Oncologia

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