O Brasil vive um
momento de transformação profunda. Reformas legislativas, reestruturação do
sistema tributário e contábil, novas exigências de transparência, revisão de
incentivos, mudanças tecnológicas e um ambiente social cada vez mais atento às
decisões das instituições. Mas, há uma mudança ainda mais silenciosa
acontecendo: mulheres estão redesenhando a forma como a governança é exercida
no país.
Não é apenas sobre
ocupar cargos. É sobre mudar a maneira como se decide.Ao longo da vida, muitas
mulheres aprendem a administrar múltiplas realidades ao mesmo tempo. São
profissionais, são mães, são filhas que cuidam, são líderes de equipes, são o
ponto de equilíbrio de ambientes complexos. Organizam rotinas invisíveis,
antecipam problemas, mediam conflitos antes que eles se tornem crises.
Cuidar não é
apenas um gesto afetivo. É uma forma de governar. Isso, porque, quem cuida
aprende a prever riscos, a ouvir com atenção, a perceber o que não foi dito, a
agir com disciplina quando todos ao redor estão sob pressão. Essa experiência
forma uma inteligência relacional que hoje se tornou essencial para a
governança moderna.
E isso
inclui a governança tributária e contábil.
A recente
reconfiguração do sistema tributário brasileiro não trouxe apenas novas regras.
Trouxe novos processos, maior integração tecnológica, necessidade de controles
rigorosos e diálogo constante entre áreas técnicas e estratégicas. Tributação
deixou de ser um cálculo isolado no fim do mês. Tornou-se parte central da
estratégia das organizações.
Hoje, decisões
fiscais impactam fluxo de caixa, precificação, contratos, planejamento
societário, reputação e sustentabilidade das empresas. A contabilidade passou a
ser linguagem de responsabilidade, ponte entre norma e realidade econômica.
Nesse sentido, o
profissional que se destaca não é apenas aquele que domina a legislação, mas
aquele que consegue traduzir o impacto tributário em demonstração financeira,
em governança corporativa, em decisão consciente.E nesse espaço de integração,
método e disciplina, a presença feminina tem crescido com força.
Mulheres têm
conduzido implementações complexas, coordenado grupos técnicos, estruturado
processos de controle e fortalecido práticas de compliance. Não pelo desejo de
poder, mas pelo senso de responsabilidade. Porque alguém precisa organizar.
Porque alguém precisa sustentar e cuidar. Porque alguém precisa garantir que o
sistema funcione.
Recentemente, um
caso de enorme repercussão envolvendo o estupro de uma criança de 12 anos por
um adulto mobilizou o país e reacendeu um debate essencial sobre a forma como
decisões institucionais são tomadas. Não se trata de desqualificar homens.
Trata-se de reconhecer que a pluralidade de percepção importa.
A experiência
feminina, muitas vezes marcada pelo cuidado e pela proteção de vulneráveis,
amplia a capacidade institucional de perceber consequências humanas. Governança
não é apenas aplicar norma. É compreender impacto. Empresas, tribunais e órgãos
públicos que integram essa sensibilidade às suas decisões tornam-se mais
legítimos, mais responsáveis, mais próximos da sociedade que representam.
Há dois conceitos japoneses que ajudam a entender essa força silenciosa.
O primeiro é
kaizen, melhoria contínua. A disciplina de ajustar todos os dias, de revisar
processos, de aprimorar controles, de não esperar o erro para agir. Na
tributação e na contabilidade, isso é vital. Governança se constrói no detalhe,
na conciliação bem feita, na documentação organizada, no processo testado.
O segundo é
ikigai, propósito. O ponto de encontro entre aquilo que se ama, aquilo que se
faz bem, aquilo que o mundo precisa e aquilo pelo qual se é reconhecida. Muitas
mulheres chegam à liderança por propósito. Assumem responsabilidades porque
percebem que sua contribuição é necessária. Coordenam equipes, estruturam
controles, mediam conflitos, ensinam, formam novos profissionais.
Essa liderança é
firme, ainda que não seja ruidosa. É disciplinada, ainda que não seja
impositiva. É resiliente, porque nasce da experiência real de equilibrar
múltiplas dimensões da vida.O avanço feminino na governança brasileira não é
uma disputa. É um fortalecimento.
Instituições
complexas exigem diversidade de olhar. Ambientes regulatórios desafiadores
exigem responsabilidade ampliada. Empresas mais expostas exigem decisões mais
conscientes. Talvez, a maior transformação do Brasil contemporâneo não esteja
apenas nas reformas que alteram a letra da lei, mas na forma como essas leis
serão implementadas.
A governança do
futuro será mais integradora, mais preventiva, mais atenta ao impacto social
das decisões. E mulheres não estão apenas participando desse processo. Em um
país que celebra, no dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, é preciso
reconhecer que a contribuição feminina vai além da representatividade. Ela
redefine a qualidade das decisões que sustentam nossas instituições. E isso não
é simbólico. É estrutural.
Tatiana
Migiyama - professora de Gestão Tributária na FIPECAFI
FIPECAFI - referência nacional em Contabilidade, Finanças, Controladoria e Atuária
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