O médico ginecologista Dorval Tessari
explica o papel do produto na saúde vaginal, os cuidados na hora de usar e o
que dizem as sociedades médicas sobre o tema
Sabonete íntimo ainda divide opiniões entre as mulheres. Para uma
parte delas é item fixo no banho; para outra, um produto dispensável, já que a
higiene comum, com água e sabão, já é suficiente. E a dúvida faz sentido, já
que a região genital feminina tem características próprias, como PH.
Com agendamento disponível na plataforma Doctoralia, o ginecologista Dorval Tessari, que atende em Caxias do Sul (RS) e soma mais de quatro
décadas de consultório, separa o que é mito do que é verdade sobre o tema, com
base em recomendações da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e
Obstetrícia (Febrasgo) e em estudos publicados sobre o assunto.
1. Sabonete de banho comum pode substituir o sabonete íntimo
- Mito
A vagina tem pH naturalmente ácido, entre 3,8 e 4,5, faixa que
favorece os lactobacilos, bactérias que protegem a região contra infecções.
Sabonetes de banho costumam ter pH alcalino, entre 8 e 10. “Usar esse tipo de
produto na região desequilibra a microbiota local e deixa a região mais
vulnerável a corrimento e irritação”, diz Tessari. O Manual de Orientação em
Patologia do Trato Genital Inferior, da Febrasgo, recomenda produtos que
respeitem o pH da região e evitem fórmulas perfumadas ou irritantes.
2. Ducha vaginal ajuda a higienizar por dentro - Mito
A vagina se limpa sozinha, por meio da secreção natural. Com base
em diretrizes internacionais - o próprio manual da Febrasgo cita recomendação
do ACOG, Colégio Norte-Americano de Obstetrícia e Ginecologia, a entidade
desaconselha duchas vaginais tanto para prevenção quanto para tratamento de
infecções. “Introduzir água ou qualquer solução dentro do canal vaginal retira
a proteção natural e pode até empurrar bactérias para regiões mais internas”,
explica o ginecologista. O sabonete íntimo, reforça ele, é para uso externo, na
vulva. Nunca deve ser inserido.
3. Sabonete íntimo errado pode causar corrimento - Verdade
Uma revisão publicada em 2020 na Revista Multidisciplinar de
Educação e Meio Ambiente associou o uso excessivo de sabonetes bactericidas à
redução dos lactobacilos e à proliferação da Gardnerella vaginalis, bactéria
ligada à vaginose bacteriana. Os sintomas descritos no estudo incluem
corrimento com odor, coceira e ardor. O problema geralmente está em produtos
com ação antisséptica forte ou perfume em excesso, não no sabonete íntimo em
si. “O ideal é escolher fórmulas suaves, sem álcool e sem fragrância forte,
usadas uma vez ao dia”, afirma o ginecologista.
4. Produto perfumado limpa melhor e dá mais sensação de
frescor - Mito
Evite sabonetes e cremes perfumados na região vulvovaginal, porque
fragrâncias e conservantes aumentam o risco de alergia e irritação da mucosa.
“A sensação de frescor não indica limpeza. Muitas vezes é justamente esse tipo
de produto que deixa a região ardida e vermelha depois”, diz Dorval.
5. Sabonete íntimo só é necessário para quem já tem infecção
- Mito
O uso é preventivo e faz parte da rotina de higiene, não um
tratamento. Segundo Tessari, um produto com pH compatível com a região (entre
3,5 e 5, aproximadamente) ajuda a manter o equilíbrio da microbiota mesmo sem
sintoma nenhum. Quem já tem infecção ativa deve procurar orientação médica:
sabonete não trata vaginose, candidíase ou outras infecções.
6. Toda mulher deve usar o mesmo produto, da mesma forma, a
vida inteira - Mito
A mucosa vulvovaginal muda com a idade e as fases hormonais. Na
puberdade, na gravidez e principalmente na menopausa, quando a produção de
estrogênio cai, a região fica mais seca e mais sensível. Tessari, que também
atua na área de climatério e reposição hormonal, lembra que mulheres na
menopausa costumam precisar de produtos ainda mais suaves, e às vezes de
hidratante vaginal complementar, sempre com indicação médica. “A pele muda, e o
cuidado precisa acompanhar essa mudança”, diz.
7. O sabonete íntimo deve ser usado só na parte externa,
nunca dentro do canal vaginal - Verdade
Aqui não há controvérsia. O produto deve ser aplicado apenas na
vulva, com as mãos - nunca com bucha ou esponja - e bem enxaguado. A
recomendação da Febrasgo e a prática médica coincidem: a parte interna da
vagina não deve receber sabonete, ducha ou qualquer substância além do que o
próprio corpo produz.
Como
higienizar a região íntima corretamente, segundo o ginecologista
- Lave apenas a vulva, a parte externa. Nunca o interior da
vagina.
- Use as mãos, não esponjas ou buchas, que podem causar
microlesões.
- Prefira produtos com pH entre 3,5 e 5, sem fragrância forte e
sem álcool.
- Enxágue bem e seque a região com toalha limpa, sem esfregar.
- Evite duchas vaginais e sabonetes com ação bactericida
agressiva sem indicação médica.
- Diante de corrimento, odor ou coceira persistente, o caminho
é consultar um ginecologista antes de trocar de produto por conta própria.
Alteração persistente de odor, cor ou quantidade da secreção pede avaliação
médica. Sabonete íntimo ajuda na rotina, mas não substitui consulta com
ginecologista.
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