Edição 2026 do estudo ‘Por Elas Que Fazem a Música’ apresenta dados sobre a participação da mulher na indústria musical
Pesquisa realizada pela União
Brasileira de Compositores (UBC) revela que, em 2025, entre os 100 artistas com
maior rendimento, apenas 11 são mulheres
65% das mulheres afirmam já ter sido
alvo de assédio no ambiente profissional da música
A edição 2026 do estudo "Por
Elas Que Fazem a Música", lançado pela União
Brasileira de Compositores (UBC), apresenta um retrato contundente da
desigualdade de gênero na indústria musical. O levantamento revela que as
mulheres ainda recebem apenas 10% do total distribuído de
direitos autorais no país, um dado alarmante que expõe a estagnação na busca
por equidade no setor. Além da disparidade financeira, o estudo também aponta a
persistência da discriminação e do assédio, desafios que seguem limitando o
avanço feminino na música.
Os números relativos ao ano de 2025 reforçam essa desigualdade
estrutural. Entre os 100 maiores arrecadadores da UBC, apenas 11 são
mulheres, evidenciando a baixa representatividade feminina no
topo da cadeia de arrecadação. Em contrapartida, a melhor colocação feminina
avançou do 21º para o 16º lugar, indicando que, embora a presença ainda seja
pequena, as mulheres que chegam ao topo estão melhor posicionadas.
Ao analisar a distribuição de renda entre as mulheres por categoria, observa-se que as autoras se destacam, concentrando 73% do total recebido pelas mulheres na UBC. Em contrapartida, as versionistas e produtoras fonográficas registraram a menor participação, representando apenas 1% cada da arrecadação. Já as intérpretes corresponderam a 23% e as músicas executantes a 2%, demonstrando que, apesar de avanços em algumas frentes, a presença feminina ainda precisa ser fortalecida em diversas áreas do setor musical.
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| Distribuição de renda entre as mulheres na música - fonte: UBC |
Um dado que reafirma essa necessidade é o crescimento de 229%
no número de mulheres associadas à UBC desde a primeira edição do relatório, em
2017, um salto expressivo que reflete o interesse e a busca por reconhecimento
na indústria, mas que ainda não se traduz de maneira proporcional nos
rendimentos obtidos.
A distribuição regional das associadas da UBC mostra que o Sudeste, Nordeste e Sul continuam concentrando a maior parte das mulheres na música, somando juntas 88% do total. O Sudeste segue na liderança, enquanto o Norte registra a menor participação. Atualmente, 60% das associadas estão no Sudeste, 17% no Nordeste, 11% no Sul, 8% no Centro-Oeste e apenas 3% no Norte. A desigualdade geográfica reforça a importância de políticas e iniciativas que promovam uma distribuição mais equilibrada e incentivem mulheres de todas as regiões a ingressarem e prosperarem no setor musical.
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| Distribuição regional das mulheres na indústria da música - fonte: UBC |
O último ano também foi marcado por um aumento expressivo no
cadastro de obras e fonogramas com participação feminina. O número de
fonogramas registrados por produtoras fonográficas cresceu 13%,
enquanto o de obras cadastradas por autoras e versionistas teve um aumento de 12%,
sinalizando um avanço na presença das mulheres não apenas como intérpretes, mas
também nos bastidores da produção musical.
Quanto às fontes de arrecadação, os segmentos de Rádio e Show se
destacaram como os mais lucrativos para as mulheres, representando cada um 17%
da arrecadação total feminina. Em seguida, vem o crescimento do streaming de
música, com 11%, Já o Cinema ficou na outra ponta, com 0,5% da renda
total das mulheres no setor.
65% das mulheres afirmam já ter sido
alvo de assédio no mercado da música
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| Dois terços das mulheres no mercado da música já foram vítimas de assédio - fonte: UBC |
Para ampliar o retrato traçado pelos dados do relatório, a UBC realizou
um levantamento digital com foco em assédio, discriminação e violência no
mercado musical, com a participação de mais de 280 mulheres
profissionais do setor.
As respostas, coletadas no primeiro trimestre de 2026, indicam a
permanência de práticas misóginas e desigualdades que afetam diretamente a
atuação e a segurança das mulheres: 65% relataram já ter vivido
assédio no contexto profissional; com destaque para assédio sexual (74%),
assédio verbal (63%) e assédio moral (56%); e 35% afirmaram ter enfrentado
algum tipo de violência, sobretudo psicológica (72%), além de toque físico sem
consentimento (58%) e violência verbal (38%).
Os relatos também evidenciam padrões de responsabilização e
impactos na trajetória profissional. Para 96% das
respondentes, homens foram os autores das situações vividas; 75% apontaram
impacto emocional e metade (50%) disse ter se afastado de pessoas ou ambientes
de trabalho. Ao mesmo tempo, 49% afirmaram não ter buscado apoio
ou não ter compartilhado o ocorrido, sinalizando barreiras para denúncia e
acolhimento.
No recorte de discriminação, 63% disseram
ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos profissionais, 59% receberam
comentários que desqualificaram sua competência, 57% sentiram cobrança maior
para provar capacidade e 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados, com
reuniões de negócio (45%), bastidores de shows (31%), passagem de som (27%) e
processos de contratação e seleção de equipe (26%) como os ambientes mais
associados a preconceitos e barreiras.
A pesquisa também destaca o impacto da maternidade: 60%
das mulheres com filhos afirmam que a carreira foi afetada, principalmente por
menos convites e oportunidades, menos viagens/turnês e comentários
preconceituosos sobre dedicação à maternidade.
Entre as participantes, 45% se identificam como profissionais do
mercado musical, 25% como compositoras, 22% como intérpretes e 8% como
musicistas executantes; 37% atuam há 21 anos ou mais no setor. Em relação à
renda, 55% têm a música como principal fonte de sustento,
enquanto 29% não dependem da música como renda principal e 16% afirmam ter
renda parcialmente vinculada à atividade musical.
Os relatos coletados pela pesquisa ilustram a gravidade da
situação. Uma profissional, que preferiu manter o anonimato, contou:
“Um produtor de um grande festival do Nordeste,
num comprimento passou a mão com vontade na minha cintura e subiu até o seio.
Na hora fiquei sem reação. Meu companheiro viu a cena e ficou perplexo. Não me
manifestei para não fechar uma porta, para que no momento oportuno, eu use a
minha voz no palco.”
Já a letrista Iara Ferreira relatou:
“Um músico 30 anos mais velho que eu, que eu admirava
e super celebrado no meio, me convidou para compormos juntos. Quando cheguei a
sua casa, havia uma cena preparada para um encontro amoroso (vinho, flores…) e
ele se ‘declarou’ dizendo que ele mesmo já tinha feito a letra que tinha me
pedido pra fazer, e era dedicada a mim. Me senti completamente desrespeitada e
humilhada como profissional. Passei um bom tempo duvidando de minha capacidade,
pensando que os homens que se aproximavam de mim dizendo que gostavam de meu
trabalho, na verdade o faziam com segundas intenções. Essa foi apenas uma de
várias situações ao longo desses 15 anos trabalhando como letrista.”
Em busca do equilíbrio de gênero,
entidade tem mais 57% de postos de liderança ocupados por mulheres
Apesar do cenário desafiador, a UBC tem se destacado como uma
entidade comprometida com a equidade de gênero. Atualmente, 100%
das filiais da entidade são gerenciadas por mulheres. Além disso, 59%
da equipe é composta por mulheres, e elas ocupam 57%
dos cargos de liderança. Em 2023, a organização deu um passo significativo ao
eleger Paula Lima como sua primeira Diretora-Presidenta,
reafirmando o compromisso com a valorização da liderança feminina e a busca por
mudanças estruturais na indústria da música.
Paula Lima destaca a importância do estudo como um instrumento de
transformação:
“O relatório Por Elas Que Fazem a Música 2026 revela
que o crescimento da presença feminina na UBC é resultado de um processo
contínuo de transformação e de um compromisso real com a equidade. O
crescimento acumulado de 229% traduz não apenas a ampliação de oportunidades e
realizações, mas representa para além de números, histórias, trajetórias e
conquistas de mulheres que há anos lutam por espaço, reconhecimento e voz. É o
reconhecimento do papel essencial das mulheres na construção da música
brasileira. Fazer parte dessa caminhada e presidir a UBC neste momento
histórico é, para mim, uma honra profunda e uma grande responsabilidade.
Significa reafirmar o compromisso de fortalecer políticas de inclusão,
valorizar o talento feminino e contribuir para a construção de uma indústria
musical cada vez mais diversa, justa e verdadeiramente representativa”, afirma.
Para Fernanda Takai, diretora da UBC, o
crescimento no número de associadas e a forte presença das autoras são sinais
positivos. "Chegamos a mais um relatório sobre a presença feminina da UBC
e temos a certeza de que há um caminho enorme a percorrer. Embora os números
estejam se expandindo - autoras, versionistas, intérpretes, musicistas e
produtoras ocupam apenas 17% da base total da associação - e constatamos
recortes muito claros sobre concentração geográfica e também etária. Abrimos
2026 mirando um futuro que espelhe nossa cultura interna, onde as mulheres
ocupam 59% no quadro geral de funcionários e maioria absoluta nos cargos de
liderança. A indústria da música precisa ser mais representativa e não vamos
perder esse foco", sinaliza Takai.
Mila Ventura, gerente de
comunicação e marketing e coordenadora do projeto, afirma: “A importância do
Relatório Por Elas Que Fazem a Música, não só na nossa indústria, mas na
sociedade como um todo, nos motiva a seguir acompanhando e fomentando a
presença feminina na música. Ele transforma em números o que vivemos
diariamente. Ao amplificar vozes e gerar um espaço seguro para o
compartilhamento de questões de violência, de todos os tipos, e discriminação,
multiplicamos a nossa força e também nos reconhecemos em sutilezas desconfortáveis,
lugares em que, infelizmente, toda mulher já esteve ao menos uma vez na vida, e
que precisam ser ditos e debatidos. A UBC segue na sua missão de valorizar,
fortalecer e ampliar a equidade de gênero na indústria musical.”
A pesquisa Por Elas Que Fazem a Música 2026 está disponível na
íntegra no site da UBC.
UBC – União Brasileira de Compositores




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