| Crédito: Matheus Campos Uma rotina organizada, com horários definidos e registro das doses administradas, ajuda a evitar esquecimentos e duplicidades de medicações |
Para muitos idosos, tomar
medicamentos faz parte da rotina. São comprimidos para controlar a pressão, o
diabetes, o coração, dores, alterações neurológicas e outras condições que
podem surgir ou se tornar mais frequentes com o passar dos anos. O cuidado
começa, porém, quando a lista cresce e passa a ser difícil saber se todos
continuam sendo necessários, como devem ser tomados e até se algum deles pode
estar causando um novo problema.
É o que acontece nos casos de
polifarmácia, termo geralmente utilizado quando há o uso simultâneo de cinco ou
mais fármacos. De acordo com o Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, médico de família e
comunidade da Palliative Care, a quantidade, isoladamente, não define se existe
um problema. “Um idoso pode usar seis ou sete medicamentos e todos terem
indicação adequada. Por outro lado, pode utilizar apenas três e um deles ser
desnecessário ou oferecer mais riscos do que benefícios”, explica.
Com o envelhecimento, o
organismo também passa a responder de maneira diferente aos tratamentos.
Alterações na função dos rins e do fígado, além de mudanças na composição
corporal, podem fazer com que uma dose bem tolerada por um adulto mais jovem
tenha um efeito mais intenso no idoso. E, quanto maior o número de substâncias,
maior a possibilidade de interações e de efeitos que podem comprometer o
bem-estar e a segurança.
Sonolência excessiva, confusão mental, tontura, fraqueza, quedas, perda de apetite, náuseas e alterações importantes da pressão são alguns sinais que merecem atenção. “Principalmente quando um sintoma novo aparece após a introdução de um medicamento ou depois de um aumento de dose, essa relação precisa ser considerada”, alerta Dr. Gustavo.
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| Divulgação Riscos da polifarmácia Quanto maior o número de substâncias ingeridas, maior a possibilidade de interações e de efeitos que podem comprometer o bem-estar e a segurança do idoso |
Cascata
Há ainda situações em que um efeito colateral acaba sendo confundido com uma
nova doença e outro remédio é acrescentado para tratá-lo. É a chamada cascata
de prescrição. Assim, apenas acompanhar a lista de diagnósticos não é
suficiente. É preciso olhar para o conjunto de terapias e para o cotidiano
daquele idoso.
Uma revisão periódica pode
ajudar a evitar problemas. O ideal é que o paciente ou familiar mantenha uma
lista atualizada de todas as prescrições utilizadas, incluindo vitaminas,
suplementos e produtos considerados naturais, e leve essas informações às consultas.
Também é importante retirar de circulação os medicamentos que foram suspensos,
para evitar que sejam administrados por engano.
“Uma boa consulta não é aquela em que necessariamente acrescentamos um medicamento. Muitas vezes, a melhor decisão é justamente retirar algo que já não traz benefício”, ressalta o médico. A chamada desprescrição, no entanto, deve ser feita com orientação profissional, pois alguns comprimidos precisam ser reduzidos gradualmente e não podem ser interrompidos de forma abrupta.
| Crédito: Matheus Campos É preciso fazer uma revisão das prescrições quando a lista de remédios cresce e passa a ser difícil saber se todos continuam sendo necessários |
Para familiares e cuidadores, a atenção também faz diferença. Uma rotina organizada, com horários definidos e registro das doses administradas, ajuda a evitar esquecimentos e duplicidades. E mudanças de comportamento, memória ou autonomia podem indicar que o idoso já precisa de maior supervisão.
“Nem todo remédio que foi
necessário um dia continuará sendo necessário para sempre”, ressalta Dr.
Gustavo. Para ele, o cuidado deve considerar não apenas as doenças, mas também
a funcionalidade, a rotina, a família e os objetivos de cada pessoa. “A
pergunta não deveria ser apenas ‘quantos comprimidos esse idoso toma?’, mas
para que serve cada um deles, qual benefício esperamos e se esse benefício
ainda faz sentido para aquela pessoa naquele momento da vida”, conclui o Dr.
Gustavo.
Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, médico de família e comunidade da Palliative Care

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