Hepatites B e C: o que a mulher precisa saber sobre os riscos à saúde reprodutiva e sistêmica
No mês dedicado à conscientização sobre as hepatites virais,
ginecologista alerta para impactos ainda pouco discutidos dessas infecções
sobre a fertilidade, a gravidez e a saúde íntima feminina
Julho é o mês dedicado à conscientização, prevenção, diagnóstico e tratamento das hepatites virais no Brasil. Entre os vários tipos, as hepatites B e C são as que mais preocupam do ponto de vista da saúde pública e também as que mais impactam, de forma específica e muitas vezes silenciosa, a saúde da mulher.
Transmitidas por fluidos corporais, essas infecções afetam diretamente a saúde reprodutiva e sistêmica feminina, com consequências que vão da fertilidade à gravidez, passando pela saúde hormonal e pelo planejamento familiar.
O alerta é do Dr. Alexandre Rossi, ginecologista responsável pelo Ambulatório de Ginecologia Geral do Hospital e Maternidade Leonor Mendes de Barros, em São Paulo, que chama atenção para uma lacuna ainda comum: a discussão sobre hepatites raramente chega à consulta ginecológica.
"A hepatite B e a hepatite C são
infecções que muitas mulheres sequer sabem que têm. Elas evoluem
silenciosamente por anos, enquanto fazem dano ao fígado e ao organismo como um
todo. Quando chegam à consulta ginecológica, seja para planejar uma gravidez, escolher
um método contraceptivo ou tratar uma queixa hormonal, esse histórico precisa
ser conhecido. O ginecologista tem papel fundamental nessa triagem”, explica o
especialista.
O cenário no Brasil: um problema maior do que parece
O Brasil distribui, anualmente, cerca de 14 milhões de testes rápidos para triagem de hepatite C e 10 milhões para a hepatite B pelo Ministério da Saúde, números que revelam a dimensão do desafio. A boa notícia é que houve avanços significativos na mortalidade: entre 2014 e 2024, a taxa de mortalidade pela hepatite B caiu 50% e pela hepatite C, 60%, segundo dados da OMS. A taxa de detecção da hepatite B no país também caiu, de 8,3 para 5,3 casos por 100 mil habitantes no mesmo período.
Mesmo assim, a OMS estabeleceu como meta
global a redução de 90% na incidência de hepatites B e C e de 65% na
mortalidade até 2030. O progresso ainda é lento e desigual. No Brasil, o
diagnóstico tardio segue sendo um dos maiores obstáculos: a maioria das pessoas
infectadas não sabe que carrega o vírus.
Hepatite B: transmissão sexual, risco
gestacional e vacina que salva
A hepatite B é transmitida por contato com sangue, relações sexuais desprotegidas e, de forma especialmente relevante para a saúde da mulher, por transmissão vertical, ou seja, da mãe para o filho durante a gravidez, o parto ou a amamentação. Esse último dado é particularmente importante: o Brasil tem sido reconhecido internacionalmente por seus avanços na eliminação da transmissão vertical da hepatite B, mas o risco persiste onde a vacinação e o pré-natal não chegam adequadamente.
Conforme orienta o Dr. Alexandre, gestantes que não conseguem comprovar imunização prévia devem ser vacinadas. A vacina contra hepatite B é gratuita no SUS, segura na gravidez e integra o calendário nacional de vacinação desde o nascimento. Em mulheres infectadas, o acompanhamento é essencial para reduzir o risco de transmissão ao recém-nascido.
"Toda mulher em idade reprodutiva
deveria saber o seu status vacinal para hepatite B. É uma informação que
pedimos na consulta ginecológica de rotina e que faz diferença real no
planejamento familiar e na segurança de uma futura gravidez”.
Hepatite C: sem vacina, mas com cura
Ao contrário da hepatite B, a hepatite C ainda não tem vacina disponível. Sua principal via de transmissão é o contato com sangue contaminado, mas a transmissão sexual também é possível, especialmente em relações com microlesões. A boa notícia é que, hoje, a hepatite C tem cura: os antivirais de ação direta (AADs) alcançam taxas de cura superiores a 95% em poucas semanas de tratamento e estão disponíveis gratuitamente pelo SUS.
O que ainda é pouco discutido é o impacto da hepatite C crônica sobre a saúde sistêmica da mulher. A infecção prolongada pelo vírus pode comprometer a função hepática, que é responsável pelo metabolismo dos hormônios sexuais. Alterações no ciclo menstrual, disfunções hepáticas que dificultam o uso de certos métodos contraceptivos hormonais e maior vulnerabilidade a complicações na gravidez são consequências que merecem atenção especializada.
"A mulher com hepatite C crônica pode
ter dificuldades que vão muito além do fígado. A saúde hepática também pode
interferir no metabolismo. Por isso, quando uma paciente chega com queixas
menstruais ou dificuldade para engravidar, é fundamental investigar o histórico
completo, incluindo infecções que ela pode nem saber que tem”.
Triagem, orientação e encaminhamento
O Dr. Alexandre defende que a consulta ginecológica seja um ponto de triagem ativo para as hepatites B e C, especialmente em mulheres em idade reprodutiva, que planejam gravidez ou que apresentam fatores de risco.
Segundo as diretrizes do Ministério da Saúde, os exames para hepatite B e C integram o painel de solicitações do pré-natal de risco, junto com sífilis e HIV. Mas o ginecologista pode e deve ampliar essa triagem para além da gravidez, especialmente em pacientes com histórico de relações desprotegidas, procedimentos invasivos ou uso de medicamentos hepáticamente metabolizados.
"Julho Amarelo é uma oportunidade de
falar sobre algo que ainda não chegou à consciência da maioria das mulheres: as
hepatites B e C afetam diretamente a saúde reprodutiva. Prevenir, testar e
tratar fazem parte do cuidado ginecológico integral."
Nenhum comentário:
Postar um comentário