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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Prescrição de remédios para idosos exige revisão constante

Crédito: Matheus Campos
Uma rotina organizada, com horários definidos e registro das doses
administradas, ajuda a evitar esquecimentos e duplicidades de medicações
Combinações, doses e efeitos dos medicamentos podem interferir na saúde e até provocar sintomas inesperados

 

Para muitos idosos, tomar medicamentos faz parte da rotina. São comprimidos para controlar a pressão, o diabetes, o coração, dores, alterações neurológicas e outras condições que podem surgir ou se tornar mais frequentes com o passar dos anos. O cuidado começa, porém, quando a lista cresce e passa a ser difícil saber se todos continuam sendo necessários, como devem ser tomados e até se algum deles pode estar causando um novo problema. 

É o que acontece nos casos de polifarmácia, termo geralmente utilizado quando há o uso simultâneo de cinco ou mais fármacos. De acordo com o Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, médico de família e comunidade da Palliative Care, a quantidade, isoladamente, não define se existe um problema. “Um idoso pode usar seis ou sete medicamentos e todos terem indicação adequada. Por outro lado, pode utilizar apenas três e um deles ser desnecessário ou oferecer mais riscos do que benefícios”, explica. 

Com o envelhecimento, o organismo também passa a responder de maneira diferente aos tratamentos. Alterações na função dos rins e do fígado, além de mudanças na composição corporal, podem fazer com que uma dose bem tolerada por um adulto mais jovem tenha um efeito mais intenso no idoso. E, quanto maior o número de substâncias, maior a possibilidade de interações e de efeitos que podem comprometer o bem-estar e a segurança. 

Sonolência excessiva, confusão mental, tontura, fraqueza, quedas, perda de apetite, náuseas e alterações importantes da pressão são alguns sinais que merecem atenção. “Principalmente quando um sintoma novo aparece após a introdução de um medicamento ou depois de um aumento de dose, essa relação precisa ser considerada”, alerta Dr. Gustavo. 

Divulgação Riscos da polifarmácia
 Quanto maior o número de substâncias ingeridas, maior a possibilidade de
 interações e de efeitos que podem comprometer o bem-estar e a segurança do idoso

Cascata

Há ainda situações em que um efeito colateral acaba sendo confundido com uma nova doença e outro remédio é acrescentado para tratá-lo. É a chamada cascata de prescrição. Assim, apenas acompanhar a lista de diagnósticos não é suficiente. É preciso olhar para o conjunto de terapias e para o cotidiano daquele idoso. 

Uma revisão periódica pode ajudar a evitar problemas. O ideal é que o paciente ou familiar mantenha uma lista atualizada de todas as prescrições utilizadas, incluindo vitaminas, suplementos e produtos considerados naturais, e leve essas informações às consultas. Também é importante retirar de circulação os medicamentos que foram suspensos, para evitar que sejam administrados por engano. 

“Uma boa consulta não é aquela em que necessariamente acrescentamos um medicamento. Muitas vezes, a melhor decisão é justamente retirar algo que já não traz benefício”, ressalta o médico. A chamada desprescrição, no entanto, deve ser feita com orientação profissional, pois alguns comprimidos precisam ser reduzidos gradualmente e não podem ser interrompidos de forma abrupta. 

Crédito: Matheus Campos
É preciso fazer uma revisão das prescrições quando a lista de remédios
cresce e passa a ser difícil saber se todos continuam sendo necessários

Para familiares e cuidadores, a atenção também faz diferença. Uma rotina organizada, com horários definidos e registro das doses administradas, ajuda a evitar esquecimentos e duplicidades. E mudanças de comportamento, memória ou autonomia podem indicar que o idoso já precisa de maior supervisão. 

“Nem todo remédio que foi necessário um dia continuará sendo necessário para sempre”, ressalta Dr. Gustavo. Para ele, o cuidado deve considerar não apenas as doenças, mas também a funcionalidade, a rotina, a família e os objetivos de cada pessoa. “A pergunta não deveria ser apenas ‘quantos comprimidos esse idoso toma?’, mas para que serve cada um deles, qual benefício esperamos e se esse benefício ainda faz sentido para aquela pessoa naquele momento da vida”, conclui o Dr. Gustavo.


 Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, médico de família e comunidade da Palliative Care


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