
Caverna Furna Feia - Parque Nacional da Furna Feia -
Foto Daniel Menin
Iniciada no Rio Grande do Norte, iniciativa integra
ações do PAN Cavernas do Brasil
Com mais de 30 mil cavernas registradas e um potencial estimado que pode ultrapassar 300 mil, o Brasil enfrenta o desafio de conciliar o crescente interesse turístico em ambientes subterrâneos com a preservação de ecossistemas altamente sensíveis. Nesse contexto, pesquisas estão sendo conduzidas para testar metodologias de avaliação dos impactos da visitação sobre a fauna de cavernas.
O trabalho foi iniciado no Parque Nacional da Furna Feia (RN) e integra o Plano
de Ação Nacional para a Conservação do Patrimônio Espeleológico (PAN Cavernas
do Brasil). O objetivo é subsidiar a definição de áreas que poderão ser abertas
ou restritas à visitação, contribuindo para conciliar o uso público com a
conservação sustentável das cavernas turísticas. A iniciativa pode apoiar
políticas públicas e estratégias de gestão em diferentes regiões do país.
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| Coleta de invertebrados na caverna Furna Feia - Parque Nacional da Furna Feia (RN) Foto Diego Bento |
Um dos diferenciais do estudo é a realização de simulações de visitação antes da abertura oficial ao turismo, abordagem ainda pouco frequente no Brasil. Os resultados devem contribuir para definir parâmetros mais seguros para o manejo dessas áreas desde o início das atividades.
Os estudos também serão aplicados em Minas Gerais, estado que concentra o maior número de cavernas do país, e incluem análises comparativas com cavernas que ainda não recebem visitantes. Para isso, atividades de visitação são simuladas em campo, com avaliação direta dos impactos gerados sobre o ambiente e a fauna.
Segundo o professor e pesquisador do Centro de Estudos em Biologia Subterrânea
da Universidade Federal de Lavras (CEBS/UFLA) e articulador da ação no PAN
Cavernas do Brasil, Marconi Sousa Silva, alterações e usos antrópicos
frequentes sem planejamento adequado podem comprometer gravemente esses
ambientes.
“As
alterações e usos antrópicos frequentes sem o devido plano de manejo em
cavernas podem causar um desequilíbrio irreversível. Estudos realizados no
Brasil e no exterior já identificaram mudanças na temperatura, na umidade e na
concentração de CO₂, além de impactos como pisoteio e compactação de
sedimentos”, afirmou.
De
acordo com o pesquisador, essas alterações geram estresse na fauna cavernícola,
especialmente em invertebrados troglóbios, que dependem exclusivamente desse
ambiente. Outro impacto importante é a introdução de matéria orgânica externa,
favorecendo a proliferação de fungos e biofilmes associados à iluminação
artificial, que podem danificar espeleotemas — formações naturais que levam
dezenas ou até centenas de anos para se formar.
Sobre a metodologia
As
metodologias utilizadas combinam análises biológicas com monitoramento
ambiental. Entre os principais parâmetros avaliados estão concentração de CO₂,
temperatura e umidade, indicadores sensíveis à presença humana e fundamentais
para detectar alterações no microclima das cavernas.
“Esses
dados podem ser obtidos por meio de sensores automáticos, registradores
contínuos ou medições pontuais realizadas durante as campanhas de campo”,
explicou Marconi.
Além
disso, são aplicadas técnicas padronizadas de amostragem da fauna, com análise
da diversidade de espécies e caracterização dos microhabitats. Essas
informações permitem identificar mudanças na composição biológica ao longo do
tempo e detectar possíveis impactos da visitação.
Outro
ponto avaliado é a estrutura dos microhabitats no piso das cavernas,
especialmente a granulometria dos sedimentos, que pode influenciar a
intensidade dos impactos do pisoteamento, sobretudo sobre invertebrados de
baixa mobilidade.
O passo a passo da primeira expedição
De
forma experimental, os pesquisadores delimitaram pontos amostrais em áreas
visitáveis e em regiões adjacentes da caverna. Todos os pontos foram analisados
antes e após quatro dias de visitação simulada, com observação da riqueza e da
abundância de espécies de invertebrados, além da coleta de dados
microclimáticos e informações sobre microhabitats.
A
simulação envolveu cerca de 45 pessoas por dia, que percorreram toda a extensão
visitável da caverna. O experimento considerou um fluxo equivalente a até 90
visitantes, número próximo da capacidade máxima estimada para esse tipo de
ambiente.
“A
hipótese com que trabalhamos é que a visitação faça com que os animais se
desloquem das áreas visitadas para regiões não visitadas, mesmo que próximas.
Não esperamos redução da riqueza total, mas sim uma redistribuição da fauna”,
explicou o analista ambiental e coordenador da Base Avançada do ICMBio/Cecav no
Rio Grande do Norte, Diego Bento.
Segundo
ele, a iniciativa também busca verificar se os impactos observados permanecem
dentro de níveis considerados aceitáveis para a conservação.
“A
Furna Feia é uma caverna que ainda não recebe visitação. Isso nos permite realizar
o estudo antes da chegada dos turistas. Em muitos casos, a visitação começa
antes das pesquisas que orientam o manejo”, destacou.
Hotspots da biodiversidade subterrânea
O
Parque Nacional da Furna Feia e a região dos municípios de Felipe Guerra e
Governador Dix-Sept Rosado vêm sendo estudados há cerca de 20 anos e são
considerados áreas de alta relevância científica.
Segundo
Diego Bento, a região abriga importantes hotspots de biodiversidade subterrânea
e concentra pesquisas conduzidas por instituições como a UFLA, o ICMBio/Cecav e
a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Do ponto de vista
bioespeleológico, é uma das áreas mais importantes da América do Sul.
Os
resultados das pesquisas em andamento devem contribuir para ampliar o conhecimento
sobre os impactos da visitação em cavernas e apoiar a definição de critérios
técnicos para o uso sustentável desses ambientes.
Sobre o PAN Cavernas do Brasil
O
PAN Cavernas do Brasil possui 44 ações, distribuídas em quatro objetivos
específicos, com o objetivo geral de prevenir, reduzir e mitigar impactos e
danos antrópicos sobre o patrimônio espeleológico brasileiro, suas espécies e
ambientes associados, no prazo de cinco anos.
O
plano contempla ainda 168 táxons nacionalmente ameaçados de extinção e
estabelece diretrizes como objetivos específicos, prazos de execução, formas de
implementação, além de mecanismos de supervisão e revisão.

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