Os sinais podem aparecer décadas antes da perda de
memória. Exames de imagem, sangue ou líquor são estratégias para a investigação
precoce
As
primeiras alterações cerebrais associadas ao Alzheimer podem começar ao final
dos 50 anos de idade, cerca de duas décadas antes do diagnóstico de demência,
segundo estudo publicado em abril de 2026 pela Mayo Clinic, um dos maiores
centros de pesquisa médica dos Estados Unidos, na revista científica Alzheimer's
& Dementia: The Journal of the Alzheimer's Association. A descoberta dá
contexto ao tema da Campanha Mundial do Alzheimer de 2026, definido pela
Alzheimer’s Disease International como “Quanto antes você sabe, mais você pode
fazer: um diagnóstico de demência importa”, segundo o qual o diagnóstico
precoce amplia as opções de tratamento e cuidado disponíveis para o paciente e
a família.
O
levantamento acompanhou 2.082 participantes do Estudo da Mayo Clinic sobre
envelhecimento, cruzando biomarcadores de sangue, exames de imagem cerebral e
testes de desempenho cognitivo ao longo do tempo. Nesse grupo, o desempenho
cognitivo já mostra queda mensurável antes dos 60 anos. O acúmulo da proteína
beta-amiloide, que forma as placas encontradas no cérebro de quem tem
Alzheimer, acelera ao longo da década seguinte. Os marcadores da proteína tau,
responsável pelos emaranhados que danificam os neurônios, alcançam junto com a
atrofia cerebral e a perda de neurônios em regiões ligadas à memória os níveis
mais pronunciados entre o fim dos 60 e os 70 anos, justamente o período em que
os primeiros sintomas costumam aparecer.
“Um
esquecimento pontual, como não lembrar onde deixou as chaves, faz parte do
envelhecimento normal. O que preocupa é quando o esquecimento passa a
atrapalhar tarefas que a pessoa sempre soube fazer sozinha, como pagar contas,
seguir uma receita ou se orientar em um trajeto conhecido”, diz Lívia Avallone,
patologista clínica dos laboratórios Delboni e Lavoisier, marcas da Dasa em São
Paulo, líder em medicina diagnóstica no Brasil.
Os sinais que costumam aparecer primeiro
O
Ministério da Saúde estima que 1,2 milhão de brasileiros vivem hoje com alguma
forma de demência, com 100 mil novos casos diagnosticados por ano. Conheça dez
sinais de alerta que ajudam familiares e profissionais de saúde a diferenciar o
esquecimento comum de um quadro neurodegenerativo.
1.
Esquecimentos que atrapalham tarefas do dia a dia, não um lapso ocasional
2.
Dificuldade para planejar ou concluir etapas de uma tarefa antes simples, como
preparar uma refeição
3.
Confusão com datas, estações do ano ou tempo decorrido
4.
Desorientação em lugares conhecidos, incluindo o próprio bairro
5.
Dificuldade para encontrar palavras ou acompanhar uma conversa
6.
Trocar objetos de lugar sem conseguir refazer os passos para encontrá-los
7.
Piora do julgamento em decisões financeiras ou de cuidado pessoal
8.
Afastamento de atividades sociais, profissionais ou de lazer
9.
Mudanças de humor e de personalidade
10.
Perda de iniciativa para atividades que antes despertavam interesse
O
critério clínico é a combinação de sintomas persistentes, que evoluem ao longo
de meses e comprometem a autonomia da pessoa. Para essa avaliação, é importante
consultar um médico.
A
investigação começa pela avaliação clínica, não pelo exame. Um geriatra ou
neurologista entrevista o paciente e um familiar próximo, aplica testes
cognitivos padronizados e busca causas reversíveis de declínio cognitivo antes
de considerar hipóteses neurodegenerativas.
“Antes
de pensar em Alzheimer, o médico precisa descartar outras causas que também
afetam a memória e o raciocínio, como hipotireoidismo, deficiência de vitamina
B12, depressão ou efeito de medicamentos. Os exames de sangue entram na etapa
de exclusão, antes de qualquer exame de imagem”, diz Avallone.
Quais exames ajudam a detectar a doença
Quando
a suspeita de Alzheimer se mantém após a avaliação inicial, a ressonância
magnética do crânio costuma ser o primeiro exame de imagem, usada para
verificar o padrão de atrofia cerebral e descartar tumores, AVCs ou outras
lesões que expliquem os sintomas.
O
PET-CT, exame que usa marcadores para visualizar as placas de proteína
beta-amiloide ou o metabolismo cerebral, fica reservado para casos em que o
diagnóstico segue incerto, pacientes mais jovens ou quadros atípicos, porque
tem custo mais alto e menor disponibilidade fora dos grandes centros.
Também
temos o exame de sangue que mede a proteína p-tau217, ligada às placas
amiloides e aos emaranhados de tau característicos do Alzheimer. Em maio de
2025, a agência regulatória norte-americana FDA autorizou o primeiro teste do
tipo, o Lumipulse G pTau217/β-Amyloid 1-42 Plasma Ratio. Em um estudo com quase
500 pessoas com comprometimento cognitivo leve, o resultado positivo coincidiu
com PET amiloide ou líquor alterado em 91,7% dos casos, e o resultado negativo
coincidiu com exames normais em 97,3% dos casos. Aprovado para adultos a partir
de 55 anos com sintomas cognitivos, o teste chegou na rede privada de saúde,
mas não substitui a avaliação clínica nem é indicado para quem não apresenta
sintomas.
"O
diagnóstico abre acesso a medicamentos que atuam nas fases iniciais da doença,
à participação em pesquisas clínicas e ao tempo necessário para organizar
decisões financeiras e de cuidado enquanto o paciente ainda consegue participar
delas”, diz Lívia que também completa: “Hoje, sabemos que a redução do risco de
demência também está associada ao controle de pressão arterial, diabetes e
colesterol, à prática de ao menos 150 minutos de atividade física por semana,
ao sono regular e à manutenção de vínculos sociais e de atividades que
estimulem a cognição”.
Referências bibliográficas:
• Hu, M. et al. “Breakpoints in Alzheimer’s disease biomarkers and cognition across the aging spectrum: The Mayo Clinic Study of Aging.” Link
• Jack Jr., C.R. et al. “Revised criteria for diagnosis and staging of Alzheimer’s disease.” Link
• FDA. “FDA Clears First Blood Test Used in Diagnosing Alzheimer’s Disease.” Maio de 2025. Link
• Alzheimer’s Disease International. “World Alzheimer’s Month 2026.” Link
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