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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Muito além do placar: grandes eventos esportivos impactam o cérebro dos torcedores, indica neurologista do Hospital Moinhos de Vento

 

Evidências científicas apontam que a paixão pelo futebol ativa o sistema de recompensa cerebral, gera memórias e pode ser usada como ferramenta clínica no diagnóstico de demências como o Alzheimer 

 

Quando acontecem competições de grande magnitude, como a Copa do Mundo, o impacto no cérebro dos torcedores vai muito além do entretenimento passageiro ou da simples recordação de resultados. De acordo com o Dr. Wyllians Borelli, neurologista e pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, eventos esportivos globais atuam como poderosos catalisadores neurocognitivos. O futebol ativa vias emocionais, de recompensa e de identidade social que beneficiam desde a formação de memórias permanentes até o apoio no tratamento de pacientes com quadros neurodegenerativos, como a doença de Alzheimer. 

Com base em evidências recentes de neuroimagem e psicologia cognitiva, a literatura científica demonstra que a alta intensidade emocional e o senso de antecipação gerados por grandes jogos ativam a amígdala cerebral, que, por sua vez, modula o hipocampo, a área da memória. “O cérebro do torcedor trabalha de forma fascinante durante um grande evento esportivo. Quando ficamos ansiosos por um jogo importante e vivenciamos um desfecho positivo, há uma intensa liberação de dopamina e uma forte ativação do hipocampo, o centro de processamento de informações do cérebro. Esse processo cria memórias associadas a emoções – recordações tão vívidas que, décadas depois, ainda sabemos exatamente o contexto, os cheiros e as companhias ao nosso redor durante um gol decisivo ou uma vitória importante para o nosso time", explica o Dr. Borelli. 

Além disso, o cérebro de um torcedor não é um processador passivo. Estímulos visuais de vitórias e gols ativam intensamente o giro do cíngulo (parte do cérebro responsável pela regulação emocional e o processamento cognitivo) e a área tegmental ventral, relacionada ao circuito de recompensa, prazer e motivação. No fim, o processo de torcer acaba sendo benéfico para os circuitos cerebrais. Curiosamente, para preservar a identidade emocional e o bem-estar da pessoa, o cérebro também tende a suprimir conteúdos negativos dessas lembranças ao longo do tempo. 

Do ponto de vista social e preventivo, o engajamento em eventos como a Copa do Mundo também contribuem para a nossa reserva cognitiva – a “poupança cerebral”. O debate constante sobre táticas, escalações e o histórico das seleções, aliado ao pertencimento a uma comunidade, consolida as memórias individuais. O envolvimento intelectual e as interações sociais geradas por esse fenômeno são pilares comprovados cientificamente na construção da reserva cognitiva ao longo da vida. Graças à reserva cognitiva, temos mais recursos neurais e neuroproteção, ajudando a proteger o cérebro contra o declínio natural da idade. 

Contudo, um dos desdobramentos mais fascinantes dessa paixão mundial encontra-se na prática clínica. “Como o interesse pelo futebol geralmente se consolida na juventude, essas memórias tornam-se profundamente enraizadas e resistentes à degradação observada em casos de demência. A utilização de vídeos ou áudios de partidas históricas atua como uma chave na Terapia de Reminiscência, reativando redes neurais adormecidas em pacientes com Alzheimer. O resultado é a melhora momentânea da fluência verbal e uma redução da apatia e do isolamento social”, aponta o pesquisador.

  


Hospital Moinhos de Vento
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Referências

1 - BOTZUNG, A. et al. Component neural systems for the creation of emotional memories during free viewing of a complex, real-world event. Frontiers in Human Neuroscience, 2010.

2 - CAYOLLA, R. et al. The neural bases of sport fan reactions to teams: Evidence from a neuroimaging study. Journal of Consumer Behaviour, 2024.

3 - MERCK, C. et al. Remembering the big game: social identity and memory for media events. Memory, v. 28, n. 6, p. 795-814, 2020.

4 - RIBEIRO, A. et al. Memory footprint: Predictors of flashbulb and event memories of the 2016 Euro Cup final. Frontiers in Psychology, v. 14, 2023.

5 - WOODS, B. et al. Reminiscence therapy for dementia. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2005 (e atualizações posteriores).

6 - BRASIL. Ministério da Saúde. Doença de Alzheimer. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em:Link. Acesso em: 26 jun. 2026.

 

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