Quem decide o que vale ser transformado no Brasil? E com quais
vozes, recursos e prioridades? Essas perguntas que predominavam o cenário do
Investimento Social Privado (ISP) e da filantropia no Brasil, passa hoje por
uma transição importante. Durante muito tempo, as decisões e os recursos
circularam entre uma elite institucional, com foco majoritário em estratégias
corporativas e com baixa representatividade de vozes historicamente excluídas.
Mas um novo horizonte se abre a partir de discussões mais corajosas e
inclusivas sobre como redistribuir poder, conhecimento e riqueza os três
pilares que sustentam a impacto social de longo prazo.
A descentralização dessas três dimensões tem sido apontada como um
dos maiores desafios do setor. Envolve mudanças profundas na governança das
organizações, revisão dos processos de tomada de decisão e, sobretudo, o
redirecionamento de recursos para iniciativas e lideranças nas pontas onde, de
fato, surgem soluções inovadoras e transformadoras. Mais do que criar espaços
de escuta, trata-se de garantir a participação ativa de comunidades, movimentos
e organizações sociais na formulação de diagnósticos, estratégias e
investimentos que beneficiam não só seus públicos, mas toda a sociedade.
Historicamente, as decisões sobre alocação de recursos foram
tomadas por quem está distante das realidades mais vulneráveis do país.
Enquanto isso, a base da pirâmide social — marcada pela desigualdade sociais,
violência e falta de acesso a direitos básicos — segue sem tempo, estrutura e
oportunidades para participar dos debates e usufruir dos avanços promovidos
pelas tecnologias ou pelo crescimento econômico. Não se trata de aumentar
investimentos, mas de reconfigurar os fluxos de poder e de escuta.
A própria composição do investimento social precisa ser revista.
De acordo com a Pesquisa Doação 2020, a classe média é proporcionalmente mais
engajada em doações e causas sociais do que as classes mais ricas, o que
evidencia que a cultura da solidariedade e da colaboração não está
necessariamente vinculada à concentração de patrimônio. No Brasil, a
experiência mostra que as populações vulnerabilizadas compartilham entre si
soluções e práticas que muitas vezes invisibilizadas por quem de fato, possui o
poder decisório.
Por outro lado, segundo o último Censo GIFE organizações com
conselhos verdadeiramente diversos distribuem quase metade de seus recursos à
sociedade civil (46%), contra apenas 18% naqueles que não contam com essa
diversidade.
Dessa forma, as soluções pensadas pelas populações tradicionais,
racializadas e outras comunidades vulnerabilizadas precisam ser valorizadas e
priorizadas (ou somente priorizadas). Para isso, é essencial reconhecer, por
exemplo, o papel das mulheres, especialmente as negras e periféricas, como
protagonistas da transformação social. Elas são maioria entre as usuárias de
serviços públicos, chefes de família, lideranças comunitárias, cuidadoras e
agentes de mobilização em cenários de crise. No entanto, permanecem distantes
das decisões sobre políticas públicas e distribuição de recursos.
A intersecção entre raça e gênero revela o desafio mais estrutural
para o ISP: o enfrentamento ao racismo e ao patriarcado como bases de
sustentação das desigualdades no país. Essa estrutura, inclusive, se reproduz
dentro da própria filantropia e do investimento social, quando organizações e
lideranças seguem distantes das realidades que pretendem impactar. Inverter
essa lógica exige uma revisão crítica da forma como se pensa e se pratica a
filantropia.
Diante desse cenário, a governança surge como uma ferramenta
potente de mudança. Reestruturar conselhos, fóruns de decisão e processos de
escuta para incluir representantes de povos originários, mulheres negras,
juventudes periféricas e outros grupos historicamente marginalizados é um passo
fundamental. A promoção de impacto social efetivo só será possível quando essas
vozes forem ouvidas não apenas como fontes de dados, mas como co-autoras de
soluções. Isso pode ser corrigido a partir da reconstrução das governanças.
A filantropia brasileira está diante de uma encruzilhada: seguir concentrando recursos, decisões e visões em poucos centros de poder, ou construir novas formas de investir socialmente que levem em conta a diversidade e a complexidade da sociedade brasileira. Mais do que uma escolha estratégica, trata-se de uma responsabilidade efetiva com a promoção de impacto social. Afinal, se o investimento social privado tem como missão promover impacto positivo e justiça social, não há outro caminho senão o da descentralização, com coragem e disposição para sentarem a mesa e assim, multiplicar.
Luciana Sonck - CEO e sócia-fundadora da Tewá 225, uma empresa de impacto social positivo que traz soluções para os desafios socioambientais das empresas, organizações e governos. É responsável por construir estudos e diagnósticos com parceiros como UNOPS, ONU Mulheres, UNESCO, IUCN e outros, para elaborar soluções com viés de gênero, raça, etnia, território e gestão do conhecimento. Formada em sociologia pela PUC-SP, é mestra em planejamento territorial e governança pela UFABC, além de publicar artigos acadêmicos. É também fundadora da Butique Sustentável, iniciativa de reeducação do consumo da moda.
Tewá - responsável pelo estudo Piores Cidades para Ser Mulher, que mapeia municípios e capitais brasileiras nas metas do ODS 5 (Igualdade de Gênero), certificada pela Rede Mulher Empreendedora.
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