Pesquisa aponta risco de progressiva atrofia das capacidades cognitivas humanas
A tecnologia vem sendo celebrada como uma das maiores revoluções da história do trabalho. No entanto, pesquisadores começam a chamar atenção para um efeito colateral pouco discutido: o risco de uma progressiva atrofia das capacidades cognitivas humanas.
Esse fenômeno, que
começa a ser descrito internacionalmente como "brain fry" — uma
espécie de esgotamento mental provocado pela terceirização contínua do
pensamento — ganha relevância à medida que profissionais passam a delegar à
inteligência artificial atividades que antes exigiam análise, reflexão e
criatividade.
Na pesquisa
desenvolvida na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), o doutor em
engenharia organizacional Rodrigo de Barros defende que criatividade e inovação
dependem diretamente do exercício contínuo das capacidades humanas de
aprendizagem, reflexão e construção de novas conexões entre conhecimentos
distintos. “Quando esses processos deixam de ser exercitados, existe o risco de
empobrecimento cognitivo, reduzindo justamente as competências que diferenciam
pessoas das máquinas”, diz.
Segundo o
palestrante e pesquisador, a inteligência artificial representa um avanço
extraordinário, mas seu uso indiscriminado pode produzir um paradoxo. Quanto
mais as ferramentas assumem tarefas intelectuais, menor pode ser o esforço
cognitivo realizado pelos profissionais.
“É um processo
semelhante ao observado com tecnologias físicas ao longo da história.
Elevadores reduziram a necessidade de subir escadas. Calculadoras diminuíram o
hábito de realizar operações matemáticas mentalmente. GPS reduziu
significativamente nossa capacidade de orientação espacial. Agora, pela
primeira vez, uma tecnologia começa a substituir atividades relacionadas ao
pensamento complexo”, afirma.
A tese resultou na
criação de um protótipo de Sistema Web MACI, que permite realizar diagnósticos
automatizados e recomendar intervenções para o RH e lideranças. “Faço
palestras com as maiores empresas do Brasil e toda semana ouço relatos de falta
de inovação. Empresas com processos criativos bem estruturados faturam até 2,4
vezes mais, já identificaram pesquisas internacionais”, diz.
A pesquisa
analisou um portfólio inicial de 1004 artigos científicos globais. Através de
critérios, a pesquisa filtrou os 101 artigos mundiais de maior impacto (estado
da arte) para construir o modelo.
“Sempre que o
sistema identifica um componente com nota baixa (abaixo de 3,5), ele cruza os
dados com a literatura científica e recomenda intervenções precisas e
personalizadas para o RH e para a liderança atuarem”, afirma o pesquisador.
A consequência
pode ser mais profunda do que parece. Segundo ele, criatividade não surge de
maneira espontânea. Ela é resultado de um processo contínuo de aprendizagem,
memória, experimentação, comparação de ideias e elaboração intelectual. “A
pesquisa demonstra que produzir soluções originais depende da capacidade de
combinar conhecimentos acumulados ao longo da vida, estabelecer conexões
inesperadas e reinterpretar problemas sob diferentes perspectivas”, comenta.
Quando um
profissional passa a recorrer automaticamente à inteligência artificial para
responder perguntas, estruturar argumentos ou desenvolver ideias, parte desse
exercício cognitivo deixa de acontecer. O risco não está na utilização da
tecnologia em si, mas na substituição sistemática do pensamento humano pelo
processamento algorítmico.
"Diversos
estudos em psicologia cognitiva mostram que o cérebro funciona como qualquer
outro sistema adaptativo: competências frequentemente utilizadas tendem a se
fortalecer; capacidades pouco exercitadas tornam-se progressivamente menos
eficientes. Em outras palavras, pensar continua sendo um exercício", diz.
É justamente por
isso que Rodrigo de Barros sustenta que criatividade deve ser compreendida como
uma competência a ser continuamente desenvolvida, e não como um talento
permanente ou imutável. Pessoas criativas mantêm repertório amplo, curiosidade
intelectual, disposição para aprender e capacidade de enfrentar problemas
complexos sem depender exclusivamente de respostas prontas.
Esse debate ganha
importância em um momento em que muitas empresas começam a incorporar
inteligência artificial em praticamente todas as etapas do trabalho.
Ferramentas generativas são utilizadas para produzir campanhas de marketing,
elaborar pareceres jurídicos, desenvolver estratégias comerciais, criar
apresentações executivas e até formular avaliações de desempenho.
Segundo ele,
embora esses recursos aumentem significativamente a eficiência operacional,
existe um risco silencioso: profissionais podem deixar de desenvolver
exatamente as competências que lhes permitirão continuar relevantes em um
mercado altamente automatizado.
"O próprio
Fórum Econômico Mundial aponta o pensamento criativo como uma das competências
mais importantes para o futuro do trabalho. A Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE) também destaca que aprendizagem contínua,
resolução de problemas complexos e criatividade constituem pilares da economia
baseada no conhecimento", afirma.
Segundo Rodrigo de
Barros, essas recomendações reforçam uma ideia fundamental: inteligência
artificial não substitui criatividade; ela amplia a capacidade de execução das
pessoas. Entretanto, para que isso aconteça, o profissional precisa continuar
exercitando sua própria capacidade de pensar.
Ele diz que em vez
de utilizar a inteligência artificial apenas para produzir respostas, empresas
precisam incentivar seu uso como ferramenta de ampliação do raciocínio humano.
Isso significa estimular colaboradores a questionar resultados, confrontar
diferentes interpretações, validar informações, construir argumentos próprios e
utilizar a tecnologia como apoio — e não como substituta do pensamento.
"Cabe aos
gestores criar ambientes em que a reflexão continue sendo valorizada. Reuniões
de resolução colaborativa de problemas, debates multidisciplinares, programas
de aprendizagem contínua e momentos dedicados à experimentação tornam-se
mecanismos importantes para impedir que a facilidade proporcionada pela
inteligência artificial reduza o desenvolvimento intelectual das equipes",
afirma.
A tese de Rodrigo
de Barros reforça que inovação continua sendo um processo essencialmente
humano. Máquinas são capazes de organizar informações em velocidade
impressionante, mas ainda dependem das pessoas para definir quais problemas
merecem ser resolvidos, quais perguntas precisam ser feitas e quais
oportunidades ainda não foram imaginadas.
Nesse contexto, o
chamado "brain fry" representa menos um problema tecnológico do que
um desafio de desenvolvimento humano.
Para o
pesquisador, o futuro pertencerá às organizações que conseguirem equilibrar o
uso intensivo da inteligência artificial com o fortalecimento das capacidades
cognitivas de seus profissionais. Em uma economia em que algoritmos fazem cada
vez mais, a vantagem competitiva continuará pertencendo àqueles que jamais
deixarem de pensar.
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