Toda transação
bancária parece leve, quase imaterial. Um PIX, uma consulta de saldo, a
aprovação de um cartão: nada disso pesa na mão de quem usa o celular. Mas cada
um desses movimentos roda em algum lugar físico, em um data center que consome
energia, ocupa espaço e precisa ser refrigerado. A Inteligência Artificial (IA)
multiplicou essa conta e colocou diante de nós um paradoxo: a mesma tecnologia
que amplia de forma extraordinária nossa capacidade de processamento também
aumenta a pressão sobre os recursos necessários para sustentá-la. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo mundial
de eletricidade dos data centers deve mais que dobrar até 2030, chegando a
aproximadamente 945 TWh. Estratégia digital, desta forma, passou a ser também
estratégia energética.
Foi justamente
essa discussão que levamos à Febraban Tech 2026. E há um ponto que considero
fundamental: quando um cliente nos procura preocupado com eficiência
energética, muitas vezes essa preocupação vem vestida de uma pergunta muito
mais simples: “como está minha eficiência, quanto estou gastando em nuvem e por
que minha fatura chegou nesse valor?” Em um cenário de crescimento acelerado de
IA, dados e processamento, essa conta não pode mais ser um chute. Precisamos
pensar desde o início na arquitetura, na estrutura de dados e no consumo
esperado de cada sistema. Quando existe previsibilidade no desenvolvimento,
conseguimos prever capacidade, energia e custo. Eficiência deixa de ser uma
correção feita depois que a aplicação entrou em produção e passa a fazer parte
da engenharia do produto.
Isso também
significa olhar além do hardware. Servidores continuarão evoluindo, assim como
GPUs, sistemas de refrigeração e toda a infraestrutura dos data centers. O
resfriamento líquido, por exemplo, já oferece ganhos importantes de eficiência
em relação a determinadas arquiteturas baseadas em ar. Mas uma tecnologia
melhor sempre poderá ser comprada. A pergunta mais difícil é outra: o que
estamos levando em forma de software para dentro desses data centers? Hoje identificamos que cerca de 65% dos sistemas legados
apresentam algum tipo de sobreposição com outros sistemas. Na prática, isso
pode significar código semelhante sendo executado mais de uma vez dentro da
infraestrutura. É processamento desnecessário, perda de eficiência e,
consequentemente, desperdício de energia. Não adianta colocar software
ineficiente no data center mais moderno do mundo e esperar que a
sustentabilidade seja resolvida apenas pela infraestrutura.
É justamente nesse
ponto que a IA deixa de aparecer somente como parte do problema e começa a
fazer parte da solução. Acompanho projetos de modernização há mais de 30 anos e
vi iniciativas planejadas para durar dez, 15 ou 20 anos – muitas delas
canceladas porque a área de negócios simplesmente não conseguia esperar tanto
tempo. A IA Generativa mudou essa equação ao permitir que etapas de análise,
documentação, transformação e desenvolvimento sejam aceleradas e que projetos
antes difíceis de justificar passem a caber em horizontes muito mais razoáveis.
Mas existe uma diferença fundamental entre migrar e modernizar. Podemos pegar
um sistema criado décadas atrás, reescrevê-lo em uma tecnologia nova e levá-lo
para a nuvem. Se entregarmos ao cliente exatamente o mesmo processo antigo,
porém em outra infraestrutura, teremos modernizado a tecnologia sem
necessariamente eliminar a ineficiência.
É aí que os
agentes de IA ganham um papel ainda mais interessante nessa discussão. O
objetivo não deve ser somente modernizar sistemas, mas aproveitar essa
transformação para redesenhar processos, tornando-os mais inteligentes,
automatizados e agênticos. Isso permite eliminar etapas que perderam sentido, abandonar
processamentos que não são mais necessários e executar recursos de maneira mais
eficiente. O ganho aparece nas duas pontas: entregamos operações mais rápidas e
modernas ao cliente e, ao mesmo tempo, reduzimos processamento desnecessário.
Já sabemos que IA pode atuar diretamente sobre essa equação: em uma aplicação
pioneira, o Google e a DeepMind demonstraram redução de até 40% da
energia utilizada para refrigeração de data centers com machine
learning. O desafio agora é levar essa mesma lógica de inteligência
e otimização para todo o ciclo de vida do software.
Nada disso
funciona, porém, sem dois elementos que considero inegociáveis. O primeiro é um
bom desenho de arquitetura, capaz de oferecer previsibilidade de processamento,
capacidade de execução, consumo energético e custo. O segundo é uma estratégia
de dados que organize a convivência entre os ambientes antigos e novos durante
a modernização. Quanto menos conhecemos nossos sistemas e nossos dados, maior a
tendência de simplesmente replicarmos tudo. E replicação desnecessária
significa mais armazenamento, mais processamento e mais energia.
Sustentabilidade, portanto, não pode ser uma camada adicionada ao projeto no
final. Ela precisa começar na arquitetura. O software mais sustentável não é
apenas aquele que roda sobre energia limpa, mas aquele que evita consumir
recursos que não precisava utilizar desde o princípio.
O Brasil tem uma
oportunidade particular nessa equação. De acordo com o Balanço Energético Nacional 2025, 88,2% da eletricidade
produzida no país em 2024 veio de fontes renováveis. Em um mundo no qual a
disponibilidade de energia começa a determinar também a geografia da
computação, temos uma vantagem difícil de reproduzir. Mas abundância de energia
limpa não pode ser licença para desperdiçá-la. A IEA projeta que a demanda
elétrica dos data centers cresça muito mais rapidamente que o consumo global de
eletricidade nesta década, puxada principalmente pela IA. Quanto maior nossa
capacidade de atrair essa infraestrutura, maior também será nossa
responsabilidade de combinar matriz renovável, arquitetura eficiente, modernização
de software e uso inteligente dos recursos.
Por isso, quando
me perguntam onde estará rodando o core do sistema financeiro brasileiro daqui
a cinco anos, considero mais importante discutir como queremos que ele esteja
rodando. Precisamos separar o que realmente precisa ser modernizado daquilo que
ainda cumpre bem sua função, decidir onde cada carga deve ser processada e
buscar matrizes energéticas capazes de sustentar o crescimento que vem pela
frente. IA e agentes serão protagonistas desse movimento não apenas porque
exigirão mais capacidade computacional, mas porque nos oferecem ferramentas
para eliminar redundâncias, transformar processos e utilizar melhor essa
própria capacidade. Esse talvez seja o ponto central da contradição: a
tecnologia que está acelerando o consumo de energia também pode nos ajudar a
consumir de maneira muito mais inteligente.
Na próxima etapa da transformação digital, eficiência tecnológica, eficiência econômica e responsabilidade ambiental terão de ser tratadas como partes do mesmo projeto.
Jonatas
Leandro - VP de Inovação e Business Development Platform LATAM da GFT
Technologies
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