Uma
a cada cinco crianças e adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos foi vítima de
exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em um período de
apenas um ano. São cerca de 3 milhões de meninas e meninos. O dado faz parte do
estudo Disrupting Harm in Brazil, realizado pelo UNICEF, ECPAT
International e INTERPOL, com trabalho de campo entre novembro de 2024 e março
de 2025.
A
dimensão dos riscos também aparece na TIC Kids Online Brasil 2025, pesquisa
domiciliar realizada pelo Cetic.br, departamento do Núcleo de Informação e
Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Em sua 12ª edição, entrevistou 2.370 crianças
e adolescentes de 9 a 17 anos, além de seus pais ou responsáveis, entre março e
setembro de 2025. A pesquisa acompanha o uso da internet e os riscos e
oportunidades encontrados nesse ambiente.
Os
resultados são preocupantes. 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a
17 anos são usuários de internet, e 21% dos adolescentes disseram ter sofrido
algum tratamento ofensivo on-line. Entre 30% e 35% relataram contato com
conteúdos prejudiciais relacionados à automutilação, discriminação ou violência
extrema. Na área sexual, quase 15% receberam mensagens sexuais indesejadas e
16% tiveram contato com conteúdo sexual sem consentimento.
Esses
números mostram por que falar sobre segurança digital nas escolas deixou de ser
uma opção. É uma necessidade.
E
casos recentes demonstram a importância de preparar professores e criar
ambientes em que crianças e adolescentes se sintam seguros para falar.
Em
setembro de 2026, em Ponta Grossa, no Paraná, uma adolescente de 13 anos
entregou uma carta à professora pedindo ajuda. No documento, relatou abusos
sexuais e maus-tratos. A equipe pedagógica acionou a rede de proteção e a
Polícia Civil, que prendeu os adultos investigados.
Em
abril de 2026, em Aparecida de Goiânia, Goiás, uma adolescente de 13 anos
procurou a escola e relatou aos professores que sofria violência sexual dentro
de casa. A direção acionou o Conselho Tutelar, e o caso foi encaminhado às
autoridades.
Há
ainda um caso particularmente emblemático. Em 2022, em Trindade, Goiás, uma menina
de 7 anos revelou à professora que sofria abuso sexual praticado pelo padrasto
durante uma palestra realizada na escola sobre prevenção à violência sexual,
dentro da campanha Maio Laranja. O relato levou à investigação e à prisão
preventiva do padrasto.
Esses
episódios mostram que a escola pode ser o lugar onde o silêncio é rompido.
Crianças
e adolescentes precisam aprender a reconhecer os perigos da internet e saber
que podem procurar um adulto de confiança quando alguma situação provocar medo,
vergonha ou constrangimento. E os professores precisam estar preparados para
reconhecer sinais de alerta e, principalmente, para ouvir.
Os
riscos estão nas redes sociais, nos aplicativos de mensagens e também nos
ambientes ligados aos jogos on-line. O Discord, por exemplo, permite conversas
por texto e voz, mensagens privadas e a criação de comunidades, inclusive
fechadas. O próprio serviço reconhece riscos relacionados a aliciamento,
sextorsão e exploração sexual de menores. Ambientes desse tipo exigem atenção
porque podem dificultar que pais e professores saibam com quem crianças e
adolescentes estão conversando e quais conteúdos estão sendo compartilhados.
É
preciso falar sobre cyberbullying, desafios perigosos, aliciamento, exposição
de imagens, contatos com desconhecidos, pedidos de fotografias íntimas,
violência sexual e conteúdos que estimulam violência ou automutilação.
Mas
não basta dizer ao aluno: "não faça isso".
É
preciso explicar por quê, ensinar a reconhecer uma tentativa de manipulação e
mostrar a quem recorrer.
E,
quando um aluno disser "preciso conversar com você", o professor
precisa estar preparado para ouvir.
Não
para substituir psicólogos, policiais ou conselheiros tutelares, mas para
acolher, preservar a segurança do estudante e saber como acionar a rede de
proteção.
Por
isso, palestras e atividades de orientação nas escolas são importantes tanto
para os estudantes quanto para os educadores. Aos alunos, oferecem informação
para reconhecer situações de risco e procurar ajuda. Aos professores, oferecem
conhecimento para identificar sinais, acolher relatos e saber como agir.
A
internet continuará fazendo parte da infância e da adolescência. Precisamos
preparar nossas crianças e adolescentes para utilizá-la com conhecimento e
segurança e preparar aqueles que convivem diariamente com eles para reconhecer
quando alguma coisa está errada.
Educar
para o mundo digital também é proteger. E proteger começa pela informação, pela
prevenção e pela capacidade de ouvir.
Patrícia Silvestri - advogada constitucionalista, membra da Comissão de Defesa da Criança e do Adolescente da OAB-SP.
Nenhum comentário:
Postar um comentário