Com crianças e adolescentes representando 25% das entradas de refugiados e migrantes no país, Aldeias Infantis SOS destaca a importância de fortalecer vínculos familiares e ampliar oportunidades de integração
Deixar para trás a própria casa, os laços
construídos ao longo da vida e a segurança do cotidiano é uma realidade
compartilhada por milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, esse cenário
tem ganhado relevância crescente nos últimos anos, especialmente em razão da
chegada de famílias venezuelanas em busca de proteção, estabilidade e
oportunidades para recomeçar. Neste Dia Mundial do Refugiado (20), a Aldeias Infantis
SOS, organização global que lidera o maior movimento
de cuidado do mundo, reforça a importância de garantir acolhimento humanizado e
proteção integral para que essas famílias possam reconstruir seus projetos de
vida com dignidade.
Dados do Comitê Nacional para os Refugiados
(Conare) mostram que o Brasil concedeu o reconhecimento da condição de
refugiado a cerca de 165 mil pessoas nos últimos cinco anos. Desse total,
aproximadamente 148 mil são de origem venezuelana, consolidando o grupo como o
principal contingente de refugiados acolhidos pelo país. Segundo o Alto
Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), o Brasil tem sido uma
importante rota de acolhimento para venezuelanos desde 2018.
O fenômeno migratório também tem impacto direto
sobre a infância. De acordo com dados do Sistema do Comitê Nacional para os
Refugiados (Sisconare) e do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra),
crianças e adolescentes representam 25% das entradas registradas no país,
percentual que corresponde a um crescimento de 286% em relação a 2017.
Para Michele Mansor, gerente de Desenvolvimento
Programático da Aldeias Infantis SOS, os números reforçam a necessidade de
olhar para o fenômeno não apenas como uma questão de crise migratória, mas
também como um tema relacionado à proteção de crianças, adolescentes e
famílias.
“Quando uma família é forçada a deixar seu país,
ela perde muito mais do que um endereço. Muitas vezes, perde redes de apoio,
referências culturais e condições básicas de estabilidade. Garantir
acolhimento, proteção e oportunidades de integração é fundamental para que
essas pessoas consigam reconstruir suas vidas em um novo lugar e oferecer um
futuro mais seguro para seus filhos”, afirma.
Essa realidade é vivida pela venezuelana Daniela
Alejandra Centino Marcano, 28, que chegou ao Brasil em busca de melhores
condições de vida para sua família. Mãe de uma criança que necessita de cuidados
médicos especializados, ela encontrou no país a possibilidade de buscar
tratamento para a filha e construir um futuro diferente para os filhos. Para tanto,
obteve todo o apoio necessário da Aldeias Infantis SOS.
“Meu sonho aqui no Brasil é que meus filhos tenham
uma vida melhor, uma casa para morar, boa alimentação, saúde e bem-estar. Na
Venezuela, a situação econômica era muito difícil e não conseguíamos suprir
todas as necessidades da família. Aqui encontramos todo o apoio de que
necessitávamos e a oportunidade de recomeçar”, relata.
Outra história de reconstrução é a da venezuelana
Karianyelis Karelis, 25. Após enfrentar incertezas e desafios durante sua
jornada migratória, ela passou a enxergar novas possibilidades para o futuro.
Hoje, sonha em abrir o próprio negócio na área da beleza e conquistar autonomia
financeira.
“Se você cai, você tem que se levantar e seguir em
frente, ser guerreira. Cheguei ao Brasil com muitos medos e dúvidas, mas
também com muitos sonhos. Quero construir minha própria história aqui, abrir
meu negócio e ajudar outras pessoas no futuro, da mesma forma que a Aldeias
Infantis SOS me ajudou”, conta.
As duas famílias são acompanhadas pelo Brasil Sem
Fronteiras, ação da Aldeias Infantis SOS no Brasil que integra o Cuidados
Sem Fronteiras, programa regional da Organização que apoia
famílias refugiadas e migrantes não só em território brasileiro, como também no
Peru e na Colômbia. Por aqui, o programa já beneficiou mais de 5 mil pessoas
desde 2018, oferecendo suporte para acolhimento, fortalecimento familiar e
integração social.
Segundo Michele, iniciativas dessa natureza
desempenham papel fundamental na construção de trajetórias mais seguras para
famílias que chegam ao país em situação de vulnerabilidade.
“A proteção de um migrante não termina quando a
pessoa cruza uma fronteira. O verdadeiro desafio é garantir condições para que
ela possa reconstruir sua autonomia, fortalecer seus vínculos familiares e
desenvolver um sentimento de pertencimento à nova comunidade. Quando isso acontece,
não apenas as famílias são beneficiadas, mas toda a sociedade se fortalece”,
conclui.
www.aldeiasinfantis.org.br
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