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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Coragem para descentralizar: novas perspectivas no investimento social privado no país

 

Quem decide o que vale ser transformado no Brasil? E com quais vozes, recursos e prioridades? Essas perguntas que predominavam o cenário do Investimento Social Privado (ISP) e da filantropia no Brasil, passa hoje por uma transição importante. Durante muito tempo, as decisões e os recursos circularam entre uma elite institucional, com foco majoritário em estratégias corporativas e com baixa representatividade de vozes historicamente excluídas. Mas um novo horizonte se abre a partir de discussões mais corajosas e inclusivas sobre como redistribuir poder, conhecimento e riqueza os três pilares que sustentam a impacto social de longo prazo. 

A descentralização dessas três dimensões tem sido apontada como um dos maiores desafios do setor. Envolve mudanças profundas na governança das organizações, revisão dos processos de tomada de decisão e, sobretudo, o redirecionamento de recursos para iniciativas e lideranças nas pontas onde, de fato, surgem soluções inovadoras e transformadoras. Mais do que criar espaços de escuta, trata-se de garantir a participação ativa de comunidades, movimentos e organizações sociais na formulação de diagnósticos, estratégias e investimentos que beneficiam não só seus públicos, mas toda a sociedade. 

Historicamente, as decisões sobre alocação de recursos foram tomadas por quem está distante das realidades mais vulneráveis do país. Enquanto isso, a base da pirâmide social — marcada pela desigualdade sociais, violência e falta de acesso a direitos básicos — segue sem tempo, estrutura e oportunidades para participar dos debates e usufruir dos avanços promovidos pelas tecnologias ou pelo crescimento econômico. Não se trata de aumentar investimentos, mas de reconfigurar os fluxos de poder e de escuta. 

A própria composição do investimento social precisa ser revista. De acordo com a Pesquisa Doação 2020, a classe média é proporcionalmente mais engajada em doações e causas sociais do que as classes mais ricas, o que evidencia que a cultura da solidariedade e da colaboração não está necessariamente vinculada à concentração de patrimônio. No Brasil, a experiência mostra que as populações vulnerabilizadas compartilham entre si soluções e práticas que muitas vezes invisibilizadas por quem de fato, possui o poder decisório. 

Por outro lado, segundo o último Censo GIFE organizações com conselhos verdadeiramente diversos distribuem quase metade de seus recursos à sociedade civil (46%), contra apenas 18% naqueles que não contam com essa diversidade. 

Dessa forma, as soluções pensadas pelas populações tradicionais, racializadas e outras comunidades vulnerabilizadas precisam ser valorizadas e priorizadas (ou somente priorizadas). Para isso, é essencial reconhecer, por exemplo, o papel das mulheres, especialmente as negras e periféricas, como protagonistas da transformação social. Elas são maioria entre as usuárias de serviços públicos, chefes de família, lideranças comunitárias, cuidadoras e agentes de mobilização em cenários de crise. No entanto, permanecem distantes das decisões sobre políticas públicas e distribuição de recursos. 

A intersecção entre raça e gênero revela o desafio mais estrutural para o ISP: o enfrentamento ao racismo e ao patriarcado como bases de sustentação das desigualdades no país. Essa estrutura, inclusive, se reproduz dentro da própria filantropia e do investimento social, quando organizações e lideranças seguem distantes das realidades que pretendem impactar. Inverter essa lógica exige uma revisão crítica da forma como se pensa e se pratica a filantropia. 

Diante desse cenário, a governança surge como uma ferramenta potente de mudança. Reestruturar conselhos, fóruns de decisão e processos de escuta para incluir representantes de povos originários, mulheres negras, juventudes periféricas e outros grupos historicamente marginalizados é um passo fundamental. A promoção de impacto social efetivo só será possível quando essas vozes forem ouvidas não apenas como fontes de dados, mas como co-autoras de soluções. Isso pode ser corrigido a partir da reconstrução das governanças. 

A filantropia brasileira está diante de uma encruzilhada: seguir concentrando recursos, decisões e visões em poucos centros de poder, ou construir novas formas de investir socialmente que levem em conta a diversidade e a complexidade da sociedade brasileira. Mais do que uma escolha estratégica, trata-se de uma responsabilidade efetiva com a promoção de impacto social. Afinal, se o investimento social privado tem como missão promover impacto positivo e justiça social, não há outro caminho senão o da descentralização, com coragem e disposição para sentarem a mesa e assim, multiplicar.



Luciana Sonck - CEO e sócia-fundadora da Tewá 225, uma empresa de impacto social positivo que traz soluções para os desafios socioambientais das empresas, organizações e governos. É responsável por construir estudos e diagnósticos com parceiros como UNOPS, ONU Mulheres, UNESCO, IUCN e outros, para elaborar soluções com viés de gênero, raça, etnia, território e gestão do conhecimento. Formada em sociologia pela PUC-SP, é mestra em planejamento territorial e governança pela UFABC, além de publicar artigos acadêmicos. É também fundadora da Butique Sustentável, iniciativa de reeducação do consumo da moda.


Tewá - responsável pelo estudo Piores Cidades para Ser Mulher, que mapeia municípios e capitais brasileiras nas metas do ODS 5 (Igualdade de Gênero), certificada pela Rede Mulher Empreendedora.



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