No Dia Internacional da Gratidão (21.09), pesquisa com mais de 10 mil pessoas em 34 países identifica benefícios da prática para a mente; especialista explica como cultivar o hábito na rotina
Praticada de forma consciente, a valorização dos aspectos
positivos da vida pode contribuir para o bem-estar emocional e direcionar a
atenção para experiências significativas. Um estudo internacional publicado na
revista científica PNAS, da Academia Nacional de
Ciências dos Estados Unidos, com mais de 10 mil pessoas em 34 países, incluindo
o Brasil, identificou efeitos positivos de diferentes estratégias para
estimular essa percepção, como aumento do otimismo e redução da inveja. Os
resultados, porém, variaram conforme a cultura e o tipo de atividade proposta.
Os achados reforçam a importância de entender essa prática não
apenas como uma atitude de gentileza, mas como uma forma de influenciar a
maneira como as pessoas percebem e interpretam suas experiências. Para a Dra.
Mariana Ramos, professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna,
esse mecanismo está relacionado justamente à ampliação do olhar sobre o que
está presente na vida. “Praticar a gratidão não significa fingir que está tudo
bem. A ideia é reconhecer também aquilo que funciona, que traz satisfação ou
que tem significado, mesmo quando estamos passando por momentos complicados.”
Segundo a especialista, essa perspectiva ajuda a explicar por que
diferentes exercícios de valorização e apreciação podem produzir efeitos sobre
aspectos como o otimismo. Ao direcionar deliberadamente a atenção para
experiências, relações e conquistas significativas, a pessoa pode passar a
perceber elementos que costumam ficar em segundo plano na rotina.
Valorização não é positividade tóxica
Embora a pesquisa tenha identificado efeitos favoráveis associados
às estratégias de valorização, os resultados também mostraram que o impacto
varia de acordo com a cultura e com a atividade realizada. Para a Dra. Mariana,
essa diferença reforça que a prática não deve ser tratada como uma fórmula
universal ou como uma obrigação. Em uma rotina marcada por cobranças,
comparações e pela busca constante por mais produtividade, reconhecimento,
dinheiro e experiências, valorizar o que se tem pode ser confundido com a
necessidade de enxergar sempre o lado positivo. Essa interpretação deve ser
evitada, já que a prática não precisa invalidar sentimentos ou experiências
individuais.
Valorizar o que já foi conquistado tampouco implica abandonar
ambições ou deixar de buscar mudanças. É possível desejar o que ainda não foi
alcançado e, ao mesmo tempo, perceber aquilo que já foi construído. Esse
processo também está relacionado à atenção. O cérebro recebe continuamente uma
grande quantidade de informações e seleciona o que ganha maior destaque. Quando
o foco permanece concentrado no que falta, pode surgir a sensação de que nunca
há o suficiente. “A gratidão ajuda a ampliar esse campo de visão e acrescentar
outra pergunta: ‘E o que já existe?’”, explica a professora.
Essa mudança de foco ajuda a compreender um dos possíveis caminhos
pelos quais a prática pode estar relacionada aos resultados observados no
estudo. Conquistas, relações e pequenos progressos que se tornaram habituais
podem voltar a ser percebidos, favorecendo uma avaliação mais ampla da própria
experiência. Do ponto de vista neuropsicológico, atenção, memória e emoção
estão relacionadas. Nesse sentido, identificar deliberadamente acontecimentos
positivos ou significativos pode envolver processos de atenção seletiva,
evocação de memórias autobiográficas e regulação emocional. A professora
ressalta, porém, que os resultados da pesquisa não significam que a prática
seja capaz de “reprogramar o cérebro” ou eliminar transtornos psicológicos. A
neuroplasticidade permite mudanças decorrentes de experiências
repetidas, mas seus efeitos dependem de fatores individuais e contextuais.
Valorizar também pode fortalecer relações
Demonstrar apreço e consideração também pode fortalecer vínculos e
ampliar a sensação de conexão, outro aspecto relacionado ao bem-estar
emocional. “Quando agradecemos alguém de maneira sincera, mostramos que aquela
pessoa ou aquele gesto teve importância para nós. Isso favorece a aproximação e
pode fortalecer relações que são importantes para o nosso bem-estar emocional”,
explica Dra. Mariana.
Segundo a especialista, ser específico ao agradecer torna a
comunicação mais significativa. Em vez de apenas dizer “obrigado por tudo”, é
possível explicar qual atitude teve impacto e por quê. Dessa forma, a pessoa
percebe que seu comportamento teve significado emocional, o que pode favorecer
proximidade, reciprocidade e fortalecimento dos vínculos.
A prática não substitui tratamento psicológico
Apesar dos efeitos identificados pela pesquisa, valorizar os
aspectos positivos da vida não deve ser transformado em obrigação nem
apresentado como solução para problemas de saúde mental. O exercício pode
funcionar como estratégia complementar de cuidado e promoção do bem-estar, mas
não substitui acompanhamento profissional. Quando há alterações persistentes
que afetam o trabalho, os estudos, os relacionamentos, o autocuidado ou a
qualidade de vida, é importante buscar avaliação profissional.
Dependendo do quadro, podem ser indicados acompanhamento
psicológico, avaliação médica ou psiquiátrica e outras intervenções específicas.
A profissional alerta ainda que atribuir dificuldades emocionais à falta de
apreciação ou positividade pode gerar culpa. Dessa forma, perceber aspectos
positivos da vida não elimina a necessidade de buscar ajuda quando ela é
necessária.
10 dicas de como cultivar a gratidão sem transformar o hábito em
obrigação
Os resultados da pesquisa indicam que diferentes estratégias podem
estimular a valorização de aspectos positivos da vida, mas também mostram que
seus efeitos variam conforme a atividade e o contexto. Por isso, segundo a
especialista da Afya Itaperuna, o mais importante é encontrar formas que façam
sentido para cada pessoa, sem transformar o exercício em uma nova cobrança.
Entre as possibilidades estão:
1. Anote três coisas
boas ou significativas do dia: podem ser acontecimentos simples, como uma
conversa agradável, uma refeição tranquila ou um momento de descanso.
2. Relembre algo
positivo antes de dormir: tente recuperar detalhes de uma experiência agradável
vivida durante o dia.
3. Agradeça alguém
de forma específica: explique o que a pessoa fez e por que aquela atitude foi
importante para você.
4. Valorize pequenas
conquistas: nem todo progresso precisa ser grandioso para ter valor.
5. Observe
experiências cotidianas: uma música, um café, uma conversa, o carinho de um
animal ou alguns minutos de silêncio também podem ser fontes de significado.
6. Envie uma
mensagem ou escreva uma carta de agradecimento: demonstre a alguém a
importância que essa pessoa teve ou tem em sua trajetória.
7. Valorize aquilo
que você fez por si mesmo: a prática não precisa estar direcionada somente a
outras pessoas.
8. Transforme o
apreço em comportamento: demonstre consideração por meio de presença, cuidado e
reciprocidade.
9. Valorize o
momento presente: prestar atenção ao que existe agora pode ajudar a perceber
recursos e habilidades desenvolvidos ao longo da vida.
10.
Evite transformar a prática em cobrança:
haverá dias em que será difícil encontrar algo pelo qual agradecer, e isso
também faz parte da experiência humana.

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