Pesquisar no Blog

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Tirzepatida pode ser aliada no controle de fatores associados ao lipedema, mas não substitui tratamento da doença


 Medicamento pode contribuir para controle metabólico, redução de peso e melhora de processos inflamatórios, mas uso deve ser individualizado e acompanhado por médico

 

O avanço no uso da tirzepatida para o controle do peso e de alterações metabólicas também trouxe novas possibilidades para mulheres que convivem com o lipedema. Embora o medicamento não tenha indicação específica para tratar a doença, ele pode ser utilizado, quando houver indicação médica, como uma ferramenta complementar no cuidado de pacientes que apresentam excesso de peso, obesidade ou alterações metabólicas associadas ao quadro. 

O lipedema é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo desproporcional de tecido adiposo, principalmente em pernas, quadris e braços. A condição pode provocar dor, sensibilidade, sensação de peso e inchaço, além de apresentar um importante componente inflamatório. A gordura do lipedema possui características próprias e não responde necessariamente às estratégias tradicionais de emagrecimento da mesma forma que a gordura relacionada à obesidade. 

“Além do controle metabólico e da redução de peso, o que considero importante na utilização da tirzepatida em algumas pacientes é que se nota uma melhora da inflamação. Como o lipedema é uma doença inflamatória, essa melhora pode ajudar no controle do quadro e de alguns sintomas. Mas é importante deixar claro que a tirzepatida não trata diretamente o lipedema. Ela pode ser uma ferramenta complementar dentro de uma estratégia individualizada de tratamento”, explica a Dra. Tatiana Losada, cirurgiã vascular e angiologista. 

A tirzepatida atua em mecanismos relacionados à regulação do apetite, saciedade e controle glicêmico, contribuindo para a redução do peso corporal. No contexto de pacientes com lipedema, o controle do excesso de peso e de alterações metabólicas pode ser especialmente relevante, uma vez que a obesidade pode aumentar a sobrecarga sobre os membros e dificultar o controle de sintomas. 

Além disso, a percepção de melhora de processos inflamatórios é um aspecto que chama a atenção no acompanhamento de pacientes com lipedema. “Quando conseguimos melhorar o metabolismo e também percebemos uma redução do processo inflamatório, a paciente pode ter uma evolução melhor em relação a sintomas como sensação de peso, desconforto e inchaço. No entanto, isso não significa que a tirzepatida elimine o tecido do lipedema ou faça a doença desaparecer”, ressalta a especialista. 

Outro ponto importante é diferenciar a perda de peso da redução do tecido característico do lipedema. A paciente pode apresentar emagrecimento e melhora do contorno corporal, especialmente em regiões com gordura associada à obesidade, mas o tecido do lipedema apresenta comportamento diferente. 

O tratamento do lipedema deve considerar o estágio da doença, os sintomas apresentados e a presença de condições associadas, como obesidade e alterações metabólicas. A abordagem pode envolver mudanças no estilo de vida, atividade física adequada, estratégias para controle do edema, compressão, acompanhamento médico e outras medidas definidas de acordo com as necessidades de cada paciente. 

“Um dos principais cuidados é não transformar a tirzepatida na protagonista do tratamento. Ela pode ser uma ferramenta importante quando existe indicação, mas o lipedema exige uma abordagem ampla. Precisamos controlar o peso e o metabolismo, cuidar da inflamação e, principalmente, tratar as manifestações específicas da doença”, completa a cirurgiã vascular. 

Para a Dra. Tatiana, a orientação individualizada é essencial. “Não existe uma única estratégia que funcione para todas as pacientes com lipedema. Antes de iniciar a tirzepatida, é preciso avaliar se existe indicação, quais são os objetivos do tratamento e quais outros cuidados essa paciente precisa. A ideia não é tratar apenas o peso, mas cuidar da saúde de forma global e controlar os diferentes fatores que podem influenciar a evolução do lipedema”, conclui. 

 

Dra. Tatiana Losada - Cirurgiã vascular. Médica Especialista em Cirurgia Vascular e Angiologia. Especialista em tratamentos modernos de varizes, vasinhos e Lipedema. Formada pela Universidade de Uberaba – MG. Cirurgiã Geral pela Secretária de Saúde do Distrito Federal. Cirurgiã Vascular pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto – FAMERP. Membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Vascular e Angiologia
@dratatianalosada


Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP) afeta 1 em cada 8 mulheres e pode impactar a fertilidade

 

No mês de conscientização sobre a condição, especialistas chamam atenção para alterações na ovulação e para a importância de uma avaliação individualizada da saúde reprodutiva

 

Ciclos menstruais irregulares, alterações hormonais e dificuldade para engravidar estão entre as manifestações da Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), condição que afeta uma em cada oito mulheres no mundo, segundo a Endocrine Society. Neste mês, dedicado à conscientização sobre a síndrome, especialistas chamam atenção para um de seus impactos mais importantes: a fertilidade.

Até maio deste ano, a condição era conhecida como Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP). A mudança de nome busca representar de forma mais precisa uma síndrome que vai além dos ovários e não está necessariamente relacionada à presença de cistos. A SOMP é uma condição hormonal e metabólica complexa que pode afetar diferentes aspectos da saúde feminina, incluindo peso, metabolismo, saúde mental, pele e sistema reprodutivo.

A dimensão do problema também chama atenção pelo número de mulheres que convivem com a condição sem saber. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre 10% e 13% das mulheres em idade reprodutiva são afetadas e até 70% das mulheres com a síndrome no mundo podem não ter recebido o diagnóstico.


SOMP e a fertilidade

Quando o assunto é fertilidade, uma das principais consequências da SOMP está na ovulação. O desequilíbrio hormonal pode interferir no desenvolvimento e na liberação dos óvulos, fazendo com que algumas mulheres tenham ciclos muito longos, irregulares ou até ausência de menstruação. 

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a síndrome como a causa mais comum de anovulação e uma das principais causas de infertilidade. Isso não significa, porém, que mulheres com SOMP sejam estéreis. Muitas conseguem engravidar naturalmente, enquanto outras podem precisar de acompanhamento médico, indução da ovulação ou técnicas de reprodução assistida.

A SOMP também traz particularidades para mulheres que passam pela estimulação ovariana, seja para congelar óvulos ou parte de um tratamento de fertilização in vitro (FIV). Algumas pacientes com a síndrome podem apresentar uma resposta elevada à estimulação, com o desenvolvimento de um número maior de folículos e a coleta de uma quantidade significativa de óvulos. No entanto, as chances de uma gestação bem-sucedida não dependem apenas da quantidade de óvulos coletados, mas também da qualidade desses óvulos.


IA como aliada

Nesse cenário, novas tecnologias de inteligência artificial começam a ampliar as informações disponíveis para médicos e pacientes. A Future Fertility, empresa canadense especializada em IA aplicada à reprodução assistida, desenvolveu duas ferramentas que analisam imagens de óvulos e fornecem informações individualizadas sobre sua qualidade.

O VIOLET™ é voltado para pacientes que estão congelando óvulos, e a tecnologia fornece uma previsão personalizada da probabilidade de ter um bebê com bae no conjunto de óvulos a serem congelados, considerando a qualidade individual de cada óvulo. Já o MAGENTA™ é utilizado em ciclos de FIV e avalia individualmente os óvulos maduros, atribuindo uma pontuação de qualidade correlacionada ao potencial de formação de blastocistos de alta qualidade. Essas informações fornecem aos especialistas em fertilidade mais dados para orientar o planejamento do tratamento de FIV, a interpretação dos resultados reprodutivos e o aconselhamento das pacientes.

“Uma paciente pode ter muitos folículos, coletar um número elevado de óvulos e imaginar que isso, por si só, responde às suas dúvidas sobre fertilidade. Mas quantidade e qualidade são informações diferentes. Conseguir olhar para os óvulos de forma individualizada pode ajudar a tornar a conversa entre médico e paciente mais informada, acrescentando contexto sobre o que os resultados podem significar e quais próximos passos considerar, seja para quem está preservando a fertilidade, seja para quem já está passando por uma FIV",  explica Dr. Dan Nayot, diretor médico e cofundador da Future Fertility.

As tecnologias da Future Fertility foram desenvolvidas a partir da análise de centenas de milhares de imagens de óvulos associadas a seus respectivos desfechos. A proposta é complementar parâmetros tradicionalmente utilizados no planejamento reprodutivo com informações individualizadas sobre os próprios óvulos.

Para pacientes com SOMP, esse tipo de informação pode ser especialmente relevante em situações de alta resposta ovariana. Mais do que saber quantos óvulos foram obtidos, a possibilidade de conhecer melhor as características desses óvulos acrescentam uma nova camada de informação ao planejamento da fertilidade.

 

Future Fertility

 

Soluções não invasivas auxiliam conforto e apoio ao cuidado no pós-operatório de cirurgias de lipedema

 

Magnific
Tecnologias de gerenciamento urinário externo ganham espaço ao contribuir para manutenção da pele seca e mais conforto durante a recuperação 


O pós-operatório de cirurgias de lipedema, especialmente em procedimentos de maior porte, exige atenção a diferentes aspectos do cuidado, incluindo conforto, higiene, segurança e recuperação da paciente. Nesse contexto, tecnologias não invasivas de gerenciamento urinário externo começam a ganhar espaço como aliadas no cuidado hospitalar e domiciliar. 

Nos primeiros dias após a cirurgia, é comum que pacientes apresentem sensibilidade e desconfortos relacionados ao processo de recuperação. Durante o período noturno, algumas pacientes podem demandar maior atenção aos cuidados de conforto e segurança, tornando esses aspectos importantes nesse momento do cuidado. 

“O período noturno costuma ser um momento de adaptação no pós-operatório. Ter mais praticidade nesse momento fez diferença no meu pós-operatório”, relata Renata Frasson, paciente submetida à cirurgia de lipedema. “Para quem está acompanhando de perto, qualquer solução que traga mais conforto e facilite os cuidados acaba ajudando bastante”, complementa. 

Especialistas reforçam que a mobilização precoce e as caminhadas leves fazem parte da recuperação adequada no pós-operatório de cirurgias de lipedema, contribuindo para melhor recuperação funcional. Paralelamente, medidas voltadas ao conforto e ao apoio à paciente durante o período noturno também podem contribuir para uma recuperação mais tranquila. 

“A recuperação cirúrgica do lipedema não depende apenas do procedimento em si, mas também dos cuidados adotados no pós-operatório. O tratamento clínico não para. Em casos mais complexos, qualquer medida que contribua para o conforto, reduza desconfortos desnecessários e favoreça a retomada gradual da mobilidade pode ter impacto positivo na experiência da paciente e na condução da recuperação”, afirma o diretor do Instituto Lipedema Brasil, Dr. Fábio Kamamoto, que operou a paciente. 

Outro ponto importante no pós-operatório envolve o controle da umidade em regiões com curativos e áreas sensíveis. A manutenção da pele seca contribui para preservar a integridade cutânea e reduzir o risco de irritações e complicações relacionadas à cicatrização. 

“Manter a pele seca é um cuidado importante nesse tipo de pós-operatório. A umidade excessiva pode impactar curativos e interferir no processo de cicatrização, especialmente em procedimentos mais extensos”, explica a gerente de operações do Instituto Lipedema Brasil, Carla Chineze. 

Dispositivos de gerenciamento urinário externo surgem como alternativa por dispensarem inserção interna e contribuírem para maior conforto durante a recuperação. Além disso, ajudam a reduzir a exposição prolongada da pele à umidade e podem apoiar pacientes e cuidadores no manejo noturno. 

Entre as soluções disponíveis está o PureWick¹, sistema de gerenciamento urinário externo feminino desenvolvido pela BD, uma das maiores empresas de tecnologia médica no mundo, indicado para pacientes em recuperação pós-cirúrgica. O dispositivo utiliza sucção contínua de baixa pressão para direcionar a urina a um sistema de coleta, contribuindo para mais conforto durante o período de recuperação¹. 

“No começo é uma sensação diferente, mas a adaptação é rápida e confortável. Para mim, foi uma solução prática no pós-operatório, principalmente durante a noite”, completa Renata. 

“Nosso objetivo é desenvolver tecnologias que contribuam para a segurança, o conforto e o bem-estar dos pacientes em momentos críticos do cuidado. Soluções não invasivas de gerenciamento urinário podem apoiar pacientes e cuidadores durante o período de recuperação”, afirma Juliano Paggiaro, presidente da BD no Brasil.

O uso desse tipo de tecnologia reflete um movimento crescente na busca por soluções que conciliem conforto, apoio ao cuidado e qualidade de vida durante a recuperação pós-cirúrgica.



BD
Para mais informações, acesse bd.com ou acompanhe a BD no LinkedIn (www.linkedin.com/company/bd1/), no X (@BDandCo) e no Instagram (@becton_dickinson).

Instituto Lipedema Brasil
@lipedemabrasil
@ongmovimentolipedema.

  

Referências

¹ J. Cooper; D. Powell. An Observational Study Of The Purewick™ System in Women With Urinary Incontinence at Home and in the Care/Nursing Home Setting. dx.doi.org/10.14283/jnhrs.2024.1

 

Em São Paulo, quase 8 em cada 10 pacientes com câncer de pulmão chegam ao diagnóstico em estágio avançado

 Pesquisa analisou mais de 16 mil casos no Estado de São Paulo e mostra como diagnóstico tardio, desigualdade socioeconômica e acesso a exames impactam a sobrevida

 

Quando o câncer de pulmão é descoberto em estágio avançado, a perspectiva do tratamento muda. Em muitos casos, a possibilidade de cura dá lugar a estratégias para controlar a doença, estabilizar o quadro e prolongar a vida do paciente. Um estudo com participação do Hospital Alemão Oswaldo Cruz aponta que essa ainda é a realidade de grande parte dos pacientes: 79% dos casos analisados foram diagnosticados em estágios III ou IV da doença. 

Publicado no Journal of Thoracic Disease em julho, o estudo avaliou 16.038 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células atendidos no sistema público de saúde no Estado de São Paulo. Foram incluídos casos diagnosticados entre janeiro de 2000 e dezembro de 2016, com acompanhamento até dezembro de 2022. A pesquisa analisou fatores clínicos e socioeconômicos associados à sobrevida, como estágio da doença no momento do diagnóstico, idade, sexo, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e disponibilidade de exames de imagem. 

Do total analisado, 49,8% dos pacientes estavam em estágio IV e 29,1% em estágio III no momento do diagnóstico. Apenas 11,6% foram diagnosticados em estágio I e 6,8% em estágio II. 

“O principal ponto do estudo é mostrar que o diagnóstico tardio ainda é uma das grandes barreiras no câncer de pulmão. Quando o paciente chega em estágio avançado, o tratamento muda de perspectiva: deixa de ser uma estratégia com maior chance de erradicar a doença e passa a ser, em muitos casos, uma tentativa de controle da doença pelo maior tempo possível”, explica o Dr. Fernando Conrado Abrão, cirurgião torácico do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e coordenador do estudo. 

A diferença entre os estágios também aparece nos desfechos. Em comparação com pacientes diagnosticados em estágio I, aqueles em estágio III tiveram risco de morte por câncer cerca de quatro vezes maior. No estágio IV, esse risco foi mais de seis vezes maior. 

“A grande questão é que gostaríamos de inverter esse número. O ideal seria que a maioria dos pacientes chegasse ao diagnóstico em estágios iniciais (I e II) , quando ainda conseguimos falar com mais força em chance de cura. Hoje, o que vemos é o contrário: muitos chegam tarde, quando o tratamento já se torna mais complexo”, afirma Abrão.

 

Desigualdade também pesa na jornada do paciente 

Além do estágio da doença, o levantamento observou associação entre condições socioeconômicas e desfechos dos pacientes. No modelo de mortalidade específica por câncer, cada aumento de 0,1 ponto no IDH foi associado a uma redução de 7% no risco de morte pela doença. 

Para o autor, o dado reforça que a sobrevida no câncer de pulmão não depende apenas das características do tumor ou do tratamento em si. Ela também pode ser influenciada por fatores como acesso a serviços especializados, exames diagnósticos, estrutura de saúde e tempo até o início do cuidado adequado. 

“Quando falamos de desigualdade no câncer, não estamos tratando apenas de acesso ao medicamento. O paciente precisa chegar ao serviço de saúde, realizar exames, confirmar o diagnóstico, fazer o estadiamento correto da doença e iniciar o tratamento em tempo adequado. Cada etapa dessa jornada pode representar uma barreira”, diz o médico.

 

Acesso a exames pode atrasar definição do tratamento 

Entre os exames importantes para definir a conduta está o PET-CT, usado para avaliar a extensão do tumor antes do início do tratamento. O exame combina duas tecnologias: medicina nuclear (PET), que ajuda a identificar áreas de maior atividade metabólica no corpo, e a tomografia computadorizada (CT), que mostra imagens detalhadas da anatomia. Na prática, ele permite investigar se o tumor está restrito ao pulmão ou se já há sinais de metástase em outros órgãos. 

“A tomografia avalia o pulmão e a relação do tumor com as estruturas ao redor. Já o PET-CT permite olhar praticamente o corpo inteiro, com exceção do cérebro, e identificar se há metástases. Isso muda completamente a estratégia de tratamento. Se a doença está localizada, o paciente pode ser candidato à cirurgia. Se já há metástase, o tratamento passa a ter outro objetivo”, explica Abrão. 

O estudo mostra que mais da metade dos pacientes (53,8%) vivia em regiões com menos de 10 aparelhos de PET-CT. Enquanto quase 45% também estavam em locais com menor oferta de PET-CT e tomografia. Depois do diagnóstico, o tratamento começou, em geral, após 34 dias; em parte dos casos, esse intervalo ficou entre 12 e 67 dias. 

“Nem todos os serviços têm PET-CT disponível. Muitas vezes, o paciente fica aguardando o exame e o tempo vai passando. E essa é apenas uma etapa da jornada: depois, ainda é preciso passar com o especialista, definir conduta, aguardar cirurgia ou iniciar tratamento oncológico. Cada atraso pode impactar o desfecho”, afirma.

 

Estudo reforça necessidade de diagnóstico mais precoce 

O câncer de pulmão é um dos tumores mais associados à mortalidade no mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 35.380 novos casos de câncer de traqueia, brônquios e pulmão por ano no triênio 2026–2028. No Estado de São Paulo, onde foi realizado o estudo, são estimados 8.570 novos casos em 2026. Apesar dos avanços em cirurgia, imunoterapia, terapias-alvo e outras modalidades de tratamento, o diagnóstico precoce continua sendo um dos principais desafios para melhorar os resultados. 

A complexidade do cuidado também exige integração entre diferentes áreas, como cirurgia torácica, oncologia, radiologia, patologia e medicina nuclear. Em instituições de alta complexidade, essa articulação é importante para definir o estágio da doença, discutir a melhor estratégia terapêutica e conduzir casos que exigem avaliação multidisciplinar. 

No caso do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a participação em estudos como esse, pelo seu Centro Internacional de Pesquisa, também destaca a contribuição do corpo clínico para a produção científica e para a discussão sobre barreiras de acesso no cuidado oncológico. 

Os achados do estudo, segundo Dr. Fernando Abrão, reforçam a necessidade de ampliar o acesso a exames, serviços especializados e estratégias de detecção precoce, especialmente em regiões com menor infraestrutura de saúde. O estudo também aponta que investimentos direcionados em tecnologia diagnóstica e centros oncológicos podem ajudar a reduzir desigualdades e atrasos no cuidado. 

“Estudos como esse ajudam a mostrar onde estão as barreiras e podem apoiar gestores na tomada de decisão. Quando conseguimos mensurar desigualdades de acesso e seu impacto na sobrevida, damos um passo importante para pensar em políticas públicas e estratégias de cuidado mais efetivas”, conclui Abrão.

  

Hospital Alemão Oswaldo Cruz


Setembro Verde: histórias de famílias revelam o papel do acolhimento na doação de órgãos

 

Divulgação
Com atendimento 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Hospital Universitário Cajuru realiza trabalho de identificação, acompanhamento e acolhimento de potenciais doadores 

 

Quando Michele Costa recebeu a notícia de que o pai, Carlos Antônio Costa, de 66 anos, havia morrido após um AVC, a família precisou enfrentar uma decisão difícil em meio ao luto: autorizar ou não a doação de órgãos. A resposta foi encontrada nas lembranças sobre a vida de Carlos e na generosidade que sempre marcou sua relação com as pessoas. “Num momento de muita dor, nós vimos uma possibilidade de encontrar esperança, pois o meu pai gostava de estar sempre ajudando o próximo. E nesse momento nós pensamos que, antes de partir, ele ainda estava fazendo mais um gesto de generosidade”, conta Michele, de 43 anos.

A história, vivida no Hospital Universitário Cajuru, que realiza atendimento 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ajuda a traduzir a mensagem do Setembro Verde, mês de conscientização sobre a doação de órgãos. A doação pode beneficiar diferentes pessoas que aguardam uma oportunidade de continuar suas histórias. Por trás de cada doação existe uma história, uma família e uma rede de profissionais que atua para que esse gesto seja possível.



CIHDOTT: atuação que começa antes da decisão familiar

No Hospital Universitário Cajuru, esse trabalho é conduzido pela Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT). A atuação da comissão começa com a identificação de potenciais doadores. A equipe realiza busca ativa nas unidades de terapia intensiva, emergência e no centro cirúrgico do hospital, acompanha os protocolos de diagnóstico de morte encefálica e articula os profissionais e serviços envolvidos diante da possibilidade de doação. “A CIHDOTT é responsável por organizar e acompanhar o processo de doação dentro do hospital. Além de identificar potenciais doadores, acompanhamos o protocolo de morte encefálica, acolhemos a família e fazemos a articulação com a Central de Transplantes e as equipes envolvidas na captação”, explica a enfermeira Lucimar Sampaio, coordenadora da CIHDOTT e especialista em Captação, Doação e Transplante de Órgãos e Tecidos.

A morte encefálica corresponde à perda completa e irreversível das funções do cérebro e caracteriza a morte da pessoa. O diagnóstico é realizado de acordo com critérios médicos rigorosos e com a legislação vigente. Após a confirmação, a família recebe as informações necessárias sobre a possibilidade de doação e pode esclarecer suas dúvidas. No Brasil, a retirada de órgãos para transplante somente acontece mediante autorização familiar. Com o consentimento, a CIHDOTT articula as equipes assistenciais, o laboratório, o centro cirúrgico, a Central Estadual de Transplantes e equipes de captação para que o processo ocorra de forma segura, ética e organizada.

Em 2025, o Hospital Universitário Cajuru registrou 40 notificações de potenciais doadores. Desses casos, 34 chegaram à etapa de entrevista familiar e, entre eles, 29 famílias autorizaram a doação, o que representou uma taxa de conversão de 85%. Em 2026, considerando os dados contabilizados até o momento, foram 27 notificações e 22 entrevistas familiares, com 14 autorizações e uma taxa de conversão de 64%. Os números ajudam a dimensionar a importância de uma etapa decisiva que acontece em meio ao luto: a conversa com a família e a decisão sobre a doação.


Falar sobre doação em vida pode fazer a diferença

Por isso, falar sobre o desejo de ser doador com antecedência pode fazer diferença. “A família é fundamental. No Brasil, a doação de órgãos após a morte depende da autorização familiar. Por isso, conversar sobre esse assunto em vida é tão importante. Quando a pessoa manifesta claramente para sua família o desejo de ser doadora, ela facilita uma decisão que poderá ser tomada em um momento muito difícil”, salienta Lucimar.

Para a costureira Aparecida Nunes de Lima, de 67 anos, o acolhimento recebido pela equipe foi essencial para que ela se sentisse segura ao tomar a decisão. Após a morte do filho Juan, ela autorizou a doação, lembrando-se da forma como ele havia conduzido a própria vida. “Foi um momento de muita dor e tristeza, mas, ao saber que com sua partida ele poderia ajudar várias pessoas a viver, eu não tive dúvidas de dizer sim. E, certamente, era o que ele gostaria, porque a vida dele sempre foi ajudar outras pessoas”, relata.

Além das informações recebidas, a forma como foi acolhida pela equipe também marcou a experiência da família. “O acolhimento foi maravilhoso. Humano, amoroso, seguraram nas nossas mãos e nos acolheram. Tiraram nossas dúvidas e nos deram a segurança necessária para dizer sim”, acrescenta Aparecida. É justamente nessa proximidade com os familiares que se revela uma das dimensões mais importantes da atuação da CIHDOTT: informar sem pressionar, esclarecer dúvidas, oferecer segurança e respeitar o tempo e a decisão da família.


Um legado que continua

Para Michele, a experiência também ganhou uma forma de permanecer. Professora de musicalização infantil, cantora e compositora, ela transformou a experiência na canção Legado do Amor. “O processo de doação de órgãos fez a gente ressignificar o nosso luto. E por isso eu compus a música Legado do Amor. Sou musicista e passar por todo esse processo me inspirou a compor a canção”, conta. A obra nasceu de uma despedida que, para a família, também trouxe a possibilidade de outras vidas seguirem adiante.

Como parte das ações do Setembro Verde, o Hospital Universitário Cajuru realiza, no dia 25 de setembro, uma missa em homenagem aos doadores de órgãos e seus familiares. A celebração será no jardim do hospital, às 12 horas. A celebração será um momento de gratidão e reconhecimento às famílias que, mesmo diante da dor da perda, se solidarizam com a causa e autorizam o gesto nobre da doação de órgãos, contribuindo para que outras vidas possam continuar.

Para Lucimar, ampliar essa conversa é uma forma de fazer com que mais famílias conheçam a vontade de seus entes queridos e tenham mais segurança para decidir sobre a doação. “Uma única doação pode transformar e até salvar várias vidas. Por isso, falar sobre doação de órgãos é falar sobre esperança, amor e a possibilidade de continuar a vida por meio de outra pessoa. Ser doador é uma decisão que pode deixar um legado de vida.”

  

Hospital Universitário Cajuru

 

Saúde íntima: por que usar mais produtos não significa se cuidar melhor

Ginecologista explica que excesso de sabonetes, perfumes e duchas pode desequilibrar a flora vaginal em vez de protegê-la

 

Bucha, sabonete íntimo, lenços perfumados, desodorante específico, produto para antes, durante e depois da menstruação — a lista de itens vendidos para a "higiene íntima" só cresce, e é fácil acreditar que quanto mais produtos usados, melhor é o cuidado com o corpo. Mas, segundo a ginecologista Dra. Camila Bolonhezi, do Instituto Macabi, essa lógica não corresponde à forma como a saúde íntima realmente funciona.


"Será que a saúde íntima precisa mesmo de todos esses apetrechos? Na verdade, é meio mito achar que quanto maior a quantidade de produtos, melhor a gente está cuidando da nossa saúde íntima", afirma.


De acordo com a médica, a vulva e a vagina possuem mecanismos próprios de proteção e não dependem de rotinas elaboradas de skincare para se manterem saudáveis. "O que tenta se vender hoje é que a vulva e a vagina também precisam de um skincare, mas não é assim que funciona. A vulva não precisa de perfume para ser saudável. A vagina não precisa de produtos específicos para ficar limpa", explica.


A vagina abriga uma microbiota própria — a chamada flora vaginal —, responsável por mantê-la equilibrada e saudável. "A vagina tem uma microbiota própria, que é conhecida como flora vaginal, que mantém ela saudável. A gente costuma falar que ela é autolimpante", diz a ginecologista.


É justamente esse equilíbrio natural que pode ser comprometido pelo uso excessivo de produtos, fragrâncias ou pela prática de duchas internas. "Essa flora vaginal que todo mundo tem funciona como uma barreira natural contra infecções, contra bactérias, fungos, então ela deve ser preservada", ressalta. Segundo a médica, a higiene íntima deve se limitar à parte externa: "A higiene da saúde íntima é apenas por fora, na vulva, e quanto menor a quantidade de perfumes e produtos, menor a chance de algum evento adverso."


Quando esse cuidado é substituído por rotinas com múltiplos produtos — buchas, sabonetes diferentes e duchas vaginais —, o risco é o oposto do pretendido: em vez de proteger, a prática pode favorecer irritações, ressecamento, alterações no odor e quadros de disbiose vaginal, condição que também pode se manifestar sem sintomas aparentes.


A discussão reforça um ponto central sobre saúde íntima: mais produtos não significa mais cuidado. Entender os limites da higiene externa e respeitar o equilíbrio natural do organismo é o que, de fato, protege — e evita que uma tentativa de cuidado se transforme em desequilíbrio.



Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência alerta para deficiências que não são visíveis

Pacientes com Neuromielite Óptica podem apresentar perda visual, visão monocular, baixa visão, fraqueza motora, paralisia, fadiga e dor neuropática

 

O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado em 21 de setembro, reforça a importância da conscientização sobre inclusão, acessibilidade e garantia de direitos. A data também chama atenção para um aspecto ainda pouco compreendido: nem toda deficiência é perceptível visualmente. 

É o caso de muitos pacientes com Neuromielite Óptica (NMOSD), doença rara e autoimune que pode provocar surtos de neurite óptica, levando à perda visual, baixa visão ou visão monocular, além de fraqueza motora e, em casos mais graves, paralisia ou, sem tratamento correto, pode levar à morte. Os pacientes também podem conviver com fadiga crônica e dor neuropática, sintomas invisíveis que impactam diretamente a rotina, os estudos, o trabalho e a autonomia. 

A NMO Brasil, Associação Brasileira de Pacientes de Neuromielite Óptica e Doenças do seu Espectro, atua na conscientização sobre a doença e na defesa dos direitos dos pacientes. Para a presidente da entidade e paciente de NMO, Dani Americano, reconhecer as deficiências invisíveis é fundamental para combater o preconceito. 

"Uma pessoa pode estar aparentemente bem e, ainda assim, enfrentar limitações importantes. A fadiga, a dor e as alterações visuais nem sempre são percebidas por quem está ao redor. Por isso, falar sobre deficiência invisível também é falar sobre respeito, acolhimento e garantia de direitos", afirma.

 

Direitos e inclusão

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) garante direitos relacionados à acessibilidade, atendimento prioritário e combate à discriminação. Já a Lei nº 14.126/2021 reconhece a visão monocular como deficiência sensorial do tipo visual para todos os efeitos legais. 

No mercado de trabalho, a Lei de Cotas (Lei nº 8.213/1991) determina que empresas com 100 ou mais funcionários reservem de 2% a 5% de seus cargos para pessoas com deficiência ou trabalhadores reabilitados. Para quem possui uma deficiência invisível, porém, inclusão pode significar também garantir condições adequadas para permanecer e se desenvolver profissionalmente, com adaptações que podem incluir flexibilidade de horários, pausas ou trabalho remoto, conforme a necessidade individual. 

"O mais importante é que haja empatia e olhar acolhedor, ao invés de julgador. Não basta cumprir uma cota. É preciso oferecer condições para que a pessoa consiga trabalhar e tenha as mesmas oportunidades. Para alguém que convive com fadiga intensa, dor ou limitações visuais, uma adaptação simples pode fazer uma grande diferença", destaca Dani. 

Além disso, pessoas com deficiência que atendam aos critérios legais podem ter acesso a benefícios previdenciários e assistenciais, como a aposentadoria da pessoa com deficiência; o BPC/LOAS, benefício assistencial para quem comprovar incapacidade de prover a própria subsistência e renda familiar compatível; além de isenção de impostos (como IPI/IPVA para veículos adaptados ou PCD) e passe livre em transportes públicos (conforme legislação local/federal). 

"Quando a deficiência não é visível, existe o risco de o paciente precisar provar o tempo todo que enfrenta uma limitação. A conscientização ajuda a combater esse tipo de preconceito e a garantir que essas pessoas tenham seus direitos respeitados, com autonomia e dignidade", conclui a presidente da NMO Brasil.


Câncer infantil: tempo é decisivo no diagnóstico do neuroblastoma


Sintomas podem se confundir com doenças comuns da infância, o que pode atrasar a identificação da doença e o encaminhamento para um centro de referência 

Barreiras ao acesso oportuno ao diagnóstico e ao tratamento especializado ainda são desafios no tratamento do câncer infantojuvenil no Brasil

 

Tanto o diagnóstico quanto o tratamento do neuroblastoma, um dos tipos de câncer que podem acometer crianças, ainda enfrentam desafios no Brasil. Entre eles estão a demora na identificação da doença, o tempo e as dificuldades para que o paciente chegue a um centro de referência e o acesso limitado a tratamentos especializados. Nesse cenário, a agilidade em reconhecer os sinais, confirmar o diagnóstico e encaminhar a criança para atendimento especializado é fundamental, já que o início oportuno do tratamento pode aumentar as chances de cura. 

Entre os sinais que merecem atenção estão dores sem causa aparente, cansaço extremo, alterações no apetite, perda de peso repentina, aparecimento de nódulos ou aumento de volume em regiões como abdômen, pescoço ou tórax e sangramentos inexplicáveis, incluindo pelo nariz ou gengivas¹. A presença desses sintomas, isoladamente, não significa que a criança tenha câncer, mas pode indicar a necessidade de avaliação profissional. 

De acordo com a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE), Mariana Bohns Michalowski, a atenção aos sinais que persistem ou evoluem é importante para que o diagnóstico seja realizado adequadamente. “Como os sintomas do câncer infantil podem ser semelhantes aos de doenças comuns da infância, é importante observar a evolução do quadro e estar atento a mudanças que persistam, se agravem ou não apresentem uma explicação clara. Nesses casos, a avaliação médica é fundamental para investigar a causa e definir a melhor conduta para cada criança.”
 

Diagnóstico precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento
 

A identificação do câncer nas fases iniciais é um dos fatores que contribuem para melhores resultados no tratamento. Dependendo do tipo e das características da doença, podem ser utilizados recursos como quimioterapia, radioterapia, cirurgia e, em alguns casos, transplante de medula óssea. 

Os desafios relacionados à identificação precoce ficam evidentes no caso do neuroblastoma. Um levantamento realizado pelo Instituto Vidas Raras, com apoio da Adium, reforça a importância de ampliar a conscientização sobre a doença e seus sinais. Segundo o estudo, 65,1% das famílias precisaram consultar diversos médicos até chegar ao diagnóstico, o que evidencia a dificuldade de reconhecer os sinais iniciais do neuroblastoma. 

O estudo também mostra a complexidade do tratamento: em 90,7% dos casos, a doença foi classificada como de alto risco, demandando tratamentos intensivos e prolongados. Embora a maioria dos diagnósticos tenha ocorrido em até um ano após o surgimento dos primeiros sintomas, o processo pode ser marcado por impactos emocionais importantes. Quase metade das famílias relatou sentimentos de angústia, medo e desespero como principal impacto emocional após a confirmação da doença. 

O acompanhamento também permanece importante depois do tratamento inicial. Algumas crianças podem apresentar recidivas ou efeitos colaterais de longo prazo, tornando o seguimento médico parte relevante do cuidado. O suporte psicológico à criança e à família também pode contribuir para lidar com os impactos emocionais relacionados ao diagnóstico e ao tratamento.


 Adium


Referências:
1.Sociedade Brasileira de Pediatria. Disponível em: Link


Alzheimer: sobrecarga também afeta a saúde de quem cuid

Freepix
No Dia Mundial do Alzheimer (21/09), neurologista alerta para os sinais de esgotamento e reforça a importância de dividir responsabilidades 


O diagnóstico de Alzheimer muda a vida de toda a família. Além de acompanhar a progressão da doença, familiares e cuidadores assumem novas responsabilidades e, muitas vezes, precisam conciliar o cuidado com o trabalho, a família e a vida pessoal. No Dia Mundial do Alzheimer, celebrado em 21 de setembro, o alerta se estende a quem acompanha o paciente: o cuidador também precisa de atenção e apoio. 

O tema aparece na sexta temporada de Sessão de Terapia, exibida neste ano pelo Globoplay. Morena, personagem interpretada por Alice Carvalho, enfrenta a sobrecarga provocada pelo diagnóstico de Alzheimer do pai. Além das responsabilidades financeiras e emocionais, ela precisa lidar com o impacto da doença na própria rotina, com sentimentos como culpa e medo e com o dilema de decidir se deve ou não interná-lo. 

A situação retratada na série faz parte da realidade de muitas famílias. Um levantamento da Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz), realizado com 109 cuidadores no Brasil, mostrou que 26% dos entrevistados apresentavam sintomas leves de depressão e ansiedade, 25% tinham sintomas moderados e outros 25%, sintomas graves. A pesquisa também apontou que 78% mudaram suas atividades profissionais por causa do cuidado, 30% reduziram a jornada de trabalho e 18% deixaram o emprego. 

A sobrecarga física e emocional tende a crescer à medida que a doença avança e exige mais horas de dedicação. A rotina pode incluir auxílio no banho, na alimentação, na troca de roupas e em outras atividades cotidianas, além de supervisão constante. Mudanças de comportamento, dificuldades de comunicação e perda progressiva de autonomia também podem aumentar as demandas sobre quem acompanha o paciente. 

Doença neurodegenerativa progressiva, o Alzheimer é a forma mais comum de demência e responde por 60% a 70% dos casos no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A condição pode comprometer a memória, a linguagem, a orientação, o raciocínio e a capacidade de realizar atividades cotidianas. Com isso, a rede de apoio passa gradualmente a assumir novas funções. 

Para o neurologista e coordenador da Neurologia do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), Leonardo de Deus, é preciso reconhecer quando o cuidado começa a ultrapassar os limites de quem assumiu essa responsabilidade. “O cuidador muitas vezes entra nesse papel por amor e pela necessidade de ajudar, mas pode acabar deixando a própria vida em segundo plano. Quando isso acontece por muito tempo, o desgaste físico e emocional pode se acumular. É importante entender que cuidar de alguém não significa deixar de cuidar de si”, alerta o especialista. 

Exaustão constante, alterações no sono, irritabilidade, isolamento social, abandono da própria saúde e sentimentos frequentes de culpa, angústia, tristeza ou desesperança estão entre os principais sinais de sobrecarga. Essas manifestações não devem ser tratadas como uma consequência inevitável da rotina de cuidado. “Quando o cuidador deixa de dormir bem, começa a se irritar com frequência, abandona consultas ou atividades que antes faziam parte da sua vida e passa a se sentir constantemente culpado ou sem esperança, é hora de olhar para essa situação com atenção. Esses sinais mostram que aquela pessoa também precisa de cuidado e, muitas vezes, de ajuda profissional”, explica Leonardo de Deus. 

Os dados da Febraz mostram a dimensão dessa necessidade: entre os cuidadores entrevistados, 93% apontaram precisar de apoio emocional e 92%, de ajuda prática no dia a dia. As mulheres representavam 80% da amostra. A predominância feminina no cuidado também aparece nos dados da OMS. As mulheres são responsáveis por aproximadamente 70% das horas dedicadas a pessoas que vivem com demência. Em todo o mundo, familiares e outras pessoas próximas oferecem, em média, cinco horas diárias de cuidado e supervisão. 

Uma das formas de reduzir essa sobrecarga, segundo o neurologista, é descentralizar o cuidado, distribuindo tarefas entre familiares e outras pessoas da rede de apoio. “Ninguém consegue, nem deve, carregar o peso do Alzheimer sozinho. É fundamental descentralizar o cuidado. Isso significa envolver outros membros da família para dividir tarefas, sejam elas financeiras, burocráticas ou relacionadas ao acompanhamento direto. Quando possível, também é importante buscar cuidadores profissionais e grupos de apoio. Pedir e aceitar ajuda não é sinal de falha, mas de responsabilidade com a segurança de todos”, pontua o neurologista do Vera Cruz Hospital. 

Reservar tempo para o descanso, manter atividades pessoais, acompanhar a própria saúde e buscar apoio psicológico quando necessário também devem fazer parte dessa rotina. “O autocuidado não é egoísmo; é uma necessidade. O cuidador precisa preservar a própria identidade para além desse papel, ter momentos de descanso e cuidar da saúde física e mental. A lógica é semelhante à orientação de segurança de um avião: primeiro coloque a máscara de oxigênio em você para depois conseguir ajudar o outro. Um cuidador adoecido também terá mais dificuldade para oferecer um cuidado seguro e afetuoso”, afirma. 

Leonardo de Deus reforça que a atenção à saúde do cuidador deve ser incorporada à estratégia de acompanhamento do paciente. “Quando falamos de Alzheimer, não podemos olhar apenas para o paciente. Existe uma família que também precisa ser orientada, acolhida e preparada para as mudanças que podem acontecer. Cuidar de quem cuida também faz parte do tratamento e contribui para que esse processo seja mais seguro e saudável para todos”, conclui.

 

Vera Cruz Hospital

 

O que os pais e responsáveis precisam saber sobre a fertilidade de meninas com Síndrome de Turner

Estudo publicado em 2026 mostra que a reserva ovariana pode variar entre meninas com a condição e reforça a importância de um acompanhamento individualizado desde cedo


Receber o diagnóstico de Síndrome de Turner pode trazer muitas dúvidas para as famílias. A condição, relacionada ao cromossomo X, tem incidência estimada entre 1 caso a cada 1.000 e 2.500 meninas nascidas vivas, segundo a Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH).. Além das questões relacionadas ao crescimento e à puberdade, uma preocupação que pode surgir é a fertilidade. Afinal, a condição significa que a menina não poderá ser mãe no futuro?Não necessariamente.

A Síndrome de Turner pode afetar a função dos ovários, mas o impacto varia de uma paciente para outra. Por isso, especialistas destacam a importância de avaliar cada caso e discutir as possibilidades reprodutivas no momento adequado.Um estudo publicado em 2026 no Journal of Ovarian Research reforça essa diferença entre as pacientes. Pesquisadores avaliaram meninas e jovens com diferentes alterações cromossômicas associadas à Síndrome e observaram que aquelas com mosaicismo 45,X/46,XX apresentaram níveis mais elevados do hormônio antimülleriano (AMH), um dos indicadores utilizados na avaliação da reserva ovariana, em comparação com participantes com cariótipo 45,X.

O trabalho também identificou diferenças na presença de folículos ovarianos entre os grupos. Um dado chamou atenção: folículos foram identificados em 91,7% das participantes, mas a quantidade estimada caiu com o avanço da idade.“O tipo de alteração cromossômica, identificado pelo cariótipo, ajuda a entender como a Síndrome de Turner pode afetar a função ovariana, mas essa informação não deve ser analisada isoladamente. Outros indicadores da atividade dos ovários e o acompanhamento ao longo do desenvolvimento também são importantes”, explica a Fernanda Soardi, consultora em genética e genômica do Lustosa, marca da Dasa em Minas Gerais.



O que isso significa para os pais e responsáveis?

Para as famílias, um ponto importante é entender que a Síndrome de Turner não significa automaticamente infertilidade. A condição pode se manifestar de diferentes formas, inclusive em relação à atividade dos ovários.Exames e avaliações médicas podem ajudar a identificar a atividade ovariana e, em casos selecionados, orientar a discussão sobre estratégias para preservar a fertilidade.Toda mulher passa por uma redução da reserva ovariana, mas as meninas com Turner podem passar por este processo de forma mais acelerada.

Quando os exames mostram que ainda existe atividade dos ovários, esse é um dado que merece ser acompanhado, porque pode ajudar a definir o melhor momento para discutir estratégias de preservação da fertilidade. Não significa que todas as meninas pacientes precisarão passar por algum procedimento. Essa decisão depende de fatores como idade, cariótipo, características clínicas e resultados dos exames”, afirma Gustavo Guida, geneticista da Dasa Genômica e do laboratório Sérgio Franco, no Rio de Janeiro.



Adolescência pode ser um momento importante para o diagnóstico

Embora a Síndrome de Turner possa ser investigada ainda durante a gestação, algumas meninas chegam à infância ou à adolescência sem diagnóstico quando os sinais são mais discretos ou não foram associados inicialmente à condição.“Durante a gestação. uma das opções é o NIPT ampliado, teste pré-natal não invasivo realizado a partir de uma amostra de sangue materno, que pode rastrear alterações dos cromossomos sexuais, incluindo aquelas associadas à condição.

Na adolescência, questões relacionadas ao crescimento e ao desenvolvimento puberal podem chamar mais atenção dos pais e dos médicos. Baixa estatura ou crescimento abaixo do esperado, atraso ou ausência da puberdade e ausência da primeira menstruação estão entre os sinais que podem levar à investigação”, explica Fernanda Soardi.Determinadas alterações cardíacas ou renais também podem contribuir para a investigação.

A confirmação pode envolver o cariótipo, exame que permite avaliar o número e a estrutura dos cromossomos.“Para os pais, começar esse acompanhamento cedo não significa que todas as complicações irão acontecer nem que decisões precisam ser tomadas imediatamente. O objetivo é observar o desenvolvimento da filha e identificar, no momento adequado, quais cuidados ou avaliações podem ser necessários”, reforça Guida.



Síndrome de Turner em resumo

  • É uma alteração genética relacionada ao cromossomo X.
  • Pode afetar crescimento e desenvolvimento puberal.
  • A função ovariana pode variar entre as pacientes.
  • O diagnóstico não significa necessariamente infertilidade.
  • A avaliação da função ovariana deve ser individualizada.
  • Em casos selecionados, pode ser possível discutir estratégias de preservação da fertilidade.
  • O acompanhamento médico deve começar o mais cedo possível e seguir ao longo da vida.

 

Referências

  1. Du J, et al. Karyotype-based evaluation of ovarian reserve before ovarian tissue cryopreservation in Turner syndrome patients. Journal of Ovarian Research. 2026.
  2. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Turner. Atualizado em 2025.
  3. Bedei I, et al. Non-Invasive Prenatal Testing by Cell-Free DNA (cfNIPT) for Detecting Turner Syndrome With Mosaicism and Structural Variants – Prenatal Findings and Postnatal Outcomes. American Journal of Medical Genetics Part C. 2025.
  4. https://sbrh.org.br/comite/ginecologia/sindrome-de-turner-diagnostico-e-avaliacao-complementar/

Dia Mundial do Alzheimer: Brasil poderá ter 5,6 milhões de pessoas com demência até 205

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 45% dos riscos de demência estão associados a fatores modificáveis; especialista da NeuronUP explica como cuidar da saúde cognitiva 

 

O Dia Mundial do Alzheimer, celebrado em 21 de setembro, coloca em evidência um desafio presente no país e no mundo, o número de casos demência - condição progressiva que afeta a memória, o pensamento, o comportamento e a capacidade de realizar tarefas diárias - que vem crescendo em todo o mundo e deve aumentar no Brasil nas próximas décadas. De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), 57 milhões de pessoas vivem com essa síndrome em todo o globo. E ainda, a cada ano, são 10 milhões de novos casos. O Alzheimer é a forma mais comum da condição e pode representar entre 60% e 70% dos casos.

 

No Brasil, o cenário chama atenção. De acordo com o Relatório Nacional sobre a Demência: epidemiologia, (re)conhecimento e projeções futuras, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 8,5% dos brasileiros com 60 anos ou mais convivem com demência, o equivalente a aproximadamente 2,71 milhões de pessoas. As projeções indicam que esse número poderá chegar a 5,6 milhões em 2050.

 

Embora fatores como idade, predisposição genética e histórico familiar tenham influência importante e não possam ser alterados, existem aspectos relacionados ao estilo de vida e às condições de saúde que podem ser controlados e modificados. “Uma pessoa pode levar um estilo de vida saudável e ainda assim desenvolver Alzheimer. Mas isso não significa que nossos hábitos sejam irrelevantes. Podemos, sim, agir sobre determinados fatores para reduzir a probabilidade de declínio cognitivo e cuidar melhor da nossa saúde cerebral”, explica Martha Valeria Medina, neuropsicóloga da startup espanhola de neurorreabilitação NeuronUP.

 

O que está ao nosso alcance?

 

A OMS reforça que até 45% dos riscos de demência podem ser atribuídos a fatores modificáveis. Entre eles estão o sedentarismo, o tabagismo, a hipertensão, o diabetes, a obesidade, o consumo excessivo de álcool, o isolamento social e perdas auditivas e visuais não tratadas. Já idade, histórico familiar e predisposição genética estão entre os aspectos que não podem ser alterados.

 

“Ter predisposição genética pode aumentar a probabilidade de desenvolver a doença, mas não determina necessariamente que seu surgimento seja inevitável. Pelo contrário, é especialmente importante adotar medidas que contribuam para a saúde cerebral”, afirma Martha.

 

Para a especialista, o cuidado com a saúde cerebral deve ser construído ao longo da vida. “O importante é entender que nunca é tarde demais para agir sobre aqueles fatores que podemos modificar. Manter-se ativo física, cognitivamente e socialmente continua sendo relevante também em idades avançadas”, explica.

 

Por que a memória recente costuma ser afetada primeiro?

 

O Alzheimer não compromete todos os tipos de memória da mesma maneira. A memória episódica, responsável por registrar acontecimentos pessoais e experiências recentes, está entre as funções que costumam apresentar dificuldades mais cedo, especialmente na incorporação de novas informações.

 

Isso ajuda a explicar por que uma pessoa pode se lembrar com detalhes de um acontecimento ocorrido há décadas, mas esquecer o que fez naquela manhã ou repetir uma pergunta poucos minutos depois.

 

“O café da manhã de hoje é uma experiência recente que ainda precisa ser atendida, processada e consolidada para se transformar em uma lembrança duradoura. Já uma lembrança da infância está sendo consolidada, recordada e relacionada a outras experiências há décadas e, por isso, costuma resistir por mais tempo”, diz Martha.

 

Estimulação cognitiva e autonomia

 

Para quem convive com Alzheimer, a estimulação cognitiva, possibilitada por ferramentas como a NeuronUP, pode contribuir para manter determinadas capacidades, favorecer a autonomia e ajudar a pessoa a continuar envolvida em atividades significativas. A prática, no entanto, não interrompe a neurodegeneração nem recupera funções cognitivas que já foram afetadas.

 

Atividades do cotidiano, como cozinhar, conversar, ouvir música, organizar fotografias, cantar músicas conhecidas, cuidar de plantas ou realizar tarefas familiares, também podem estimular simultaneamente atenção, linguagem, memória, habilidades procedimentais e emoções.

 

“A ideia não é apenas treinar uma memória que apresenta dificuldades, mas ajudar a pessoa a manter sua autonomia e continuar realizando suas atividades cotidianas com a melhor qualidade de vida possível”, conclui Valeria Medina.

 

Três hábitos para cuidar da saúde cerebral

 

Segundo Martha, hábitos saudáveis não garantem que uma pessoa não vá desenvolver Alzheimer, mas fazem parte de um estilo de vida associado a melhor saúde cerebral e menor probabilidade de declínio cognitivo e demência. Neste contexto, a neuropsicóloga da NeuronUP traz recomendações de ações que podem ajudar a manter a saúde cognitiva. Confira:

 

1. Manter-se fisicamente ativo: Praticar atividade física regularmente, combinando exercícios aeróbicos e de força e reduzindo o tempo de sedentarismo.

 

2. Estimular o cérebro: Aprender coisas novas, ler, resolver problemas matemáticos, estudar um idioma, tocar um instrumento ou realizar atividades que representem um desafio mental.

 

3. Preservar vínculos sociais: Conversar, compartilhar atividades, manter relações significativas e evitar o isolamento social.


NeuronUP


Posts mais acessados