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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Quais os riscos e como empresas atuam para proteger dados sensíveis de estudantes no Brasil

Adoção de plataformas de gestão acadêmica seguras se torna essencial para reduzir vulnerabilidades e garantir a integridade dessas informações

 

A crescente digitalização do ensino tem ampliado a necessidade de segurança e proteção de dados no ambiente educacional. Informações de estudantes, professores e responsáveis circulam diariamente entre sistemas e processos administrativos, tornando instituições de ensino alvos frequentes de ataques cibernéticos. Nesse cenário, a adoção de plataformas de gestão acadêmica seguras surge como um passo essencial para reduzir vulnerabilidades e garantir a integridade dessas informações. 

Atualmente, já há soluções que atuam na centralização e no controle dos dados, enfrentando um dos principais riscos do setor: a dispersão de informações em planilhas e documentos físicos. Exemplo disso é o Gennera One, aplicativo da Gennera, empresa especializada em gestão educacional para ensino básico e superior. A ferramenta tem controle de acesso granular, garantindo que cada colaborador visualize apenas o necessário para sua função, além de contar com infraestrutura em nuvem de alta segurança, com criptografia e backups automáticos. 

De acordo com Gabriel Barreto, vice-presidente da Gennera, a proteção de dados no ambiente educacional passa necessariamente pela organização das informações. 

“O maior risco hoje não está apenas em ataques externos, mas na forma como os dados são armazenados e compartilhados internamente. Centralizar e controlar o acesso é o primeiro passo para reduzir vulnerabilidades reais nas instituições”, afirma. 

Entre os dados mais visados por criminosos estão os chamados “combos completos” de identidade, que incluem informações cadastrais como CPF e RG, dados sensíveis como endereços e rotinas, além de informações financeiras de responsáveis, incluindo cartões de crédito utilizados no pagamento de mensalidades. Segundo Gabriel, esse conjunto de dados é altamente valioso e pode ser explorado em fraudes diversas, especialmente envolvendo menores de idade. 

Em casos de vazamento, conforme ele, os impactos vão além do ambiente digital. No aspecto operacional, ataques como ransomware podem paralisar atividades essenciais, como matrícula e lançamento de notas. Financeiramente, as instituições enfrentam multas, custos com perícia e, principalmente, perda de alunos devido à quebra de confiança. Já no campo legal, processos judiciais e sanções administrativas previstas na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ampliam ainda mais os prejuízos. 

A LGPD, inclusive, exige que escolas e universidades adotem critérios rigorosos na coleta, uso e armazenamento das informações. Isso inclui limitar a coleta ao mínimo necessário, garantir base legal para cada dado, dar atenção especial a dados de menores e assegurar que os titulares possam acessar ou solicitar a exclusão de suas informações dentro dos prazos legais. 

Gabriel ainda destaca que para fortalecer a segurança digital sem comprometer a rotina pedagógica, a centralização em plataformas seguras se torna prioridade, aliada à gestão rigorosa de acessos e à capacitação das equipes. 

“A segurança não pode depender apenas de processos manuais ou da atenção individual. É preciso investir em tecnologia adequada e na conscientização das equipes, transformando cada colaborador em parte ativa na proteção dos dados”, finaliza.
 

Fragilidade na estrutura do processo

Com a digitalização das rotinas administrativas, escolas e universidades passaram a concentrar grandes volumes de dados sensíveis em ambientes digitais, desde documentos de matrícula a informações financeiras e registros acadêmicos. Embora o foco esteja muitas vezes na experiência do aluno e na agilidade do processo, a segurança dessas informações ainda é tratada como etapa secundária em parte das instituições. 

Para Carlos Tatara, CTO da Bry, empresa referência nacional em tecnologia de identificação digital do grupo Certifica&Co, a fragilidade costuma estar na estrutura do processo. “Digitalizar não é apenas substituir o papel pelo PDF. É necessário garantir autenticidade, integridade e rastreabilidade em todas as etapas”, afirma. 

O período de maior demanda para soluções de contratos e assinaturas digitais acontece entre agosto e o fim do ano, quando as instituições concentram matrículas para o ano letivo seguinte. O aumento do volume transacional costuma pressionar ainda mais esses sistemas e exige infraestrutura e mecanismos escaláveis de autenticação. “O setor educacional tem forte sazonalidade e grande volume de contratos em um curto espaço de tempo. Se a arquitetura não estiver preparada, falhas técnicas podem se transformar em brechas de segurança”, diz Tatara. 

Além da eficiência operacional, a adoção de contratos digitais contribui para a integridade e a rastreabilidade dos documentos escolares, que podem ser assinados com validade jurídica. “Instituições de ensino lidam com dados pessoais de menores, responsáveis e colaboradores. Tratar a segurança digital como prioridade é parte da estratégia de conformidade e reputação”, conclui o CTO.
 

A voz de quem precisou lidar com isto na prática

Para Marcos Gomes e Daniel Cadorin, sócios-fundadores da Dédalo, a segurança de dados não é um problema atual, mas que evoluiu com o tempo. “Trabalhamos em uma universidade estruturando a área de Segurança da Informação, até então desconhecida. Éramos apenas dois profissionais com perfil técnico focados no que era mais urgente: evitar que a rede caísse ou que alguém invadisse um servidor. A atuação era essencialmente operacional, voltada à infraestrutura, sem que o tema ainda fosse percebido como estratégico pela instituição”, relembra Marcos. 

“Antes havia resistência, não porque as pessoas eram contra segurança. Mas porque a segurança ainda não era percebida como um risco estratégico. Era vista como algo técnico demais”, ressalta. Segundo ele, como este processo leva tempo, ainda se faz necessário um trabalho constante de conscientização: mostrar exemplos reais de ataques a universidades, demonstrar o impacto reputacional e explicar que um incidente não afeta apenas servidores, afeta alunos, pesquisas, matrículas e credibilidade. 

Segundo um dos especialistas, um dos erros mais recorrentes das instituições é tratar a Lei Geral de Proteção de Dados como um projeto jurídico pontual, e não como uma transformação institucional. “Muitas universidades começam pela política de privacidade, pelos termos e pela documentação, o que é importante, mas isso é apenas a camada visível”, explica Daniel Cadorin. Sem controle efetivo de acesso, revisão de privilégios, monitoramento de logs, testes de backup e plano formal de resposta a incidentes, cria-se uma falsa sensação de conformidade. “LGPD não é papel assinado, é capacidade real de proteger dados. E isso envolve tecnologia, processos e, principalmente, cultura”, reforça. 

No ambiente universitário, naturalmente descentralizado, o equilíbrio entre liberdade acadêmica e segurança exige inteligência de risco. Ou seja, não se trata de bloquear tudo, mas de aplicar o princípio do menor privilégio, segmentar ambientes e investir continuamente em conscientização. “Liberdade e controle não são opostos, precisam coexistir. O que não pode existir é acesso irrestrito a tudo”, afirma Marcos. Para ele, o risco de enxergar a cibersegurança como custo é a paralisação institucional. “Um ataque pode interromper aulas, matrículas, pesquisas e afetar a reputação construída ao longo de anos. A pergunta hoje não é se a instituição será alvo, mas se estará preparada para detectar, conter e restaurar suas operações”.
 

Proteção de dados como pilar da gestão educacional

A proteção de dados de crianças e adolescentes tornou-se uma das principais responsabilidades das instituições de ensino diante do avanço das ameaças digitais. Além de gerenciar um grande volume de informações pessoais, acadêmicas e financeiras, escolas e universidades precisam enfrentar riscos que vão desde vazamentos e exploração comercial indevida até questões de segurança no ambiente digital, como o cyberbullying, o assédio e o racismo. 

“Crianças e adolescentes são grupos vulneráveis, e o vazamento de suas informações pode trazer consequências graves para o seu bem-estar emocional, físico e social. Garantir a segurança desses dados é preservar o direito do estudante de errar e aprender sem carregar um histórico que o prejudique no futuro”, afirma Ezequiel Garcia, diretor de Tecnologia e Inovação e Data Protection Officer (DPO) da Betha Sistemas. Segundo ele, a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não é apenas uma obrigação legal, mas um fator essencial para manter a credibilidade junto às famílias. 

Mesmo diante de limitações orçamentárias, especialmente no setor público, é possível avançar por meio de mudanças culturais, governança estruturada e uso estratégico da tecnologia. A criação de comitês e o inventário de dados ajudam a instituição a entender não apenas como proteger, mas por que coleta cada informação, garantindo que o tratamento de dados ocorra sempre no melhor interesse do menor. 

A capacitação contínua de professores, alunos e famílias reduz vulnerabilidades como phishing e o uso de redes Wi-Fi desprotegidas. Afinal, a cibersegurança é uma responsabilidade compartilhada entre a escola e a comunidade. Medidas técnicas como autenticação em dois fatores, criptografia, backups regulares e anonimização fortalecem essa barreira de proteção. “A governança de dados é o pilar central para que a LGPD seja cumprida de forma prática. Não se trata de proibir o uso de dados, mas de garantir que eles sejam utilizados com ética, transparência e foco na melhoria do ensino”, destaca Garcia. 

O cenário atual exige sistemas que já nasçam com o Privacy by Design (onde a privacidade é a premissa desde a concepção do software), garantindo segurança nativa. Para os próximos anos, a tendência é o aprofundamento da inteligência de dados para análises preditivas com um rigor ainda maior em ética e transparência algorítmica, consolidando a segurança da informação como uma estratégia permanente e inegociável de gestão educacional.
 

Dados roubados podem ser usados mais de uma única vez 

As instituições de ensino passaram a concentrar um ativo altamente valioso com a digitalização do setor: grandes bases de dados organizadas de alunos, incluindo menores de idade, atualizadas e interligadas a sistemas financeiros, acadêmicos e administrativos, o que amplia o potencial de impacto de golpes. “Estamos falando de ambientes com milhares de registros estruturados, históricos completos e informações que permitem mapear a vida acadêmica e financeira dos estudantes. Isso torna o ambiente bastante frutífero para ataques. Para um criminoso, é um alvo com alto valor agregado”, explica Henrique Arcoverde, Chief Technology Officer (CTO) da Tempest Security Intelligence, empresa referência em cibersegurança no Brasil. 

Quando um incidente ocorre, o problema não se restringe à interrupção das aulas ou à indisponibilidade de plataformas, mas sim na exposição ou no sequestro de dados, que pode desencadear ataques secundários. Informações acadêmicas, laudos médicos, registros disciplinares e dados financeiros podem ser utilizados para campanhas de phishing direcionadas ou extorsões. “O adversário pode usar os dados roubados para se passar pela própria instituição e tentar extrair recursos financeiros ou informações adicionais das vítimas”, afirma Arcoverde. “O dado roubado raramente é usado uma única vez. Ele pode alimentar novas tentativas de fraude, engenharia social ou extorsão”. 

A recomendação é que as instituições adotem os mesmos padrões rigorosos de governança e proteção exigidos em outros segmentos críticos. Entre as medidas prioritárias, estão a autenticação multifator para contas institucionais, ferramentas de detecção e resposta instaladas nos dispositivos da organização, análise do tráfego de rede e integração com serviços de inteligência de ameaças.

“Garantir segurança absoluta não é possível, mas negligenciar o tema também não é opção. As regulações servem como um guia do que precisa ser feito. Além disso, campanhas de conscientização e simulações ajudam a reduzir o risco humano, que ainda é um dos principais vetores de ataque”, conclui Henrique.


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