
Santiago Yahuarcani, El principio del conocimiento [O princípio do conhecimento], 2019.
Foto: Kevin Chávez
Exposição reúne 35 pinturas que celebram saberes ancestrais e denunciam a violência extrativista na Amazônia
O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand exibe, de 2 de abril a 2 de agosto, a primeira individual no Brasil de Santiago Yahuarcani (Pebas, Peru, 1960), artista que dá forma aos seres físicos e espirituais que compõem a identidade e a cultura do povo indígena Uitoto, localizado na região amazônica entre o sul da Colômbia e o norte do Peru. Yahuarcani entrelaça a cosmologia do seu povo com a denúncia da violência extrativista contra povos indígenas na Amazônia. Com curadoria de Amanda Carneiro, curadora, MASP, Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento abrange 35 obras que propõem uma imersão nos saberes, mitos e traumas uitotos.
A exposição é organizada em cinco núcleos: Pintura de sons, Tempo do choro de sangue, Mundos espirituais, Plantas sagradas e Guardiões da Amazônia. A pintura El principio del conocimiento [O princípio do conhecimento] (2019), que inspira o título da mostra, traz, em seu centro, uma folha de coca, que também é corpo com mãos. De sua boca emerge uma folha de tabaco. Esse trabalho materializa o mito de criação em que a entidade Buinaima (Deus) concede sabedoria ao povo por meio de duas plantas sagradas, a coca e o tabaco, que são usadas em rituais espirituais e medicinais para a comunicação com o divino.
Yahuarcani articula a riqueza da cosmologia uitoto com a memória ancestral profundamente marcada pela resistência e sobrevivência ao ciclo da borracha. Seu avô, Gregorio López, foi um dos sobreviventes do genocídio de Putumayo— ocorrido entre 1879 e 1912, quando a atuação de empresas extrativistas resultou no assassinato de cerca de 30 mil indígenas. “Yahuarcani usa a pintura como um meio de honrar sua ancestralidade e denunciar injustiças históricas. Mais do que habilidades práticas, ele herdou de seus antepassados e familiares um modo de ver o mundo — modo esse profundamente enraizado na preservação da memória indígena, na importância espiritual da natureza e no poder da contação de histórias”, afirma a curadora Amanda Carneiro.
Relatos da coerção, trabalho forçado e outras violências contra povos indígenas são o tema do segundo núcleo da exposição: Tempo do choro de sangue. A obra Lugar caliente [Lugar quente] (2023) expressa um desequilíbrio entre o espiritual e o humano. A pintura mostra figuras humanas de cabeça para baixo, pessoas sendo jogadas em uma fogueira e movimentos de perseguição. “O tempo da borracha foi o choro de sangue. É assim que nós, uitotos, chamamos esse período, porque foi muito cruel. Nós, descendentes, sentimos essa dor, pois foi a destruição da nossa cultura”, diz Yahuarcani.
A parte interna das cascas de árvores amazônicas é manuseada e transformada por Santiago em uma tela natural, chamada llanchama. Esse uso reforça a relação direta do artista com a floresta, que não é considerada uma fonte de recursos ou paisagem, mas uma entidade viva, guardiã de conhecimento e história.
Para os uitotos, não há fronteira entre o material e o invisível, entre o presente e a ancestralidade. A floresta, os rios e os seres humanos, assim como as existências espirituais e físicas, coexistem e não se separam da vida cotidiana. Os humanos podem se tornar animais ou plantas, os rios escutam e a terra responde. Uma profusão de figuras, muitas vezes híbridas e míticas, manifesta, nos trabalhos de Yahuarcani, essa maneira de viver, como em Buinaiño — Dueña del mijano [Buinaiño – Dona do mijano] (2025). Presente no núcleo Mundos espirituais, a obra inédita aprofunda a compreensão sobre as entidades que regem a vida na Amazônia. Dueñas e dueños [donas e donos] são autoridades espirituais que governam territórios e espécies, regendo os pactos de equilíbrio entre humanos e não humanos. A pintura destaca Buinaiño, a guardiã do mijano — o cardume migratório vital para a subsistência das comunidades ribeirinhas.
A exposição é organizada em parceria com The Whitworth
(Inglaterra), onde esteve em cartaz de julho de 2025 a janeiro de 2026, e com o
Museo Universitario del Chopo (México), que a receberá de outubro de 2026 a
março de 2027.
Santiago Yahuarcani: o princípio do
conhecimento
integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias latino-americanas.
A agenda do ano também inclui mostras de Claudia Alarcón & Silät, La Chola
Poblete, Sandra Gamarra Heshiki, Colectivo Acciones de Arte, Damián Ortega, Sol
Calero, Carolina Caycedo, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Manuel Herreros
e Mateo Manaure, Jesús Soto e uma exposição coletiva internacional.
SOBRE O ARTISTA
Pintor e escultor originário do povo indígena Uitoto, Santiago
Yahuarcani (Pebas, Peru, 1960) trabalha, principalmente, com pigmentos naturais
sobre llanchama. Constrói cenas povoadas por figuras híbridas que
transitam em campos cromáticos vibrantes que sugerem contínua transformação.
Com cores intensas, linhas sinuosas e inscrições em espanhol e em uitoto, cria
uma linguagem visual própria, na qual texto, imagem e cosmologia se articulam
para afirmar outras formas de narrar a história e o presente dos povos
indígenas na Amazônia. Participou da 60ª Bienal de Veneza (2024), 14ª Bienal do
Mercosul (2025) e 14ª Bienal de Gwangju (2023).
ACESSIBILIDADE
Todas as exposições temporárias do MASP possuem recursos de
acessibilidade, com entrada gratuita para pessoas com deficiência e seu
acompanhante. São oferecidas visitas em Libras ou descritivas, mediante
solicitação pelo e-mail acessibilidade@masp.org.br, além de textos e legendas em fonte
ampliada e conteúdos audiovisuais com audiodescrição, legendagem e
interpretação em Libras. Todos os materiais estão disponíveis no site e canal
do YouTube do museu e podem ser utilizados por pessoas com ou sem deficiência,
públicos escolares, professores, pessoas não alfabetizadas e interessadas em
geral, em visitas espontâneas ou acompanhadas pela equipe MASP.
CATÁLOGO
Será publicado um catálogo bilíngue, em inglês e português, reunindo
imagens e textos sobre a exposição. O livro tem organização editorial de Amanda
Carneiro, Darren Pih, diretor de exposições e acervo de Whitworth, e Miguel A.
López, curador-chefe do Museo Universitario del Chopo. Conta com textos de
Amanda Carneiro, Darren Pih, Miguel A. López e Pablo José Ramirez. A publicação
também contempla uma entrevista com Santiago Yahuarcani feita por seu filho e
artista Rember Yahuarcani.
LOJA MASP
Em diálogo com a exposição, a Loja MASP apresenta produtos
especiais de Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento, que
incluem cadernos, blocos, postais, ímãs e marca-páginas.
REALIZAÇÃO
Santiago Yahuarcani: o princípio do
conhecimento é
realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e PROAC-ICMS. Tem
patrocínio de City Brasil e apoio de Mattos Filho.
SERVIÇO
Santiago Yahuarcani: o princípio do
conhecimento
Curadoria: Amanda Carneiro, curadora, MASP
2.4 — 2.8.2026
Edifício Pietro Maria Bardi, 6º e 5º andar
MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo, SP 01310-200
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h);
quarta e quinta das 10h às 18h
(entrada até as 17h); sexta das 10h às 21h (entrada gratuita das
18h às 20h30); sábado e
domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas.
Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Ingressos: R$ 85 (entrada); R$ 42 (meia-entrada)
Site oficial
Facebook
X (ex-Twitter)
Instagram
Nenhum comentário:
Postar um comentário