Reposição hormonal
deve ser avaliada individualmente e não pode ser confundida com o uso do
hormônio para ganho de performance ou estética
Magnific
Um dado vem assustando a comunidade médica. Segundo
a Anvisa, o uso de testosterona cresceu 670% nos últimos cinco anos. E não é
difícil de perceber esse comportamento. Quem frequenta academia já ouviu falar
do poder da testo, como é chamada no dia a dia. “A gente vem observando um
movimento grande nesse sentido, sobretudo quando o assunto é performance, seja
para musculação, por exemplo, seja para uma melhoria da atividade sexual”,
comenta o urologista Ruimário Coelho.
O crescimento do interesse pelo hormônio, porém,
acende um alerta para um problema que muitas vezes fica escondido por trás da
promessa de mais músculos, disposição e desempenho sexual: o uso de
testosterona sem indicação e acompanhamento médico não é sinônimo de reposição
hormonal e pode trazer consequências à saúde.
De acordo com o especialista, os níveis de
testosterona podem sofrer uma redução natural ao longo do envelhecimento, mas
isso não significa que todo homem precise fazer reposição hormonal. “É
importante diferenciar reposição de testosterona para quem está com os níveis
baixos e o uso abusivo do hormônio. Hoje existe muita confusão relacionada a
isso”, explica.
Segundo Ruimário, a decisão sobre uma eventual
reposição não deve ser tomada apenas a partir da idade ou de um resultado
isolado de exame. A avaliação precisa considerar o paciente de maneira
integral, investigando sintomas, histórico de saúde e possíveis fatores
associados à queda hormonal.
“Não existe um nível adequado de testosterona que,
sozinho, determine a necessidade de tratamento. A idade por si só também não
define a necessidade de reposição. Muitas vezes, a alteração está associada a
outro fator e é preciso fazer uma investigação mais minuciosa”, afirma.
Sono, atividade física e peso
também entram na equação
Antes de recorrer ao hormônio, alguns hábitos podem
contribuir para a manutenção da produção natural de testosterona. O
especialista destaca três pilares: atividade física, controle do peso e
qualidade do sono.
“A gente produz testosterona durante uma fase
específica do sono. Quem dorme mal provavelmente vai ter uma queda na produção
desse hormônio. Melhorando o sono, podemos regular o nível de produção algumas
vezes”, explica.
A prática de exercícios físicos, especialmente a
musculação, também desempenha papel importante. O ganho de massa muscular está
relacionado à saúde metabólica e hormonal, enquanto a obesidade pode estar
associada a níveis mais baixos de testosterona.
A orientação, segundo o urologista, não é
simplesmente “aumentar a testosterona”, mas entender por que os níveis estão
baixos e quais fatores podem estar interferindo na produção hormonal.
Uso indiscriminado pode
comprometer a fertilidade
Um dos principais pontos de atenção para homens
jovens está relacionado à fertilidade. O uso de testosterona externa pode
interferir na produção natural do hormônio e também na produção de
espermatozoides.
“O uso indiscriminado da testosterona é um dos
fatores de diminuição da fertilidade. Pessoas que querem ter filhos também
precisam tomar cuidado com a reposição”, alerta o urologista.
O risco é especialmente relevante porque muitos
homens que procuram o hormônio não necessariamente apresentam uma deficiência
hormonal que justifique o tratamento. Em busca de resultados estéticos ou de
performance, acabam utilizando doses e protocolos sem acompanhamento
especializado.
Para o especialista, a discussão também precisa
abandonar a ideia de que todo homem que faz uso inadequado de testosterona deve
ser simplesmente repreendido. O acompanhamento médico é fundamental inclusive
para aqueles que já fazem uso abusivo e desejam interromper ou reduzir o
consumo.
“É preciso tomar cuidado. Pacientes que têm
indicação de reposição podem ter benefícios, como melhora da disposição, da
massa muscular, do humor e da função sexual. O importante é ter orientação
adequada”, ressalta.
Reposição hormonal não é
sinônimo de uso estético
Quando existe indicação médica, a reposição de
testosterona pode fazer parte do tratamento de homens com deficiência hormonal
diagnosticada. O problema está em transformar o hormônio em uma espécie de
suplemento para melhorar a aparência, o desempenho físico ou sexual.
Além dos impactos sobre a fertilidade, o uso
inadequado pode estar associado a outros efeitos adversos. O especialista
também chama atenção para alterações relacionadas aos cabelos. “A testosterona
pode aumentar a calvície e a alopecia”, afirma.
A recomendação, portanto, é que homens que
apresentem sintomas relacionados a uma possível deficiência hormonal procurem
avaliação médica antes de iniciar qualquer tratamento. Mais do que buscar um
determinado número no resultado de um exame ou reproduzir protocolos vistos nas
redes sociais, é necessário investigar as causas da alteração e avaliar
individualmente a necessidade de tratamento. “A diferença do remédio para o
veneno é a dose”, finaliza Ruimário.
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