Na volta às aulas, especialistas defendem que limites só produzem efeitos quando acompanhados de mediação pedagógica e formação crítica para o uso da tecnologia
A retomada das aulas após o Carnaval recoloca em pauta um debate que marcou o último ano letivo: qual é o papel da escola diante da hiperconectividade infantil e adolescente? Após o primeiro ano de vigência da Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares em sala de aula, educadores avaliam que os efeitos mais consistentes não decorrem apenas da proibição, e sim da incorporação de práticas estruturadas de educação midiática.
Para especialistas, a restrição só se consolida quando integrada a um projeto pedagógico que estimule atenção, engajamento e convivência presencial, três dimensões que, segundo relatos, apresentaram melhora ao longo do último ano. Neste início do novo ciclo escolar, o desafio é transformar o limite em cultura institucional e formação crítica para o uso da tecnologia.
Paulo Henrique Lopes de Aquino, diretor corporativo de Educação da
Rede Santa Catarina, afirma que a restrição ao celular, por si só, não deve ser
entendida como solução isolada. Para ele, medidas exclusivamente proibitivas
tendem a ser pouco eficazes quando não conectadas a um projeto pedagógico.
Nesse sentido, a restrição funciona como um ponto de partida para
um processo que envolve mediação docente, educação midiática e diálogo com as
famílias. O gestor destaca que antes mesmo da lei, a instituição, que conta com
seis escolas distribuídas em cinco estados no Brasil, já desenvolvia políticas
voltadas à formação digital dos estudantes.
“Nosso objetivo nunca foi formar alunos que apenas obedecem
regras, mas jovens capazes de fazer escolhas conscientes. A lei ajudou a
fortalecer esse caminho, mas a emancipação digital acontece no cotidiano, na
sala de aula e nas relações pedagógicas, ao preservar o ambiente escolar como
espaço de foco, convivência e aprendizagem profunda”, completa.
Os colégios da Rede Santa Catarina seguem utilizando recursos
digitais de forma mediada e com intencionalidade pedagógica, por meio de
laboratórios, tablets e outras ferramentas educacionais. “O equilíbrio está em
ensinar que a tecnologia deve potencializar a inteligência humana, e não se
tornar um fim em si”, afirma o diretor.
Diálogo com as famílias
Para esclarecer esses pontos, o diálogo com as famílias se
intensificou no último ano. Encontros voltados à educação midiática, saúde
mental e aos riscos da exposição excessiva às telas ajudaram a reforçar que,
mais que uma regra, a restrição é parte de uma política de proteção à infância
e à adolescência, respaldada por evidências científicas.
“Limites geram liberdade. Ao limitarmos o acesso digital,
libertamos o estudante para explorar o mundo real. A escola precisa ser um
porto seguro frente à hiperestimulação digital, um espaço de resistência
humanista, onde a tecnologia esteja a serviço da pedagogia, e o estudante possa
estar plenamente presente”, pontua Aquino.
Rede Santa
Catarina
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