Adoção de plataformas de gestão acadêmica seguras se torna essencial para reduzir vulnerabilidades e garantir a integridade dessas informações
A crescente digitalização do ensino tem ampliado a necessidade de
segurança e proteção de dados no ambiente educacional. Informações de
estudantes, professores e responsáveis circulam diariamente entre sistemas e
processos administrativos, tornando instituições de ensino alvos frequentes de
ataques cibernéticos. Nesse cenário, a adoção de plataformas de gestão
acadêmica seguras surge como um passo essencial para reduzir vulnerabilidades e
garantir a integridade dessas informações.
Atualmente, já há soluções que atuam na centralização e no
controle dos dados, enfrentando um dos principais riscos do setor: a dispersão
de informações em planilhas e documentos físicos. Exemplo disso é o Gennera
One, aplicativo da Gennera, empresa especializada em gestão educacional para
ensino básico e superior. A ferramenta tem controle de acesso granular,
garantindo que cada colaborador visualize apenas o necessário para sua função,
além de contar com infraestrutura em nuvem de alta segurança, com criptografia
e backups automáticos.
De acordo com Gabriel Barreto, vice-presidente da Gennera, a
proteção de dados no ambiente educacional passa necessariamente pela
organização das informações.
“O maior risco hoje não está apenas em ataques externos, mas na
forma como os dados são armazenados e compartilhados internamente. Centralizar
e controlar o acesso é o primeiro passo para reduzir vulnerabilidades reais nas
instituições”, afirma.
Entre os dados mais visados por criminosos estão os chamados
“combos completos” de identidade, que incluem informações cadastrais como CPF e
RG, dados sensíveis como endereços e rotinas, além de informações financeiras
de responsáveis, incluindo cartões de crédito utilizados no pagamento de
mensalidades. Segundo Gabriel, esse conjunto de dados é altamente valioso e
pode ser explorado em fraudes diversas, especialmente envolvendo menores de
idade.
Em casos de vazamento, conforme ele, os impactos vão além do
ambiente digital. No aspecto operacional, ataques como ransomware podem
paralisar atividades essenciais, como matrícula e lançamento de notas.
Financeiramente, as instituições enfrentam multas, custos com perícia e,
principalmente, perda de alunos devido à quebra de confiança. Já no campo
legal, processos judiciais e sanções administrativas previstas na Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD) ampliam ainda mais os prejuízos.
A LGPD, inclusive, exige que escolas e universidades adotem
critérios rigorosos na coleta, uso e armazenamento das informações. Isso inclui
limitar a coleta ao mínimo necessário, garantir base legal para cada dado, dar
atenção especial a dados de menores e assegurar que os titulares possam acessar
ou solicitar a exclusão de suas informações dentro dos prazos legais.
Gabriel ainda destaca que para fortalecer a segurança digital sem
comprometer a rotina pedagógica, a centralização em plataformas seguras se
torna prioridade, aliada à gestão rigorosa de acessos e à capacitação das
equipes.
“A segurança não pode depender apenas de processos manuais ou da
atenção individual. É preciso investir em tecnologia adequada e na
conscientização das equipes, transformando cada colaborador em parte ativa na
proteção dos dados”, finaliza.
Fragilidade na estrutura do processo
Com a digitalização das rotinas administrativas, escolas e
universidades passaram a concentrar grandes volumes de dados sensíveis em
ambientes digitais, desde documentos de matrícula a informações financeiras e
registros acadêmicos. Embora o foco esteja muitas vezes na experiência do aluno
e na agilidade do processo, a segurança dessas informações ainda é tratada como
etapa secundária em parte das instituições.
Para Carlos Tatara, CTO da Bry, empresa referência nacional em tecnologia de identificação digital do grupo Certifica&Co, a fragilidade costuma estar na estrutura do processo. “Digitalizar não é apenas substituir o papel pelo PDF. É necessário garantir autenticidade, integridade e rastreabilidade em todas as etapas”, afirma.
O período de maior demanda para soluções de contratos e assinaturas
digitais acontece entre agosto e o fim do ano, quando as instituições
concentram matrículas para o ano letivo seguinte. O aumento do volume
transacional costuma pressionar ainda mais esses sistemas e exige
infraestrutura e mecanismos escaláveis de autenticação. “O setor educacional
tem forte sazonalidade e grande volume de contratos em um curto espaço de
tempo. Se a arquitetura não estiver preparada, falhas técnicas podem se
transformar em brechas de segurança”, diz Tatara.
Além da eficiência operacional, a adoção de contratos digitais
contribui para a integridade e a rastreabilidade dos documentos escolares, que
podem ser assinados com validade jurídica. “Instituições de ensino lidam com
dados pessoais de menores, responsáveis e colaboradores. Tratar a segurança
digital como prioridade é parte da estratégia de conformidade e reputação”,
conclui o CTO.
A voz de quem precisou lidar com isto na prática
Para Marcos Gomes e Daniel Cadorin, sócios-fundadores da Dédalo, a
segurança de dados não é um problema atual, mas que evoluiu com o tempo.
“Trabalhamos em uma universidade estruturando a área de Segurança da
Informação, até então desconhecida. Éramos apenas dois profissionais com perfil
técnico focados no que era mais urgente: evitar que a rede caísse ou que alguém
invadisse um servidor. A atuação era essencialmente operacional, voltada à
infraestrutura, sem que o tema ainda fosse percebido como estratégico pela
instituição”, relembra Marcos.
“Antes havia resistência, não porque as pessoas eram contra
segurança. Mas porque a segurança ainda não era percebida como um risco
estratégico. Era vista como algo técnico demais”, ressalta. Segundo ele, como
este processo leva tempo, ainda se faz necessário um trabalho constante de
conscientização: mostrar exemplos reais de ataques a universidades, demonstrar
o impacto reputacional e explicar que um incidente não afeta apenas servidores,
afeta alunos, pesquisas, matrículas e credibilidade.
Segundo um dos especialistas, um dos erros mais recorrentes das
instituições é tratar a Lei Geral de Proteção de Dados como um projeto jurídico
pontual, e não como uma transformação institucional. “Muitas universidades
começam pela política de privacidade, pelos termos e pela documentação, o que é
importante, mas isso é apenas a camada visível”, explica Daniel Cadorin. Sem
controle efetivo de acesso, revisão de privilégios, monitoramento de logs,
testes de backup e plano formal de resposta a incidentes, cria-se uma falsa
sensação de conformidade. “LGPD não é papel assinado, é capacidade real de
proteger dados. E isso envolve tecnologia, processos e, principalmente,
cultura”, reforça.
No ambiente universitário, naturalmente descentralizado, o
equilíbrio entre liberdade acadêmica e segurança exige inteligência de risco.
Ou seja, não se trata de bloquear tudo, mas de aplicar o princípio do menor
privilégio, segmentar ambientes e investir continuamente em conscientização.
“Liberdade e controle não são opostos, precisam coexistir. O que não pode
existir é acesso irrestrito a tudo”, afirma Marcos. Para ele, o risco de
enxergar a cibersegurança como custo é a paralisação institucional. “Um ataque
pode interromper aulas, matrículas, pesquisas e afetar a reputação construída
ao longo de anos. A pergunta hoje não é se a instituição será alvo, mas se
estará preparada para detectar, conter e restaurar suas operações”.
Proteção de dados como pilar da gestão educacional
A proteção de dados de crianças e adolescentes tornou-se uma das principais responsabilidades das instituições de ensino diante do avanço das ameaças digitais. Além de gerenciar um grande volume de informações pessoais, acadêmicas e financeiras, escolas e universidades precisam enfrentar riscos que vão desde vazamentos e exploração comercial indevida até questões de segurança no ambiente digital, como o cyberbullying, o assédio e o racismo.
“Crianças e adolescentes são grupos vulneráveis, e o vazamento de suas informações pode trazer consequências graves para o seu bem-estar emocional, físico e social. Garantir a segurança desses dados é preservar o direito do estudante de errar e aprender sem carregar um histórico que o prejudique no futuro”, afirma Ezequiel Garcia, diretor de Tecnologia e Inovação e Data Protection Officer (DPO) da Betha Sistemas. Segundo ele, a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não é apenas uma obrigação legal, mas um fator essencial para manter a credibilidade junto às famílias.
Mesmo diante de limitações orçamentárias, especialmente no setor público, é possível avançar por meio de mudanças culturais, governança estruturada e uso estratégico da tecnologia. A criação de comitês e o inventário de dados ajudam a instituição a entender não apenas como proteger, mas por que coleta cada informação, garantindo que o tratamento de dados ocorra sempre no melhor interesse do menor.
A capacitação contínua de professores, alunos e famílias reduz
vulnerabilidades como phishing e o uso de redes Wi-Fi desprotegidas. Afinal, a
cibersegurança é uma responsabilidade compartilhada entre a escola e a
comunidade. Medidas técnicas como autenticação em dois fatores, criptografia,
backups regulares e anonimização fortalecem essa barreira de proteção. “A
governança de dados é o pilar central para que a LGPD seja cumprida de forma
prática. Não se trata de proibir o uso de dados, mas de garantir que eles sejam
utilizados com ética, transparência e foco na melhoria do ensino”, destaca
Garcia.
O cenário
atual exige sistemas que já nasçam com o Privacy by Design (onde a
privacidade é a premissa desde a concepção do software), garantindo segurança
nativa. Para os próximos anos, a tendência é o aprofundamento da inteligência
de dados para análises preditivas com um rigor ainda maior em ética e
transparência algorítmica, consolidando a segurança da informação como uma
estratégia permanente e inegociável de gestão educacional.
Dados roubados podem ser usados mais de uma única vez
As instituições de ensino passaram a concentrar um ativo altamente
valioso com a digitalização do setor: grandes bases de dados organizadas de
alunos, incluindo menores de idade, atualizadas e interligadas a sistemas
financeiros, acadêmicos e administrativos, o que amplia o potencial de impacto
de golpes. “Estamos falando de ambientes com milhares de registros
estruturados, históricos completos e informações que permitem mapear a vida
acadêmica e financeira dos estudantes. Isso torna o ambiente bastante frutífero
para ataques. Para um criminoso, é um alvo com alto valor agregado”, explica
Henrique Arcoverde, Chief Technology Officer (CTO) da Tempest Security
Intelligence, empresa referência em cibersegurança no Brasil.
Quando um incidente ocorre, o problema não se restringe à interrupção
das aulas ou à indisponibilidade de plataformas, mas sim na exposição ou no
sequestro de dados, que pode desencadear ataques secundários. Informações
acadêmicas, laudos médicos, registros disciplinares e dados financeiros podem
ser utilizados para campanhas de phishing direcionadas ou extorsões. “O
adversário pode usar os dados roubados para se passar pela própria instituição
e tentar extrair recursos financeiros ou informações adicionais das vítimas”,
afirma Arcoverde. “O dado roubado raramente é usado uma única vez. Ele pode
alimentar novas tentativas de fraude, engenharia social ou extorsão”.
A recomendação é que as instituições adotem os mesmos padrões
rigorosos de governança e proteção exigidos em outros segmentos críticos. Entre
as medidas prioritárias, estão a autenticação multifator para contas
institucionais, ferramentas de detecção e resposta instaladas nos dispositivos
da organização, análise do tráfego de rede e integração com serviços de
inteligência de ameaças.
“Garantir segurança absoluta não é possível, mas negligenciar o
tema também não é opção. As regulações servem como um guia do que precisa ser
feito. Além disso, campanhas de conscientização e simulações ajudam a reduzir o
risco humano, que ainda é um dos principais vetores de ataque”, conclui
Henrique.
Nenhum comentário:
Postar um comentário