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terça-feira, 3 de março de 2026

A vacina que pode salvar jovens brasileiros

Roberto Elias Villela Miguel, cirurgião de Cabeça e Pescoço e doutor em Medicina pelo Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP

Lara Termini, pesquisadora em Oncologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e representante LATAM International Papilomavirus Society 

É do mês passado uma notícia relevante sobre cânceres causados pelo HPV (Papilomavírus Humano), motivo de mobilização neste 4 de março, Dia Internacional de Conscientização sobre o HPV. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deu um passo importante e aprovou a indicação da vacina nonavalente para prevenção de cânceres de orofaringe e cabeça e pescoço associados ao HPV. Uma notícia excelente para a sociedade e a medicina. Por se tratar de uma vacina preventiva e para que sua eficácia seja máxima, é interessante que a vacinação ocorra antes do início da atividade sexual (9 a 19 anos), permitindo assim que a infecção pelo HPV não aconteça.

Mesmo que limitada por enquanto à rede privada, mas com intenção governamental de chegar à rede pública, a vacina traz mais esperança para que se contenha o aumento de casos de câncer de boca e garganta especialmente entre a população mais jovem. Pessoas mais jovens têm um sistema imune mais potente, gerando anticorpos em grande quantidade e muito eficientes. De maneira importante, essa excelente iniciativa pode resultar na aplicação da vacina em outras faixas etárias, beneficiando a todos.

Há décadas se reconhece o papel de alguns tipos de HPV, como por exemplo os tipos 16 e 18, como principal causa do câncer do colo do útero e de outros tumores ano-genitais (vulva, vagina, pênis e ânus). Mais recentemente, estudos científicos também consolidaram sua associação com tumores de cabeça e pescoço, particularmente o câncer de orofaringe _região que inclui a base da língua e as amígdalas.

Ao longo das últimas décadas, o número de casos de câncer de cabeça e pescoço associados ao HPV _especialmente ao tipo 16_ vem crescendo de maneira contínua principalmente entre jovens, que em geral, apresentam melhor resposta ao tratamento, com prognóstico mais favorável. Observou-se um aumento de casos em cerca de 60% ao ano em jovens entre 1973 e 2009. A situação se agravou. Segundo o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), a proporção de tumores de cabeça e pescoço em pacientes mais jovens passou de 8% em 2009 para 22% em 2020. Esses números mostram que o HPV é um fator de risco cada vez mais relevante principalmente à essa população, diferentemente dos casos mais comuns ligados ao consumo de álcool e tabaco.

Mesmo comemorando a breve chegada da vacina, não custa repetir a básica orientação à população: prevenção é a palavra-chave. O uso de preservativos nas relações sexuais reduz o risco de transmissão do HPV, inclusive em situações que envolvem o compartilhamento de brinquedos sexuais. Embora o preservativo não elimine completamente a possibilidade de infecção, ele diminui de forma significativa a exposição ao vírus.

Compreender como tabaco, álcool, infecção pelo HPV e outros fatores interagem para causar tumores de cabeça e pescoço não é apenas uma questão médica; é a base para políticas públicas eficientes, campanhas de prevenção, vacinação, orientação sexual segura e ampliação do acesso a métodos de triagem. Quanto maior o conhecimento da população, maiores as chances de diagnóstico precoce _e melhores os resultados do tratamento.

 

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