“Dizer a um jovem da periferia que o
crime não compensa soa vazio quando ele pode apontar para bancos que
socializaram prejuízos bilionários sem que nenhum executivo fosse à
cadeia"
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Há uma pergunta que circula
silenciosamente nas mentes de milhões de jovens hoje, aparecendo inclusive nas
buscas do Google com frequência crescente: para que estudar? À
primeira vista parece preguiça ou imaturidade. Mas quando examinamos o contexto
em que essa pergunta surge, ela revela algo muito mais profundo — e muito mais
perturbador.
Vivemos um momento em que a
desconfiança nas instituições não é paranoia, é resposta racional a uma série
de traições documentadas. Os arquivos Epstein, agora parcialmente públicos,
sugerem que figuras de liderança global em política, finanças e entretenimento
participaram ou foram cúmplices silenciosos de crimes contra os mais
vulneráveis — protegidas durante anos pelos mesmos sistemas que deveriam
responsabilizá-las. No Brasil, o mecanismo é familiar, embora vista roupas
diferentes.
O caso do Banco Master ilustra
com precisão cirúrgica como o sistema funciona para quem tem acesso ao andar de
cima. Uma instituição que acumulou passivos bilionários vendendo CDBs a
investidores de varejo — muitos deles pequenos poupadores que acreditaram nas
promessas de rentabilidade — encontrou no Fundo Garantidor de Créditos e nas negociações
com o BRB uma tábua de salvação que dificilmente estaria disponível para um
devedor comum. A socialização dos riscos enquanto os lucros permanecem privados
não é anomalia do sistema financeiro brasileiro. É sua característica
estrutural mais duradoura. E os jovens, mesmo sem ler os relatórios do Banco
Central, percebem isso visceralmente quando veem seus pais trabalharem décadas
com fidelidade e ainda assim não conseguirem pagar moradia digna nas grandes
cidades.
Quando esse mesmo jovem olha
para o mercado de trabalho e constata que a inteligência artificial está
eliminando empregos em ritmo acelerado, que formados universitários acumulam
dívidas trabalhando em funções que não exigem seus diplomas, a pergunta
"para que estudar?" deixa de ser retórica. Ela se torna existencial.
contrato implícito que sustentou gerações — estude, obtenha credenciais, acesse oportunidades, construa uma vida estável — depende de uma crença de que as oportunidades ainda existem do outro lado. Quando esse contrato se mostra seletivo, válido principalmente para quem já nasceu com conexões e capital, a descrença não é fraqueza de caráter. É lucidez.
E é nesse vácuo de sentido que
o crime organizado encontra seu recrutamento mais eficaz. Não porque os jovens
brasileiros sejam moralmente inferiores às gerações anteriores, mas porque o
tráfico oferece o que a economia legítima cada vez menos proporciona aos que
nasceram sem rede de proteção: renda imediata, uma hierarquia clara para
escalar, prova visível de que o esforço produz resultado e — talvez o mais
sedutor de tudo — um sentido de pertencimento e identidade em comunidades onde
o Estado aparece principalmente sob a forma de violência policial.
Dizer a um jovem da periferia
que o crime não compensa soa vazio quando ele pode apontar para bancos que socializaram
prejuízos bilionários sem que nenhum executivo fosse à cadeia, para um sistema
político que atravessou escândalos sucessivos e se reconstituiu praticamente
intacto, para uma justiça que age com velocidades muito diferentes dependendo
do sobrenome do réu. A hipocrisia é visível. E os adultos que fingem que não é
perdem a credibilidade antes mesmo de terminar a frase, quando quase todos
souberam que Elon Musk disse recentemente que a IA está pronta para acabar com
a metade dos empregos.
O que resta então? Talvez a
única conversa honesta possível seja aquela que não promete um mundo justo —
porque ele não é — mas que distingue entre a raiva legítima diante da injustiça
e as escolhas que essa raiva pode inspirar. A blindagem estrutural que protegeu
executivos e políticos em escândalos sucessivos não está disponível no tráfico.
O que o crime organizado vende é a estética do poder — o dinheiro rápido, o
respeito imediato — sem nenhuma da proteção que mantém os verdadeiramente
poderosos relativamente intocáveis. Isso não é justiça. Mas é a realidade de
onde as paredes efetivamente estão.
A pergunta mais profunda,
porém, não é como convencer jovens a seguir um sistema em que não confiam. É
como reconstruir um mundo em que a confiança seja merecida. Enquanto bancos
sistemicamente importantes são resgatados e seus credores protegidos, enquanto
os arquivos continuam sendo abertos, revelando cumplicidades que atravessam
fronteiras e classes sociais, essa reconstrução parece distante. Mas reconhecer
honestamente o tamanho do problema é, pelo menos, um começo mais digno do que
continuar repetindo roteiros que ninguém mais acredita.
**As
opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e
não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**
Alfredo Behrens - Professor da FIA Business School
Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/o-mundo-que-herdamos

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