Prática pode
sabotar ganhos e aumentar o risco de lesões, especialmente em iniciantes
O chamado ‘treino até a falha’, popularizado pelo
universo das redes sociais como sinônimo de intensidade máxima e resultado
rápido, não é indicado para todos de acordo com as evidências científicas.
Caracterizado pela execução de repetições até o ponto em que o músculo não
consegue completar mais uma com boa técnica, o treino até a falha leva o
praticante ao limite momentâneo da contração concêntrica. Isso significa o
momento em que ele já não consegue mais levantar o peso. Essa dinâmica exige
alta demanda do sistema nervoso central e controle técnico refinado, fatores
que levaram pesquisadores como os brasileiros Sanmy Nóbrega e Cleiton Libardi,
da Universidade Federal de São Carlos, a analisar criticamente seus reais
benefícios.
Depois de revisar uma série de estudos sobre a
metodologia, eles concluíram que treinar até a falha não só não oferece ganhos
superiores ao treino próximo da falha. A prática, segundo os pesquisadores,
também traz riscos relacionados a quadros de overreaching não funcional, que é
um estado de excesso de carga de treino em que há queda ou estagnação de
performance por várias semanas e com recuperação bem mais demorada, tornando-o
uma prática a ser usada com muita parcimônia e em contextos de alta especificidade.
Esse entendimento não se restringe ao universo
acadêmico e já faz parte do repertório de profissionais da saúde que atuam no
contato direto com seus pacientes e alunos. A fisioterapeuta clínica Aline
Leite acrescenta que treinar até a falha repetidamente gera uma sobrecarga no
sistema nervoso central, gerando uma sensação persistente de cansaço e
prejudicando a qualidade da execução dos exercícios, combinação que, com o
tempo, tende a comprometer a saúde musculoesquelética.
Sabendo disso, treinadores de algumas das
principais redes fitness do Brasil, como Lucas Florêncio, da Smart Fit, têm
feito um esforço educacional para explicar aos praticantes de musculação que
uma série feita com técnica perfeita e 1 repetição em reserva é superior a uma
série ‘roubada’ até a falha.
“O ideal é trabalhar com Repetições em Reserva, já
que, com 1 a 2 repetições de reserva, consegue-se uma hipertrofia similar com
mais segurança e cerca de metade do tempo de recuperação”, afirma o
profissional.
O fato de a falha não ser indispensável para gerar
ganhos não significa que os especialistas desaconselhem a prática por completo.
Tanto Leite quanto Florêncio destacam que ela pode ser um recurso importante
para praticantes avançados em busca de quebrar platôs de estagnação ou
intensificar estímulos em fases específicas da periodização. Mesmo nesses
casos, porém, é preciso seguir algumas recomendações a fim de maximizar os
ganhos e minimizar riscos articulares e sobrecarga excessiva do sistema
nervoso.
Entre as variáveis mais importantes nesse sentido
estão a complexidade do exercício e a periodicidade de aplicação. No primeiro
aspecto, o treinador da Smart Fit recomenda que o método seja aplicado
preferencialmente em exercícios isolados, como rosca direta e cadeira flexora,
e evitado em trabalhos multiarticulares mais complexos, como agachamento livre
e levantamento terra. Em relação à periodicidade, o profissional defende o uso
esporádico da falha, como na última série de um grupamento muscular ou em
semanas específicas de intensificação antes de um período de recuperação.
“No caso dos iniciantes, o treino até a falha deve
ser evitado por completo. Um dos principais efeitos do treino até a falha é
reduzir a qualidade técnica do movimento e aumentar as compensações
biomecânicas, algo muito perigoso para um grupo que tem o refino motor como
prioridade no processo de aprendizado”, acrescentou Florêncio.
Lucas Florêncio dá dicas abaixo e no link de como a falha pode ser encaixada no treinamento com eficiência e estratégia:
Sugestão de Treino
Divisão: Push (Empurrar) -
Foco Peitoral e Deltoides
|
Exercício |
Séries x Reps |
RPE (Esforço) |
Observação Biomecânica |
|
Supino
reto com halter |
3 x 8-10 |
8/10 (2
RIR) |
Foco no alongamento
das fibras claviculares. |
|
Supino
maquina reto articulado |
3 x 6-8 |
8/10 (2
RIR) |
Controle a
fase excêntrica (3 segundos). |
|
Desenvolvimento
maquina aberto |
3 x 10-12 |
9/10 (1
RIR) |
Preservar
a estabilidade escapular. |
|
Elevação
lateral |
4 x 12-15 |
10/10 (FALHA) |
Exercício
isolado; seguro para atingir a falha na última série. |
|
Triceps
polia |
3 x 12-15 |
9/10 (1
RIR) |
Manter
cotovelos estáticos ao lado do tronco. |
Treino B: Pull (Puxar) –
Dorsais, Deltoide Posterior e Bíceps
|
Exercício |
Séries x Reps |
RPE (Esforço) |
Observação Biomecânica |
|
Puxada
maquina articulada |
3 x 8-10 |
8/10 (2
RIR) |
Foco na
depressão das escápulas; evite o balanço excessivo do tronco. |
|
Remada
curvada supinada barra |
3 x 8-10 |
8/10 (2
RIR) |
Manter o
torque de estabilização no core para proteger as vértebras lombares. |
|
Puxada
maquina articulada |
3 x 10-12 |
9/10 (1
RIR) |
Ênfase na
fase de alongamento (excêntrica) controlada. |
|
Crucifixo
maquina invertido |
3 x 12-15 |
10/10 (FALHA) |
Deltoide
posterior tolera bem a falha por ser um grupo pequeno. |
|
Rosca
alternada com halter |
3 x 10-12 |
9/10 (1
RIR) |
Evite a
flexão do ombro; mantenha o torque apenas no cotovelo. |
Treino C: Legs (Membros
Inferiores) – Completo
O treino de pernas é o que mais demanda do sistema
cardiovascular e nervoso. Falhar no Agachamento Livre é um risco biomecânico
desnecessário para a maioria dos alunos; por isso, a falha será reservada para
as máquinas.
|
Exercício |
Séries x Reps |
RPE (Esforço) |
Observação Biomecânica |
|
Agachamento
maquina articulada |
3 x 6-8 |
8/10 (2
RIR) |
Foco na
profundidade mantendo a neutralidade da pelve (evitar retroversão). |
|
Leg Press
Horizontal |
3 x 10-12 |
9/10 (1
RIR) |
Posicionamento
dos pés para otimizar o braço de momento no joelho (Quadríceps). |
|
Cadeira
Extensora |
3 x 12-15 |
10/10 (FALHA) |
Excelente
para falha concêntrica devido à estabilidade do tronco na cadeira. |
|
Cadeira
Flexora |
3 x 10-12 |
10/10 (FALHA) |
Isquiotibiais
respondem bem ao estresse metabólico terminal. |
|
Gêmeos em
pé |
4 x 20 x
25 |
10/10 (FALHA) |
Alta
tolerância ao lactato; pausa de 2s no alongamento máximo. |
Nenhum comentário:
Postar um comentário