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sexta-feira, 27 de março de 2026

MASP APRESENTA MOSTRA DE SANTIAGO YAHUARCANI SOBRE COSMOLOGIA UITOTO E OS IMPACTOS DO CICLO DA BORRACHA

  

Santiago Yahuarcani, El principio del conocimiento [O princípio do conhecimento], 2019.
Foto: Kevin Chávez

Exposição reúne 35 pinturas que celebram saberes ancestrais e denunciam a violência extrativista na Amazônia 

 

O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand exibe, de 2 de abril a 2 de agosto, a primeira individual no Brasil de Santiago Yahuarcani (Pebas, Peru, 1960), artista que dá forma aos seres físicos e espirituais que compõem a identidade e a cultura do povo indígena Uitoto, localizado na região amazônica entre o sul da Colômbia e o norte do Peru. Yahuarcani entrelaça a cosmologia do seu povo com a denúncia da violência extrativista contra povos indígenas na Amazônia. Com curadoria de Amanda Carneiro, curadora, MASP, Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento abrange 35 obras que propõem uma imersão nos saberes, mitos e traumas uitotos. 

A exposição é organizada em cinco núcleos: Pintura de sons, Tempo do choro de sangue, Mundos espirituais, Plantas sagradas e Guardiões da Amazônia. A pintura El principio del conocimiento [O princípio do conhecimento] (2019), que inspira o título da mostra, traz, em seu centro, uma folha de coca, que também é corpo com mãos. De sua boca emerge uma folha de tabaco. Esse trabalho materializa o mito de criação em que a entidade Buinaima (Deus) concede sabedoria ao povo por meio de duas plantas sagradas, a coca e o tabaco, que são usadas em rituais espirituais e medicinais para a comunicação com o divino. 

Yahuarcani articula a riqueza da cosmologia uitoto com a memória ancestral profundamente marcada pela resistência e sobrevivência ao ciclo da borracha. Seu avô, Gregorio López, foi um dos sobreviventes do genocídio de Putumayo— ocorrido entre 1879 e 1912, quando a atuação de empresas extrativistas resultou no assassinato de cerca de 30 mil indígenas. “Yahuarcani usa a pintura como um meio de honrar sua ancestralidade e denunciar injustiças históricas. Mais do que habilidades práticas, ele herdou de seus antepassados e familiares um modo de ver o mundo — modo esse profundamente enraizado na preservação da memória indígena, na importância espiritual da natureza e no poder da contação de histórias”, afirma a curadora Amanda Carneiro. 

Relatos da coerção, trabalho forçado e outras violências contra povos indígenas são o tema do segundo núcleo da exposição: Tempo do choro de sangue. A obra Lugar caliente [Lugar quente] (2023) expressa um desequilíbrio entre o espiritual e o humano. A pintura mostra figuras humanas de cabeça para baixo, pessoas sendo jogadas em uma fogueira e movimentos de perseguição. “O tempo da borracha foi o choro de sangue. É assim que nós, uitotos, chamamos esse período, porque foi muito cruel. Nós, descendentes, sentimos essa dor, pois foi a destruição da nossa cultura”, diz Yahuarcani. 

A parte interna das cascas de árvores amazônicas é manuseada e transformada por Santiago em uma tela natural, chamada llanchama. Esse uso reforça a relação direta do artista com a floresta, que não é considerada uma fonte de recursos ou paisagem, mas uma entidade viva, guardiã de conhecimento e história. 

Para os uitotos, não há fronteira entre o material e o invisível, entre o presente e a ancestralidade. A floresta, os rios e os seres humanos, assim como as existências espirituais e físicas, coexistem e não se separam da vida cotidiana. Os humanos podem se tornar animais ou plantas, os rios escutam e a terra responde. Uma profusão de figuras, muitas vezes híbridas e míticas, manifesta, nos trabalhos de Yahuarcani, essa maneira de viver, como em Buinaiño — Dueña del mijano [Buinaiño – Dona do mijano] (2025). Presente no núcleo Mundos espirituais, a obra inédita aprofunda a compreensão sobre as entidades que regem a vida na Amazônia. Dueñas e dueños [donas e donos] são autoridades espirituais que governam territórios e espécies, regendo os pactos de equilíbrio entre humanos e não humanos. A pintura destaca Buinaiño, a guardiã do mijano — o cardume migratório vital para a subsistência das comunidades ribeirinhas. 

A exposição é organizada em parceria com The Whitworth (Inglaterra), onde esteve em cartaz de julho de 2025 a janeiro de 2026, e com o Museo Universitario del Chopo (México), que a receberá de outubro de 2026 a março de 2027.

 

Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias latino-americanas. A agenda do ano também inclui mostras de Claudia Alarcón & Silät, La Chola Poblete, Sandra Gamarra Heshiki, Colectivo Acciones de Arte, Damián Ortega, Sol Calero, Carolina Caycedo, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Manuel Herreros e Mateo Manaure, Jesús Soto e uma exposição coletiva internacional.

 

SOBRE O ARTISTA

Pintor e escultor originário do povo indígena Uitoto, Santiago Yahuarcani (Pebas, Peru, 1960) trabalha, principalmente, com pigmentos naturais sobre llanchama. Constrói cenas povoadas por figuras híbridas que transitam em campos cromáticos vibrantes que sugerem contínua transformação. Com cores intensas, linhas sinuosas e inscrições em espanhol e em uitoto, cria uma linguagem visual própria, na qual texto, imagem e cosmologia se articulam para afirmar outras formas de narrar a história e o presente dos povos indígenas na Amazônia. Participou da 60ª Bienal de Veneza (2024), 14ª Bienal do Mercosul (2025) e 14ª Bienal de Gwangju (2023).


ACESSIBILIDADE

Todas as exposições temporárias do MASP possuem recursos de acessibilidade, com entrada gratuita para pessoas com deficiência e seu acompanhante. São oferecidas visitas em Libras ou descritivas, mediante solicitação pelo e-mail acessibilidade@masp.org.br, além de textos e legendas em fonte ampliada e conteúdos audiovisuais com audiodescrição, legendagem e interpretação em Libras. Todos os materiais estão disponíveis no site e canal do YouTube do museu e podem ser utilizados por pessoas com ou sem deficiência, públicos escolares, professores, pessoas não alfabetizadas e interessadas em geral, em visitas espontâneas ou acompanhadas pela equipe MASP.


CATÁLOGO

Será publicado um catálogo bilíngue, em inglês e português, reunindo imagens e textos sobre a exposição. O livro tem organização editorial de Amanda Carneiro, Darren Pih, diretor de exposições e acervo de Whitworth, e Miguel A. López, curador-chefe do Museo Universitario del Chopo. Conta com textos de Amanda Carneiro, Darren Pih, Miguel A. López e Pablo José Ramirez. A publicação também contempla uma entrevista com Santiago Yahuarcani feita por seu filho e artista Rember Yahuarcani.

 

LOJA MASP

Em diálogo com a exposição, a Loja MASP apresenta produtos especiais de Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento, que incluem cadernos, blocos, postais, ímãs e marca-páginas.

 

REALIZAÇÃO

Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento é realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e PROAC-ICMS. Tem patrocínio de City Brasil e apoio de Mattos Filho.


 

SERVIÇO

Santiago Yahuarcani: o princípio do conhecimento

Curadoria: Amanda Carneiro, curadora, MASP

 

2.4 — 2.8.2026

Edifício Pietro Maria Bardi, 6º e 5º andar

 

MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand

Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo, SP 01310-200

Telefone: (11) 3149-5959

Horários: terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta e quinta das 10h às 18h

(entrada até as 17h); sexta das 10h às 21h (entrada gratuita das 18h às 20h30); sábado e

domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas.

Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos 

Ingressos: R$ 85 (entrada); R$ 42 (meia-entrada) 

Site oficial
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