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As
chamadas canetas emagrecedoras mudaram a conversa sobre perda de peso.
Medicamentos que atuam sobre o GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, passaram
a fazer parte da rotina de um número crescente de pessoas e também das
discussões nas redes sociais.
De acordo com a Anvisa somente no segundo semestre de
2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos que poderiam ser
utilizados na preparação de aproximadamente 20 milhões de doses de medicamentos
injetáveis da classe dos agonistas de GLP-1.
Mas, em meio ao entusiasmo com a possibilidade de
perder peso com mais facilidade, existe uma pergunta que merece ganhar espaço:
se a pessoa está comendo menos, ela está necessariamente comendo melhor? A
resposta é não.
É justamente nesse ponto que o acompanhamento
nutricional ganha ainda mais relevância. Ao reduzir a fome e aumentar a
sensação de saciedade, os medicamentos podem levar a uma diminuição
significativa da quantidade de alimentos consumidos. E, quando o volume da
alimentação diminui, a qualidade nutricional das escolhas passa a ser ainda
mais importante.
Para Vanessa Rocha, nutricionista do Mundo Verde, o
momento exige justamente o contrário de uma alimentação cada vez mais
restritiva: é preciso olhar para o que está sendo consumido, e não apenas para
quanto. “Quando a fome diminui, existe o risco de a pessoa simplesmente reduzir
muito a quantidade de comida e acreditar que isso, por si só, é suficiente para
emagrecer com saúde. Mas comer menos não significa necessariamente comer
melhor. Se o volume alimentar caiu, precisamos garantir que aquilo que
permanece na alimentação tenha qualidade e forneça os nutrientes necessários”,
explica.
A nutricionista aponta cinco cuidados que merecem
atenção durante o tratamento com medicamentos à base de GLP-1:
1. Menos fome, mais atenção ao que vai para o prato- com a redução do apetite, algumas pessoas passam a fazer
refeições muito menores, pular refeições ou até perder o interesse por
determinados alimentos. Embora a menor ingestão energética possa fazer parte do
processo de emagrecimento, a restrição excessiva pode dificultar o consumo
adequado de nutrientes. Por isso, o trabalho do
nutricionista vai muito além de montar uma dieta. O profissional avalia as
necessidades individuais e adapta a alimentação à rotina, aos objetivos, à
composição corporal, ao nível de atividade física e à tolerância de cada
paciente ao tratamento. “Uma das principais preocupações é
garantir que, mesmo comendo menos, a pessoa continue recebendo proteínas,
fibras, vitaminas, minerais e líquidos em quantidade adequada. A estratégia não
deve ser simplesmente reduzir o prato, mas tornar as refeições menores mais
nutritivas”, afirma Vanessa.
2. Proteínas, fibras, hidratação e densidade nutricional: o
quarteto que merece atenção- com a
perda de peso, preservar a massa muscular é um dos principais cuidados. A
ingestão adequada de proteínas, distribuída ao longo do dia de acordo com as
necessidades individuais, pode contribuir para esse objetivo. A alimentação
deve ser associada à prática de exercícios, especialmente os resistidos,
conforme orientação profissional. As fibras também merecem atenção.
Frutas, verduras, legumes, sementes e farelos são importantes fontes do
nutriente e podem contribuir para o funcionamento intestinal. Como alterações
gastrointestinais podem ocorrer durante o tratamento, a alimentação precisa ser
ajustada individualmente, considerando a tolerância de cada pessoa. A
hidratação é outro ponto importante. Náuseas, vômitos e diarreia, quando
presentes, podem aumentar o risco de desidratação. Mesmo com menor ingestão de
alimentos, a atenção ao consumo de líquidos deve permanecer. Já
quando o volume das refeições diminui, a densidade nutricional ganha ainda mais
importância. Ou seja: cada escolha pesa. Alimentos nutritivos devem ocupar
espaço na rotina, enquanto o excesso de produtos ultraprocessados e opções com
baixa densidade nutricional pode comprometer a qualidade da alimentação.
3. O perigo de transformar a caneta em uma solução mágica- outro comportamento que merece atenção é a ideia de que o
medicamento “faz todo o trabalho”. Embora os análogos de GLP-1 sejam
ferramentas importantes no tratamento da obesidade, eles não substituem
alimentação equilibrada, atividade física e mudanças de comportamento. “O
medicamento pode ajudar no controle da fome, mas não ensina sozinho a pessoa a
se alimentar. O acompanhamento nutricional pode aproveitar esse momento de
maior controle do apetite para trabalhar escolhas, rotina, qualidade da alimentação
e comportamentos que possam ser mantidos no longo prazo”, destaca. Isso
também ajuda a entender uma preocupação frequente entre quem emagrece: o
chamado efeito sanfona. Mais do que buscar uma dieta extremamente restritiva
durante o uso da medicação, é importante desenvolver estratégias alimentares
sustentáveis para que os hábitos construídos possam continuar fazendo parte da
vida do paciente.
4. O que filtrar em meio ao excesso de informação? se as canetas ganharam espaço nos consultórios, também conquistaram
as redes sociais. Vídeos com “dietas para quem usa Ozempic”, listas de
alimentos proibidos, estratégias para potencializar o emagrecimento e
recomendações de suplementos se multiplicam diariamente. O
problema é que uma estratégia que funciona para uma pessoa não necessariamente
funciona para outra e algumas orientações podem até ser inadequadas. “Estamos
vivendo uma avalanche de informações sobre emagrecimento. É importante entender
que não existe uma alimentação padrão para quem utiliza GLP-1. Cada pessoa tem
necessidades, objetivos, rotina, composição corporal e tolerância diferentes.
Por isso, a orientação individualizada é tão importante”, ressalta Vanessa.
5. O objetivo vai além da balança- no fim das contas, a discussão sobre as canetas emagrecedoras
não deveria se resumir ao número que aparece na balança. A perda de peso pode
ser parte do tratamento, mas a qualidade da alimentação, a preservação da massa
muscular, a hidratação e a construção de hábitos sustentáveis também fazem
parte desse processo. “Emagrecer pode ser o começo de
uma mudança, e não o ponto final. O mais importante é que o paciente consiga
construir uma forma de se alimentar e cuidar da saúde que faça sentido para a
sua vida e que possa ser mantida no futuro. O medicamento é uma das estratégias
de tratamento, mas os hábitos construídos ao longo do acompanhamento são
fundamentais”, conclui a nutricionista.

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