Memes associam
ambientes sofisticados a contas altas, mas especialistas apontam que
atendimento atenção aos detalhes e coerência entre promessa e entrega são o que
transformam uma refeição em experiência
A brincadeira circula há vários meses nas redes
sociais, o cliente entra em um restaurante sem olhar os preços, começa a tocar
música clássica e imediatamente se preocupa com a conta. O meme funciona porque
iluminação, decoração, louça, trilha sonora e até a distância entre as mesas
ajudam a criar uma expectativa antes do primeiro pedido.
Entretanto, uma atmosfera impecável, sozinha, não
garante uma boa experiência. Dados da OpenTable mostram que as reservas para
experiências gastronômicas cresceram 46% em 2025 e que 37% dos consumidores
pesquisados gostariam de encontrar mais propostas desse tipo em 2026.
Para Marcelo Marani,
fundador e CEO da Donos de Restaurantes, escola para empresários do food
service, o erro começa quando o estabelecimento se preocupa em parecer
especial, mas não pensa em como o cliente se sente depois que se senta à
mesa.
A trilha sonora pode comunicar sofisticação, assim
como uma iluminação bem planejada ou uma louça mais elaborada, porém a
percepção de valor é construída durante toda a refeição. “O cliente pode se encantar
nos primeiros minutos, mas é na mesa que o restaurante precisa confirmar aquela
expectativa. Se ninguém percebe que ele está esperando para pedir, se o prato
demora sem explicação ou se é preciso chamar três vezes para conseguir a conta,
toda aquela atmosfera perde força”, afirma Marani.
As vendas de bares e restaurantes cresceram 7,4% em
agosto de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior, segundo o Índice
Abrasel Stone, completando 11 meses consecutivos de avanço anual. Ao mesmo
tempo, a própria Abrasel ressalta que os empresários ainda enfrentam pressão
sobre custos e margens, o que aumenta a necessidade de transformar movimento em
recorrência, e não apenas em mesas ocupadas.
O cliente percebe o que
acontece depois que senta
Na visão de quem frequenta um restaurante,
surpreender nem sempre significa oferecer algo grandioso. Muitas vezes, o que
permanece na memória são situações pequenas: ser recebido de forma atenciosa,
não precisar procurar um garçom, receber o prato no tempo esperado ou perceber
que uma restrição alimentar informada na reserva foi lembrada pela equipe.
Pesquisa da SevenRooms divulgada em 2025 reforça
essa mudança de expectativa. Entre mil consumidores norte-americanos ouvidos
pela empresa, 74% disseram que pretendiam voltar ou já haviam retornado a um
restaurante depois de uma experiência considerada única. O levantamento também
identificou disposição para pagar mais por personalizações, como menus
degustação adaptados às preferências do cliente e experiências preparadas para
ocasiões especiais.
“Surpreender não é necessariamente colocar flores
na mesa ou oferecer uma sobremesa gratuitamente. Muitas vezes é perceber o
cliente. É lembrar que ele pediu uma mesa mais tranquila, entender que está
comemorando alguma coisa ou simplesmente resolver um problema antes que ele
precise reclamar”, explica Marani.
O cuidado também passa por não transformar
personalização em invasão. Para o especialista, conhecer preferências serve
para reduzir atritos e tornar o atendimento mais natural. A equipe precisa
observar a mesa sem interromper constantemente, identificar o momento certo de
oferecer outro pedido e respeitar tanto quem deseja uma refeição rápida quanto
quem pretende permanecer por mais tempo.
O que realmente pode
surpreender na mesa
Para Marani, alguns cuidados ajudam restaurantes de
diferentes faixas de preço a melhorar a experiência sem depender de reformas
caras ou de uma ambientação luxuosa.
1.Fazer o cliente se sentir
percebido
Reconhecer uma comemoração, lembrar uma preferência
registrada na reserva ou adaptar uma recomendação ao que a pessoa procura cria
uma sensação de atenção individual. “Personalização não significa tratar o
cliente como celebridade. Significa demonstrar que ele não é apenas mais uma
mesa”, observa.
2.Cuidar do tempo da
experiência
Uma espera de poucos minutos pode parecer longa
quando ninguém dá satisfação. Se houver atraso, a equipe deve informar antes
que a dúvida vire irritação. O mesmo vale para pedidos, bebidas e fechamento da
conta. “Boa experiência também é gestão de expectativa. O problema nem sempre é
esperar. Muitas vezes é não saber por quanto tempo se vai esperar”, ressalta
Marani.
3.Resolver pequenos problemas
rapidamente
Prato errado, temperatura inadequada ou pedido
esquecido podem acontecer. O diferencial está na reação. Para Marani, tentar
justificar excessivamente uma falha costuma piorar a percepção. Ouvir, corrigir
e acompanhar a solução tende a produzir uma resposta melhor.
4.Garantir coerência entre
preço e entrega
Um ambiente sofisticado eleva a expectativa. Quanto
maior a promessa transmitida pela decoração, pelo cardápio e pelo preço, maior
tende a ser a cobrança por consistência. “Se o restaurante comunica uma
experiência premium, tudo passa a ser observado. Não adianta ter música clássica
e uma taça bonita se o atendimento é desorganizado”, aponta.
5.Criar uma lembrança que faça
sentido
Um prato característico, uma apresentação
diferente, um atendimento especialmente atento ou um pequeno cuidado em uma
celebração podem se tornar aquilo que o cliente conta depois para outras
pessoas. O importante, segundo Marani, é que a iniciativa esteja conectada à
identidade do estabelecimento e não pareça uma ação ensaiada apenas para
produzir fotos.
A conclusão também ajuda a explicar por que o meme
da música clássica continua funcionando. O consumidor aprendeu a reconhecer
sinais de sofisticação e rapidamente associa esses elementos ao preço. O
desafio dos restaurantes, porém, começa justamente depois dessa primeira
impressão.
“Criar expectativa é fácil. Difícil é entregar uma
experiência à altura dela até o momento em que o cliente sai pela porta. O
restaurante que entende isso deixa de pensar apenas em decoração, música ou
comida e passa a olhar para toda a jornada de quem está sentado à mesa”, conclui
Marani.
A música pode ajudar a definir o clima e a decoração
pode render a primeira fotografia. O que determina a lembrança, porém, costuma
acontecer depois: quando o cliente percebe que o restaurante prestou atenção
nele.
Marcelo Marani - fundador e CEO da Donos de Restaurantes, uma das principais escolas para donos de restaurantes da América Latina. Professor formado em Ciência da Computação, com mestrado em Administração de Empresas, defendeu em 2007 uma tese que mostrava que 70% dos donos de restaurantes não trabalham com qualquer tipo de fidelização. Empresário, sócio de mais de 10 empresas do foodservice, com um faturamento de R$28MM em 2025, tem mais 27 anos de experiência no mercado de alimentação e é considerado um dos maiores especialistas em gestão e aumento de faturamento para restaurantes do Brasil. Marani é autor do livro Transforme o seu Restaurante em um Negócio Milionário, da editora Gente. É também host do podcast mais escutado no Brasil para donos de restaurantes. Foi apresentador de TV, no programa Café com Chef da Band domingo de manhã. Já treinou mais de 35 mil empresários, em 23 capitais do Brasil, e já fez trabalhos em Portugal e na Argentina. Para mais informações, visite o Instagram ou pelo site.
Fontes de pesquisa
Abrasel
https://bonito.abrasel.com.br/noticias/noticias/bares-e-restaurantes-faturaram-mais-em-2025-diz-pesquisa-de-servicos260319114043/
Abrasel
https://odp.abrasel.com.br/noticias/noticias/situacao-financeira-de-bares-e-restaurantes-volta-a-piorar-em-janeiro260306014352/
Abrasel
https://rs.abrasel.com.br/noticias/noticias/como-a-inteligencia-artificial-esta-ajudando-donos-de-restaurantes-a-ganhar-tempo-e-tomar-melhores-decisoes/
Abrasel
https://go.abrasel.com.br/noticias/noticias/restaurante-do-futuro-leva-automacao-e-ia-para-a-gestao-de-bares-e-restaurantes260817100031/
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