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| Ilustração: Divulgação Autistas Brasil |
Publicação gratuita da Autistas Brasil reúne 20 estratégias para tornar as refeições mais seguras, acolhedoras e menos estressantes
Entre 23% e 69% das crianças autistas apresentam seletividade
alimentar significativa, segundo estudos reunidos no guia “Meu filho
não come — Entendendo a seletividade alimentar no autismo”,
lançado pela Autistas Brasil. As pesquisas apontam que essas crianças podem
recusar cerca de 42% dos alimentos oferecidos e apresentar um repertório médio
de aproximadamente 19 itens. Estudos brasileiros citados na publicação
identificaram resultados semelhantes, com repertório em torno de 17 alimentos e
recusa de aproximadamente 44% do que é oferecido.
Voltado a familiares e cuidadores de crianças
autistas, o material gratuito utiliza uma linguagem acessível e uma abordagem
afirmativa da neurodiversidade para explicar por que algumas crianças
apresentam um repertório alimentar restrito. A publicação também oferece
orientações práticas para tornar as refeições mais seguras, acolhedoras e menos
estressantes.
A cartilha destaca que a seletividade alimentar não deve ser
interpretada automaticamente como birra, falta de educação ou tentativa de
manipulação. Em muitos casos, a recusa está relacionada à forma como a criança
percebe texturas, sabores, cheiros, temperaturas, cores e até mesmo os sons
presentes durante as refeições.
Questões gastrointestinais, dificuldades de mastigação e deglutição,
necessidade de previsibilidade e dificuldade para identificar sinais internos
de fome e saciedade também podem influenciar a relação da criança com a comida.
O guia é de autoria de Guilherme de Almeida, presidente da
Autistas Brasil, e foi elaborado com base em estudos científicos nacionais e
internacionais. A publicação reforça que não existe uma única forma correta de
comer e que o objetivo das intervenções não deve ser fazer uma criança autista
se alimentar da mesma maneira que uma criança não autista, mas construir uma
relação possível, segura e respeitosa com a comida.
“Quando uma criança autista recusa determinado alimento, é
fundamental compreender que pode existir um desconforto sensorial real por trás
daquela reação. Forçar, pressionar ou transformar a refeição em um conflito
tende a aumentar a ansiedade e a aversão à comida. Com este guia, queremos
oferecer informação confiável e estratégias acessíveis para que as famílias
consigam acolher as necessidades da criança, reconhecer seus limites e avançar
de maneira gradual, respeitosa e segura”, afirma Guilherme de Almeida,
presidente da Autistas Brasil.
Orientações
para reduzir conflitos durante as refeições
Ao longo de oito capítulos, o material apresenta situações que
devem ser evitadas. Entre elas estão forçar a criança a comer, usar alimentos
como recompensa ou castigo, fazer comparações com outras crianças, esconder
ingredientes nas refeições, restringir alimentos já aceitos para provocar fome
e expor a criança a situações que causem pânico.
A cartilha recomenda que familiares e cuidadores escutem a própria
criança e considerem suas formas de comunicação, incluindo fala, gestos e
recursos de comunicação alternativa ou aumentativa. O princípio apresentado é
que nenhuma decisão sobre alimentação deve ser tomada sem considerar as
sensações e os limites de quem está comendo.
A publicação também diferencia três situações. A primeira é a
preferência alimentar, quando a criança possui um repertório menor, mas
suficiente do ponto de vista nutricional. A segunda é a dificuldade alimentar,
quando a restrição começa a prejudicar a nutrição, o funcionamento ou o
bem-estar. A terceira é o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo, conhecido
pela sigla ARFID, diagnóstico que exige prejuízos concretos, como perda de
peso, deficiência nutricional, dependência de suplementos ou sofrimento
significativo.
Vinte
estratégias para aplicar em casa
Entre as orientações práticas, o guia sugere criar um ambiente
tranquilo, manter horários regulares, utilizar utensílios adequados ao perfil
sensorial da criança e garantir a presença de pelo menos um alimento seguro no
prato.
A aproximação com novos alimentos deve acontecer sem pressão e
pode começar fora do horário das refeições. Brincar com alimentos, participar
do preparo, tocar, cheirar ou observar uma comida nova já são considerados
passos importantes. A publicação orienta que o contato seja feito em etapas e
que a criança possa interromper a experiência quando se sentir desconfortável.
O material também recomenda oferecer escolhas dentro das
possibilidades da família, utilizar apoios visuais, respeitar uma resposta
negativa e criar “pontes” entre alimentos já aceitos e novas opções com
características semelhantes de textura, formato ou sabor.
Entre as estratégias nutricionais estão enriquecer alimentos que a
criança já consome, oferecer a mesma comida em apresentações diferentes, manter
uma rotina de hidratação e registrar, sem cobrança excessiva, os alimentos
seguros e os novos contatos realizados.
Quando
procurar ajuda profissional
A cartilha orienta as famílias a buscarem avaliação especializada
quando a alimentação restrita comprometer o crescimento, a nutrição ou a
participação social da criança. Perda de peso, sinais de deficiência
nutricional, engasgos frequentes, dificuldade para engolir, vômitos diante de
alimentos, ansiedade intensa nas refeições e aversão a grupos alimentares
inteiros estão entre os sinais de alerta.
O acompanhamento pode envolver terapeuta ocupacional,
nutricionista, fonoaudiólogo, gastroenterologista pediátrico, psicólogo
neuroafirmativo e pediatra. A Autistas Brasil recomenda que as famílias
procurem profissionais com uma abordagem afirmativa da neurodiversidade, que
não utilizem coerção, não prometam “cura” e respeitem o ritmo e as
características da criança.
O guia também apresenta orientações para escolas, incluindo a possibilidade
de adaptações no refeitório, acompanhamento por profissional de apoio, inclusão
das necessidades alimentares no Plano de Atendimento Educacional Especializado
e adequação do cardápio escolar mediante prescrição.
Além das recomendações direcionadas às crianças, a publicação
aborda a sobrecarga emocional enfrentada por mães, pais e cuidadores. O
material incentiva a construção de redes de apoio, a divisão de
responsabilidades e a busca por acompanhamento psicológico quando necessário.
Sobre a Autistas Brasil
Organização nacional fundada e liderada por pessoas autistas, a Autistas Brasil atua na formulação de políticas públicas, na incidência jurídica e no desenvolvimento de programas educacionais em larga escala. Nos últimos três anos, suas ações alcançaram mais de 21 mil educadores em todo o país, consolidando a instituição como referência em inclusão, neurodiversidade e direitos humanos.

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